João Doria anunciou nesta quinta-feira (31) que deixa o cargo de governador do Estado de São Paulo e segue na disputa pela Presidência | Foto: Governo do Estado de São Paulo
João Doria anunciou nesta quinta-feira (31) que deixa o cargo de governador do Estado de São Paulo e segue na disputa pela Presidência | Foto: Governo do Estado de São Paulo

A terceira via e o povo bestializado

O que une o sonhador indeciso e o jogador egoísta

“O povo assistiu àquilo bestializado…”, a citação passou à história como retrato da Proclamação da República, um movimento alheio aos anseios populares e à participação das massas. Num país dado a conchavos de furna e acertos de gabinete, a frase permanece atualíssima e agora descreve com primor a reação do já minguado eleitorado da terceira via: “…atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”.

Palavras que desmoronam

Verba volant, o brocardo latino nos ensina que as palavras voam. Mas os romanos não conheciam nossos artefatos tecnológicos de registro de som e imagem. Como tijolos, nossas palavras capturadas têm peso, e, uma vez empilhadas da maneira certa, podem até construir algo belo. Às palavras e aos tijolos, então:

Desistir da minha candidatura seria desistir de mudar o Brasil, o que é o meu sonho. Não existe qualquer possibilidade disso vir a acontecer” — tocante, mas o autor dessa fala acordou do seu sonho; ou será que sonhava acordado? Pouco importa, dias depois, publicou por escrito (scripta manent):

Abro mão, nesse momento, da pré-candidatura presidencial e serei um soldado da democracia para recuperar o sonho de um Brasil melhor” — parece que o indeciso sonhador desistiu de sonhar grande e suas palavras, como pesados tijolos mal-arranjados, desmoronaram sobre ele. E por falar em desistência…

O então ministro da Justiça, Sergio Moro, recebeu a Ordem do Ipiranga de João Doria em 2019 | Foto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo


Desistir de desistir

O anedotário do futebol não é estranho à licença poética e já estamos familiarizados com a ginga do boleiro que “fez que foi, não foi e acabou fondo” — mas quem disse que político não sabe driblar?

A “finta do fondo” foi o drible escolhido por um certo artilheiro que, sabendo que seria substituído por mau desempenho em campo, enganou até a comissão técnica do próprio time ao cavar uma falta na área e colocar a única bola da partida debaixo do braço:

O dia foi de vitória pro artilheiro sem gols que desistiu de desistir

— A gente só continua se eu bater o pênalti, se não desisto do jogo e sumo com a redonda!

O treinador, que já tinha escalado outro jogador pra cobrança, tentou desconversar:

— Devolve a bola, querido! Todo mundo sabe que você é o batedor oficial…

Mas até artilheiro que não marca gol é esperto, e o atacante cobrou seu técnico:

— Então, só pra garantir, avisa aí pra toda essa várzea, em alto e bom som, que eu, só eu!, vou bater esse pênalti…

E, assim, a cobrança foi anunciada pelo alto-falante. Só que a torcida estava distraída — de olho no outro jogador no aquecimento — e pouca gente comemorou… Acontece, mas o dia foi de vitória pro artilheiro sem gols que desistiu de desistir: ganhou aquele abraço do técnico na lateral do campo e recebeu dos companheiros de equipe vários tapinhas nas costas quando entrou no gramado segurando a bola do jogo.

Os protagonistas do sonho e do jogo

Há um denominador comum entre o sonhador indeciso de palavras que não se escrevem (nem se cumprem) e o jogador egoísta que sequestra a partida pra si e nunca joga pelo time: eles esquecem que os verdadeiros protagonistas do seu sonho e do seu jogo estavam lá, assistindo a tudo isso, bestializados. Aos eleitores desencantados, nossa solidariedade na torcida de que eles não percam a esperança no Brasil. Este país é muito maior do que as fantasias de uns e os estratagemas de outros.


Caio Coppolla é comentarista político e apresentador do Boletim Coppolla, na Jovem Pan

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13 comentários Ver comentários

  1. infelizmente os bandos políticos em extinção só tem uma alternativa de escaparem à extinção é apoiando Ciro que oportunista aceita até o Putin para se eleger … somados esta escória e rebotalho político não somam 5% mas ainda tem força nos grotões para levar o bocão ao segundo turno .. pobre Brasil.

  2. SP a maior cidade do Brasil em todos os aspectos, as vezes me pergunto como o Paulista se permitiu Doria como governador, o que levou o povo a ter esta aberracao no palácio dos Bandeirantes? Esperamos que não persistam no erro
    Já chega de políticos que só pensam em seu próprio projeto de poder!

  3. Obrigado por nos brindar com sua escrita. Infelizmente esses personagens folclóricos se reúnem em gabinetes e traçam seus planos sem levar em conta aquele que deveriam levar.. o povo! Insistem em candidatos que à vida real nos mostra que não terão 2% de votos! Povo? Para que serve mesmo? Perguntam eles.. o resultado é esse filme dos horrores que assistimos: população desinteressada nos políticos, uma parte tão desacreditada que está inclinada a votar no ladrão e ditador de nove dedos. Triste, muito triste. Gostaria de ver candidatos probos, engajados nos anseios populares, na construção do nosso Brasil. Ao contrário vemos candidatos dignos de uma nota de três reais sendo empurrados em nossas gargantas. Meu sonho era ver esse povo acordar e virar à mesa! Uma revolução francesa à Brasileira! Que sonho! Acordar de manhã e saber que todo STF e toda essa quadrilha do PT e seus partidos nanicos e corruptos, tivessem sido expulsos do país ou degolados em praça pública! Que sonho….

  4. Calcinha apertada não ganha nem pra sindico!! O brasileiros já perceberam que ele é puro marketing, mais nada, nunca terminou uma legislação publica. Trairão. . .

  5. PIOR GOVRNADOR DE SP – é lamentavel pois esperavamos dele uma mudança na politica mas ele trouxe um novo atributo – COMO UTILIZAR-SE DO OPORTUNISMO EM DESRESPEITO AOS OUTROS – veja o que tentou fazer com a vacina criando até dados irreais.

  6. “Quem fala muito dá bom dia ao cavalo”, desde há muito tempo assim é. Moro e Doria fizeram isso , o cavalo nem abanou o rabo. Lula e Alkmin estão na mesma toada, o homem mais honesto do Brasil, ( 1º de abril) que só não roubou a esmola do cego, e aquele que garante que Lula é a esperança do Brasil e caminha para a cena do crime junto com ele, vão ter um fim melancólico.

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