Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Você (não) está transando?

Estamos vivendo uma era que deveria configurar o auge da nossa atividade sexual. Mas pesquisas indicam o oposto

Como anda sua vida sexual? Essa é uma pergunta especialmente íntima, a não ser que você esteja respondendo a uma pesquisa. E essas pesquisas revelam que as pessoas estão se dedicando cada vez menos a atividades sexuais que envolvam algum tipo de parceria. Aparentemente, o sexo solitário está seduzindo mais. Até o celibato está em alta.

Uma dessas pesquisas (coordenada pela Universidade de Chicago) entrevistou mais de 9 mil pessoas nos EUA entre 2000 e 2018. Alguns dos resultados:

  • um terço dos homens entre 18 e 24 anos revelou não ter tido nenhuma atividade sexual no ano anterior;
  • a atividade sexual entre mulheres dos 25 aos 34 anos caiu de 12% para 7% nesse período;
  • a proporção de jovens adolescentes que não praticavam qualquer tipo de sexo subiu de 28,8% para 44,2%.

Outra pesquisa, com 7 mil mulheres australianas entre 18 e 39 anos, concluiu que metade delas experimentou algum tipo de angústia quando teve relações — “stress, culpa, vergonha ou infelicidade sobre suas vidas sexuais”. E sexo supostamente existe para dar prazer, e não angústia.

Uma terceira pesquisa, realizada no Reino Unido, ouviu 8.500 pessoas e chegou a conclusões pouco animadoras, reveladas no ano passado. Em 1991, os pesquisados disseram que transavam cinco vezes por mês. Em 2001, essa frequência caiu para quatro vezes e, em 2021, caiu para três. Um estudo alemão localizou essa tendência inclusive em casais que moravam juntos. 

E não são casos isolados. Segundo Soazig Clifton, diretora do serviço de pesquisas Natsal do University College London, “se você olhar pelo mundo, outros estudos semelhantes mostram também uma queda. Então, está parecendo uma tendência internacional”. Claro que essas pesquisas geralmente não focam nas camadas mais pobres e culturalmente precárias das populações. Mesmo assim, servem como termômetro de tendência.

O que está acontecendo? Dentro de uma perspectiva histórica, estamos vivendo uma era que deveria configurar o auge da nossa atividade sexual. Temos métodos anticoncepcionais, medicamentos e acessórios para tornar o sexo confortável e até pílulas que garantem a ereção masculina. O que mais é necessário?

O site Pornhub teve 42 bilhões de visitas em 2019. São 115 milhões de visitantes por dia

Existem algumas teorias levantadas para tentar explicar essa queda no interesse por sexo. Nenhuma delas é conclusiva, mas a soma indica algumas pistas.

Estamos mais ocupados

Aplicativos, celulares, sistemas de teleconferência, trabalho sem horário, séries que não acabam, grupos de WhatsApp, a guerra no noticiário. O mundo conectado nos dá cada vez menos tempo para as providências básicas de um momento de sexo: relaxar, criar um clima, nos entregar a preliminares, etc. Nada disso impede uma vida sexual intensa e rica para quem está disposto a isso. Mas dificulta bastante. Quantas dezenas de cenas românticas em filmes a gente já viu sendo interrompidas pelo celular?

Pandemia e paranoia

As medidas muitas vezes exageradas para combater a covid fizeram com que mesmo os casais mais íntimos passassem a se olhar com desconfiança. Se a situação estava tão feia que ficou arriscado até respirar ao lado de alguém, qual o incentivo para que, no mínimo, se beijem? Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, especialista em sexualidade da USP, o início do lockdown até ajudou a que pessoas praticassem mais sexo por estar trancadas. Mas, conforme a pandemia foi se prolongando, “a prática sexual passou a ser mais esporádica, e as falhas, como falta de desejo, bastante frequentes.” O que, segundo a doutora Abdo, aumentou os casos de violência doméstica, divórcios e separações.

Efeito Instagram

A busca da intimidade de astros e estrelas já custou o preço de um exemplar da Playboy. Um flash de uma pessoa famosa com pouca roupa era um prêmio a ser conquistado. Hoje, esses astros e estrelas se exibem pelo Instagram em busca de curtidas. Aconteceu uma vulgarização da intimidade, de segredos que só eram permitidos para poucos. Ícones tiram fotos de si mesmos, em ambientes artificiais e cheios de ostentação. A imagem que eles projetam joga a nossa vida na vala comum da frustração e da impotência. Descontentes com a vida que levamos, baixamos nosso nível de libido um pouco mais. 

Pornô para todos

Só o site Pornhub teve 42 bilhões de visitas em 2019. São 115 milhões de visitantes por dia. Ou 14 milhões por hora. Ou mais de 240 mil por minuto. Ou 4 mil a cada segundo. Como informa o site da empresa, “este é o equivalente às populações de Canadá, Austrália, Polônia e Holanda”. São 209 gigabytes de pornô por segundo. E ficou longe o tempo de degradação e abuso de mulheres, como Linda Lovelace em seu Garganta Profunda (1972). A maioria das produções hoje envolve casais querendo ganhar um dinheiro extra, às vezes farto, com produções caseiras. Deixou de ser também um produto exclusivamente para homens tarados. Bissexuais, trans, gays, mulheres, homens, lésbicas, idosos, todo tipo de gente (menos menores de idade) está estrelando filmes no Pornhub. E o usuário tem milhões de possibilidades para encontrar sua fantasia perfeita. A idade média do visitante é 36 anos. A maior faixa de público (36%) está entre os 25 e os 34 anos. O tempo médio de uso no Pornhub é de dez minutos, muito provavelmente o tempo que leva uma pessoa a procurar a autossatisfação. Conclusão: está cada vez mais fácil fazer sexo a sós. E nos fazer refletir sobre as consequências do sexo “presencial”. E essa tendência parece cada vez mais irreversível.

Linda Lovelace é a protagonista do filme Garganta Profunda | Foto: Reprodução


O caminho aberto pelo hentai

Os japoneses inventaram o hentai — o desenho animado erótico para adultos. Com isso, abriram as portas para fantasias sem limites. Porque não existe nessas produções ninguém sendo abusado ou com algum tipo de limite físico. São apenas pixels sendo manipulados num computador. As fantasias mais radicais — a base mesma do erotismo — se tornam possíveis. Fantasias que provavelmente não existem no mundo real. Logo teremos experiências sexuais no chamado metaverso. Estaremos isolados da realidade, imersos em fantasias impossíveis e inconfessáveis. O sexo se tornará cada vez mais uma atividade mental. E então chegaremos à realidade (explorada dramaticamente na série Westworld) do sexo com robôs. Mas esse já é assunto para outro artigo.

Imagem do hentai NTR Kanojo Suzumori Mizuki | Foto: Divulgação


Nem todo mundo quer sexo

Um dos mais fortes preconceitos de fundo sexual se volta exatamente para quem simplesmente não gosta de sexo. Segundo uma estimativa da Brock University, no Canadá, 1% da população mundial é composto de pessoas que não sentem necessidade de sexo. Esse número confirma o mesmo porcentual do célebre relatório Kinsey, do final da década de 1940. Assexuados podem amar, se casar, ter uma vida afetiva plena — mas sem transar. O que leva a essa situação? Condições psicológicas e hormonais. Mas não é uma “doença”, é uma condição. Parte dos que dizem que estão fazendo menos sexo pode estar apenas assumindo a condição de assexuado. Segundo um estudo da Faculdade de Medicina da USP, essa proporção de desinteressados é bem maior no Brasil: 2,5% dos homens e 7,7% das mulheres entre 18 e 80 anos.

Os abusos e a paranoia

Passamos as últimas décadas lutando pelo fim de abusos e violências sexuais. É uma grande conquista determinar legal e culturalmente que o único sexo permitido é o sexo consentido. Mas essa mudança de paradigma, quando levada ao exagero, provoca medo. E quem tem medo — de um processo por assédio, por exemplo — vai acabar fazendo parte das estatísticas sobre a queda do interesse por sexo. 

Animação pornô 3-D disponível no Pornhub | Foto: Reprodução

O sexo faz parte de nossa condição de animais. Temos muitas das características que observamos nos programas de canais educativos tipo National Geographic. As definições culturais de sexo podem estar passando por um caminho de grandes transformações. Mas algumas das características mais básicas de nossos instintos continuam lá, em nossos cérebros, descontroladas, nos ameaçando de tirar o controle de nosso comportamento civilizado e racional. É o id, segundo Freud, explicado pela Enciclopédia Britannica — “o conteúdo psíquico relacionado aos instintos primitivos do corpo, notadamente o sexo e a agressão”.

Não importa o que digam as pesquisas, o sexo vai continuar sendo o que sempre foi dentro de nossas cabeças — caça, posse, dominação, troca de fluídos, geração de descendentes, demarcação de território, desejos incontroláveis, agressividade, fantasias secretas. Manter um controle civilizado sobre esses nossos instintos é uma coisa; negar que eles existam não faz sentido.

Leia também “Museu de ideias mortas”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

9 comentários Ver comentários

  1. Sou católico, namoro com uma moça católica, e vivemos a castidade.
    Se os jovens tivessem suas vidas orientadas à castidade, suas vidas seriam radicalmente diferentes e melhores. A possibilidade de desmitificar o ato sexual, reserva-lo para o momento certo (casamento), e priorizar o amor em detrimento da fornicação, somente gera bons frutos ao casal e a sociedade como um todo.
    Sem falar no mais importante, é claro, que é agradar a Deus no processo e fazer jus ao seu amor.

    1. Ótimo questionamento, Juliano! Fiz um comentário questionando exatamente isso, uma vez que sou Católico e vivo a castidade com a minha namorada.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.