Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

O programa suicida do PT

O protótipo do programa de governo petista é uma reedição revista e ampliada do desastre

No último dia 6, o Partido dos Trabalhadores levou ao conhecimento do público o protótipo de um programa para um eventual governo daquele que se qualifica como a mais honesta de todas as almas. Intitulado “Diretrizes para o programa de reconstrução do Brasil”, o documento enumera as providências que, no seu entendimento, irão restaurar o país — o mesmo que eles arrasaram com as políticas desastradas que perpetraram entre 2003 e 2016. Na verdade, trata-se de uma reedição, revista e ampliada, do desastre.

São 18 páginas que arremetem contra a lógica econômica, espancam princípios morais e aplicam coças nas liberdades individuais e em que, flagrantemente, revelam uma incapacidade inacreditável de não aprender com todos os tipos de erros — os dos outros e os próprios, os involuntários e os intencionais, os veniais e os capitais. E tudo isso redigido com um cinismo impressionante e maculado de subterfúgios para esconder o real propósito, que é o de completar o serviço interrompido em 2016 pelo impeachment. O programa é uma demonstração inequívoca de que o devaneio do socialismo não acabou.

O texto, suportável para quem é dono de um razoável estoque de paciência, enfeixa uma introdução e quatro blocos: desenvolvimento social e garantia de direitos; desenvolvimento econômico e sustentabilidade socioambiental e climática; defesa da democracia; e reconstrução do Estado e da soberania. Não deixa de ser uma leitura recomendável, principalmente para que se aprenda tudo o que não deve ser feito.

Mais do mesmo

O estrupício começa a manifestar desprezo pela memória dos leitores no segundo parágrafo da apresentação, em que estabelece como objetivo “a criação de um projeto inovador e portador de futuro”, com vistas a construir “um Brasil para todos os brasileiros e brasileiras”. Em seguida, desfere a segunda rasteira, afirmando que a união das “forças progressistas e democráticas” não é apenas para buscar a vitória na eleição, mas reconstruir e transformar o Brasil: “Neste momento histórico decisivo, conclamamos todas as forças sociais, políticas e econômicas comprometidas com a democracia, com a soberania e com o desenvolvimento a somarmos esforços para reconstruir o Brasil, resgatando as forças, o otimismo e a esperança do povo brasileiro”.

Projeto inovador ou hino ao atraso? Portador de futuro ou recondutor a um passado fracassado? Forças progressistas e democráticas ou retrógradas e autoritárias? Reconstrução e transformação do Brasil ou destruição da reparação que vem sendo feita desde 2019? Desenvolvimento ou retorno aos voos de galinha? Democracia com admiração por ditadores? Soberania com adesão ao figurino globalista? Ora, parem de tergiversar e de subestimar a inteligência dos eleitores! Em 13 anos no poder — que, somados aos oito do então partido do seu patético pré-candidato a vice, perfazem mais de duas décadas —, que inovações, futuro, progresso, contribuição efetivamente positiva, soberania e desenvolvimento eles promoveram?

Não há novidades no documento. Ele nada mais é do que a confirmação — em tom menos raivoso e ligeiramente menos hostil ao português — do que o candidato petista vem apregoando diariamente, em tom artificialmente colérico, sempre em ambientes restritos a acólitos subservientes. O fato é que as intenções listadas no documento são claríssimas e configuram a rejeição a todo e qualquer respeito às liberdades individuais.

Venezuelização

Na economia, prometem “um projeto nacional de desenvolvimento justo, solidário, soberano e sustentável, superando o modelo neoliberal, que levou o país ao atraso”. Entretanto, para tal, voltam ao discurso dos anos 1950 de fortalecimento do mercado interno e falam em ressuscitar as “capacidades estatais com potencial de gasto social” e fortalecer o investimento público.

Para superar o tal modelo neoliberal — que só existe em suas narrativas —, propõem um conjunto de retrocessos, entre os quais: o fim do teto de gastos; a implosão da reforma trabalhista; o fortalecimento dos sindicatos; a revogação da autonomia do Banco Central; a reestatização de empresas privatizadas pelo governo atual; a extinção do programa de desestatização; a censura da internet e da mídia em geral, com os nomes fantasia de “regulação”, “controle social”, “combate a fake news” e “enfrentamento a discursos de ódio”; a tributação de “grandes fortunas” (com exceção das próprias, naturalmente); a criação de novas estatais; controles de preços considerados “estratégicos”; o restabelecimento do papel dos bancos públicos como principais agentes de crédito; a adesão à pauta ambientalista radical, com redução de emissões e transição energética; o comprometimento com o autoritarismo da Agenda 2030 da ONU; o retorno explícito à política externa de alianças com ditaduras de esquerda da América Latina e do resto do mundo. Para completar, não mencionam como pretendem cumprir algumas dessas promessas, aprovadas no Parlamento e transformadas em leis.

Não é necessário comentar os estragos que essas políticas econômicas causariam ao país, uma vez que o leitor de Oeste está familiarizado com todos os males que o intervencionismo acarreta. O que é realmente espantoso é ainda existir quem dê crédito a tamanho monturo de barbaridades. Tudo o que pretendem fazer agride a lógica econômica mais elementar. Parece que enxergam o Estado como um médico sem princípios éticos e autorizado a praticar a eutanásia da prosperidade.

Se as ideias coletivistas listadas saírem vitoriosas das urnas, em pouco tempo estaremos pareando com a Argentina e o Chile

Todavia, a abertura da estrada para a “venezuelização” não se limita às sugestões de medidas econômicas. Elas são apenas uma parte do projeto. Há muitos outros perigos no programa, encobertos sub-repticiamente pela manipulação da linguagem. Algumas de suas pautas são fartamente conhecidas, como a introdução definitiva da ideologia de gênero goela abaixo da população; o aparelhamento do Estado; o racismo fantasiado de “dívida histórica”; o feminismo radical; a desconstrução dos valores ocidentais, a começar pela família; a abolição da verdadeira história da nossa nação, substituída por narrativas distorcidas; a bandidolatria, com suas audiências de custódia, libertações de presos, visitas “íntimas”, “saídas” e “furtos por necessidade”; a desmilitarização das polícias; a radicalização do politicamente correto; o uso da linguagem neutra; as práticas sindicalistas e outras aberrações.

Quem duvida dessas intenções precisa olhar para a verdadeira eutanásia do país que o chavismo-madurismo promoveu na Venezuela, em apenas duas décadas; para a assustadora deterioração da economia e da sociedade da Argentina, que o peronismo-kirchnerismo produziu em três anos; e para o início do mesmo processo, que ora acontece no Chile do ultraesquerdista Gabriel Boric.

É dever moral e demonstração de amor aos descendentes e ao Brasil mostrar, para quem ainda se ilude com as ideias defendidas no documento, que no fim deste ano a escolha não será apenas entre dois candidatos, um de “direita” e outro de “esquerda”. O galo vai cantar em um terreiro muito maior, porque o que vai ser decidido pelos eleitores é se valorizam de fato sua liberdade ou se vão aceitar ser escravizados por uma ideologia desumana.

Esse dever se estende às escolhas para deputados, senadores e governadores. Os brasileiros precisam rejeitar toda e qualquer ideia contrária ao livre exercício das liberdades individuais. Acreditar em “terceira via”, nas condições atuais, além de ingenuidade ou oportunismo, é falta de patriotismo. Certos liberais e conservadores metidos a espertos têm o direito de não gostar do presidente, porém, prioritariamente, têm o dever de zelar pelo futuro de seus filhos e netos e de amar o país em que nasceram e vivem.

Se as ideias coletivistas listadas no programa suicida saírem vitoriosas das urnas — o que parece ser bem pouco provável, pois os eleitores atualmente já não são mais idiotas teleguiados como no passado —, em pouco tempo estaremos pareando com a Argentina e o Chile. E em viagem rumo à Venezuela e a Cuba.

O Brasil não merece isso.


Ubiratan Jorge Iorio é economista, professor e escritor. Instagram: @ubiratanjorgeiorio

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