João Doria, ao anunciar que não concorreria mais às eleições presidenciais de 2022 | Foto: Suamy Beydoun/AGIF/Estadão Conteúdo
João Doria, ao anunciar que não concorreria mais às eleições presidenciais de 2022 | Foto: Suamy Beydoun/AGIF/Estadão Conteúdo

A conta chegou

Como a vaidade, os editoriais da velha imprensa e um grupo de tecnocratas da covid ajudaram a arruinar a carreira política de João Doria

Na tarde da segunda-feira 13 de abril de 2020, no auge da pandemia de covid-19, o então governador de São Paulo, João Doria (PSDB), resolveu veicular uma peça publicitária em todos os meios de comunicação possíveis. A mensagem dizia: “Na luta contra o coronavírus, ficar em casa é um ato de amor”. Foram os 30 segundos mais desastrosos da sua carreira política.

Até hoje não se sabe quem foi o idealizador da frase. Talvez Doria tenha sido convencido pelo consórcio da imprensa. Ou a tese era consenso no recém-criado centro de contingência da covid no Palácio dos Bandeirantes. O fato é que a imagem do governador usando uma máscara preta, cercado por tecnocratas da elite paulistana e protegido por um púlpito de acrílico com a hashtag #FiqueEmCasa custou caro. Muito caro.

O tucano se tornou refém desse lugar. Em alguns momentos, chegou a dar sinais de que ele próprio não tinha certeza sobre a decisão do seu gabinete de mandar mais de 30 milhões de pessoas paralisarem suas vidas. Mas já era tarde.

Paralelamente, sucessivos editoriais de jornais aplaudiam as canetadas do comissariado chefiado pelos médicos João Gabbardo dos Reis e David Uip. A população foi bombardeada por manchetes apocalípticas. As transmissões de jogos de futebol aos domingos na TV passaram a exibir um placar de mortos pela covid. Em entrevista ao portal UOL, no dia 9 de maio de 2020, Doria chegou a dizer que pretendia endurecer ainda mais as regras de isolamento, “porque a morte estava chegando perto”. No Sul, seu rival interno no PSDB, o governador Eduardo Leite, havia acabado de determinar quais gôndolas nos supermercados eram “essenciais” e quais deveriam ser lacradas.

Prateleiras lacradas nos supermercados no Rio Grande do Sul | Foto: Reprodução

Em dezembro daquele ano, um dia depois de decretar a volta do Estado à chamada “fase vermelha” da pandemia, na qual praticamente todos os estabelecimentos eram obrigados a fechar as portas, Doria e a mulher, Bia, embarcaram de madrugada para Miami. A informação, publicada com exclusividade por Oeste, revelava que o casal permaneceria nos Estados Unidos até 3 de Janeiro.

Doria embarca para Miami um dia depois de intensificar as medidas restritivas no Estado de São Paulo | Foto: Reprodução

Enquanto os paulistas permaneciam trancados em casa, Doria foi flagrado — sem máscara — fazendo compras em um shopping de Miami. Os três filhos do casal haviam embarcado para Trancoso, na Bahia, onde as medidas restritivas praticamente não existiam.

Doria, num shopping de Miami | Foto: Reprodução

A informação pegou tão mal, que Doria retornou a São Paulo no dia seguinte, usando como desculpa o fato de o vice-governador, Rodrigo Garcia, ter sido diagnosticado com covid. Na quinta-feira 24, o tucano publicou um vídeo nas redes sociais: “Desculpas àqueles que imaginaram que eu estava aqui deixando a cidade ou o Estado de São Paulo, depois de medidas restritivas, para desfrutar uma vida confortável com menos restrições em Miami”. Não colou — pelo menos para a população.

O pai da vacina

Naquela época, uma colunista do jornal O Estado de S. Paulo apelidou Doria de “pai da vacina”. Outra jornalista repetiu o bordão num programa vespertino da GloboNews. O jornal Folha de S.Paulo afirmou que o desrespeito à quarentena imposta por Doria era estimulado por Bolsonaro. Pela primeira vez, o termo “genocida” foi usado sem nenhuma ponderação para se referir a um presidente da República — e nunca mais parou. Um articulista do jornal escreveu um texto intitulado “Por que torço para que Bolsonaro morra”.

Doria também quis aparecer no exterior. Em março de 2021, numa entrevista em inglês ao jornalista Lewis Vaughan Jones, da BBC internacional, disse que Bolsonaro era “louco” e que o “negacionismo” do presidente levaria o país a uma catástrofe mundial. Ele apareceu atrás de uma bancada com os dizeres “WeNeedVaccines (NósPrecisamosDeVacinas).

“Não há coordenação nacional para combater a pandemia no Brasil. O senhor Bolsonaro continua enfraquecendo os protocolos de saúde, tornando mais difícil acabar com essa pandemia. Na verdade, só está piorando”

Foi nesse momento que Doria achou que o seu plano de chegar à Presidência estava ganhando forma. Aumentou a verba de publicidade da máquina estadual de R$ 90 milhões para R$ 153 milhões. A Assembleia Legislativa nem sequer contestou a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), porque a causa era nobre: combater a desinformação na pandemia e estimular as pessoas a se vacinarem com todas as doses disponíveis. Turbinou os impostos de vários produtos, especialmente da gasolina e do leite longa vida, além da carne, dos têxteis (couro e calçados) e de alguns eletrônicos. Fechou o ano com R$ 50 bilhões de superávit no caixa. A receita deste ano é de R$ 286,7 bilhões, a maior da história.

“O governo estadual aumentou o imposto de tudo: fertilizante, combustível, energia elétrica e o que mais você possa imaginar”, afirmou o deputado Frederico D’Ávila, em entrevista a Oeste, em agosto de 2021, na qual acusou Doria de ser o maior problema a ser enfrentado pelo agronegócio paulista. “Aí, vieram com um discurso dizendo que não haviam aumentado os impostos dos produtos da cesta básica. Não aumentaram, mas aumentaram todos os insumos que você usa para produzir os produtos da cesta básica. Então seria melhor tributar só na gôndola do que a cadeia inteira. O governo não só aumentou o imposto do ovo, como o da embalagem do ovo. Também aumentaram a gasolina e o óleo diesel, que são a base de tudo.”

A capital da vacina

Doria e a prefeitura de São Paulo, então comandada por Bruno Covas, espalharam letreiros digitais em artérias da capital paulista, como as Marginais Tietê e Pinheiros, com os dizeres: “São Paulo, capital da vacina”. Também houve ações de marketing nos vagões do Metrô, da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) e em rodovias que cruzam o interior e o litoral. Praticamente todas as rádios paulistas receberam recursos para “divulgação social das ações, dos serviços, de programas e projetos de todo o governo do Estado de São Paulo”, conforme dizia o documento aprovado pelo Legislativo.

Enquanto tudo isso ocorria na sede do governo, no bairro do Morumbi, e nas redações da velha imprensa em quarentena, o pagador de impostos ficava cansado. As escolas e as universidades permaneciam fechadas. Os preços começaram a subir. O comércio de bairro foi obrigado a funcionar clandestinamente. A prática de esportes e o lazer foram proibidos. Pequenos empresários quebraram.

Em bairros da periferia da capital, como Cidade Tiradentes, Brasilândia e Capão Redondo, na orla vazia do Guarujá e de São Vicente ou às margens do Rodoanel caíam mal as declarações dos cientistas de que era hora de um “lockdown nacional”.

Autodestruição

Em 2016, tudo o que o eleitor paulistano queria era um nome novo na política, capaz de tirar o PT do comando do maior centro financeiro do Brasil. Candidato à reeleição, Fernando Haddad tinha deixado duas marcas: quilômetros de ciclovias suspeitas de superfaturamento que terminavam em muros e o programa Braços Abertos — que consistia na doação de R$ 15 por dia aos usuários de crack que varressem as ruas do Centro. O petista também alugou os hotéis degradados da região para os usuários deixarem as calçadas à noite. Os traficantes gostaram da proposta e montaram seus depósitos de drogas nos cortiços, cuja fiscalização ficou a cargo de ONGs.

Foi aí que João Doria surgiu. Ganhou as prévias internas no PSDB e conseguiu emplacar a imagem de que São Paulo precisava de um “gestor”. Tinha o apoio do ex-governador Geraldo Alckmin e era bastante conhecido pelo programa de TV O Aprendiz. Venceu Haddad, Marta Suplicy (MDB) e Celso Russomanno (Republicanos) no primeiro turno.

Menos de dois anos depois, com o impeachment de Dilma Rousseff e os brasileiros lotando passeatas contra a corrupção nas ruas, Doria quis ser presidente da República. Mas percebeu que não seria possível diante do fenômeno Jair Bolsonaro. Sem hesitar, lançou-se candidato a governador e mandou fabricar camisetas verde-amarelas com o slogan “BolsoDoria” antes mesmo de Geraldo Alckmin, seu padrinho e aliado político, cair fora da disputa. Márcio França (PSB), seu adversário na época, afirma que foi o apoio a Bolsonaro que o elegeu no apagar das luzes do segundo turno. O interior votou em peso em Doria.

O slogan BolsoDoria, criado pelo então candidato ao governo do Estado | Foto: Reprodução

Poucos meses depois de eleito — já de olho nas eleições presidenciais de 2022 —, Doria virou a casaca, negou o BolsoDoria e pulou para a oposição ao governo federal. “Nunca tivemos alinhamento com o governo Bolsonaro”, afirmou, à rádio CBN, em 30 de julho de 2019. Nesse momento, Doria passou a acreditar numa ilusão no mínimo absurda: que, com essa atitude, conquistaria também os eleitores da oposição. A verdade é que, se, antes de virar antibolsonarista, Doria era odiado pela esquerda, depois de virar antibolsonarista continuou sendo odiado pela esquerda e passou a ser detestado pelos apoiadores do presidente.

Poço de mágoas

Ao longo da semana, a reportagem de Oeste conversou com duas pessoas que acompanharam Doria de perto desde o começo da pandemia. Segundo os relatos, ele culpa o deputado Aécio Neves (MG) pelo fracasso na construção da candidatura à Presidência. O mineiro nunca escondeu o rancor por Doria ter defendido abertamente sua expulsão do partido quando foi flagrado pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista. Aécio insuflou o gaúcho Eduardo Leite a competir nas prévias e contou com o apoio dos senadores Tasso Jereissati (CE) e José Aníbal (SP) — o paulista é suplente de José Serra, que teve de se afastar para um tratamento de saúde.

Outro momento importante ocorreu no dia 31 de março. Na noite anterior, Doria avisou o vice, Rodrigo Garcia, que tinha mudado de ideia e permaneceria no cargo até o fim do mandato. Todos os jornais publicaram a notícia. Mas Garcia ficou furioso. Ele acabara de trocar o DEM (que virou um pedaço do União Brasil) pelo PSDB para concorrer ao governo. Mais: havia ajudado Doria a filiar dezenas de prefeitos no Estado justamente para que ele conseguisse vencer as prévias internas contra Eduardo Leite.

Rodrigo Garcia telefonou para o dono do seu antigo partido, Luciano Bivar, e para Gilberto Kassab, do PSD. Pediu legenda para concorrer ao Palácio dos Bandeirantes. A resposta foi positiva. A imagem de que Doria era um “traidor” e que sua vaidade estava em primeiro plano, como ocorreu com Bolsonaro, seria repetida. Se colasse, Garcia poderia faturar eleitoralmente.

Em poucas horas, Doria convocou uma entrevista coletiva para se despedir do cargo. Chorou. E acabou passando o bastão para o vice.

Nesta semana, ele oficializou também sua desistência de disputar a corrida presidencial. Deixa um partido que já foi protagonista no cenário político nacional em frangalhos. Fez inimigos no campo da direita e da esquerda. E, pela primeira vez desde que Mario Covas pôs fim ao “quercismo” — referência ao grupo político do ex-governador Orestes Quércia, do MDB —, colocou em risco a hegemonia tucana de três décadas no maior Estado do país.

Quando se elegeu prefeito, em 2016, Doria tinha tudo para ser uma estrela da política brasileira. Mas a queda foi ainda mais rápida que a ascensão. Sua aposta errada na covid, paralisando um Estado que não consegue ficar parado, fechando as escolas e o comércio e repetindo dia e noite a hashtag #FiqueEmCasa, foi a pá de cal no sonho de chegar ao Palácio do Planalto. O homem que queria ser presidente do Brasil hoje não consegue se eleger nem vereador. A conta chegou.

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