Milton Neves | Foto: Divulgação
Milton Neves | Foto: Divulgação

“A imprensa escolheu um lado”

Entre outros assuntos, Milton Neves comenta a representação do PT no Tribunal Superior Eleitoral acusando o jornalista de publicar notícias falsas sobre Lula

Acostumado a mexer com a paixão de multidões de torcedores, Milton Neves há algum tempo rompeu as fronteiras do jornalismo esportivo ao abordar temas diversos da atualidade do país. Na última semana, com a campanha eleitoral fervendo, o apresentador da Band apareceu em primeiro lugar numa lista com os jornalistas mais influentes da internet brasileira — muito em razão de comentários sobre o noticiário político.

A liderança no ranking veio quase simultaneamente com a inclusão do seu nome numa representação do Partido dos Trabalhadores (PT) no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre supostas manipulações de notícias envolvendo Lula. A peça reclamava de “disseminação de desinformação” e reprodução de falas fora de contexto. Além de Neves, aparecem os filhos do presidente Jair Bolsonaro (PL), além de outros políticos e jornalistas.

O veterano dos microfones foi incluído depois de comentar o vídeo de um comício de Lula, no qual o petista discursa sobre mulheres sofrendo agressões dentro de casa. “Meu Deus! Essa é a ‘alternativa ao ódio’?”, escreveu o jornalista.

Milton Neves | Foto: Divulgação/Redes sociais

Definitivamente, não dou traço de audiência em qualquer veículo”, observou Neves, ao comentar a ação nas redes sociais. “E não é que isso esteja talvez preocupando o estafe do Lula lá no TSE?”.

Nesta entrevista, o jornalista fala sobre o tom exaltado do discurso de campanha de Lula e da escolha da imprensa por um lado da polarização política. Neves também critica o desequilíbrio no tratamento aos presidenciáveis nas sabatinas do Jornal Nacional e explica como conseguiu viralizar na internet com publicações provocativas. Entre elas, a que destacou o incômodo da esquerda com o encontro entre o bilionário Elon Musk e Bolsonaro.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

O senhor foi envolvido em ações do PT no TSE, acusado de disseminar notícias falsas sobre o ex-presidente Lula. Como está esse caso?

Meu advogado, Sergei Cobra Arbex, está cuidando disso. Eu tô cagando e andando para política. Não preciso de político, sou absolutamente independente. A única coisa que sou parcial é torcer para o Santos. Não fiz nada de errado. Estou muito orgulhoso, muito obrigado pela audiência do pessoal. Inclusive, estou com 2,3 milhões de seguidores no Twitter e, juntando Instagram e três contas no Facebook, bato 5 milhões. Meu negócio é futebol. Mas sou brasileiro, não sou preso, não sou processado, sou profissional diplomado, e dos bons. Falo e escrevo o que quiser. Pronto, não tenho que dar satisfação para ninguém. 


O senhor tem no currículo entrevistas com Lula e Bolsonaro. Como foram os contatos com os dois presidenciáveis? 

O Bolsonaro eu só vi uma vez na vida, quando ele esteve na Bandeirantes, e a emissora pediu para todos os apresentadores o receberem. Afinal, era o presidente da República. Foi a única vez que o vi. A do Lula foi uma coincidência geográfica. Cobri sete Macabíadas, que são os jogos esportivos e religiosos da comunidade judaica. O entrevistei em 1993, em Israel. Ele foi fazer média com os judeus, porque estava do lado dos árabes. Como pegou mal, aceitou um convite para ir para a Macabíada de 1993, em Tel-Aviv. E calhou de eu ficar do lado dele na tribuna da imprensa. Porque na tribuna principal só tinha autoridade importante: o primeiro-ministro Yitzhak Rabin, o presidente Ezer Weizman, o ex-presidente Shimon Peres. Então ele ficou escanteado, como eu e todo mundo. Aí fiz uma entrevista com ele, a primeira e única. O povo publica e republica. Não tenho nada contra ele. Que seja feliz e tenha saúde. Tenho falado também que ele tem vociferado ódio e raiva. Quando pega o microfone, nesses encontros com a turma do lado dele, fica saracoteando pra lá e pra cá, e fala com um ódio. Aí eu falei: “Lula, cuida da sua saúde. Desejo saúde para você, mas vociferando tanto ódio e tanta raiva, isso vai fazer mal. E desejo tanta saúde para você como desejo para mim”. 


Como o senhor avalia o tratamento da imprensa com o presidente Bolsonaro durante esses quase quatro anos de mandato?

Meu negócio é futebol, mas o que vou falar é a conclusão do óbvio. A imprensa importante escolheu um lado, mas ela tem direito, é a democracia. Mas realmente ele foi prejudicado, principalmente na entrevista da Globo. Um comentário meu a respeito viralizou pra caramba. Não conheço o William Bonner, mas tenho muita admiração por ele, é um grande profissional, consagrado, editor do principal telejornal do Brasil. O cara tem muito mérito. Escrevi o seguinte: “William Bonner, você que é grandão, daria um grande levantador de vôlei. Acho que você levanta a bola melhor que (os ex-jogadores) Maurício e William. Você levantou a bola brilhantemente para o convidado preferido, para o Lula”. Isso é uma opinião geral do Brasil. O Bolsonaro foi massacrado. A Renata Vasconcellos, que não conheço pessoalmente, tem essa montagem, que é absolutamente real. Ela com o rosto angelical de um lado e, do outro, rangendo os dentes, olhando para o Bolsonaro como se fosse o demônio. Não pode. Entendo mais do que ninguém de um negócio chamado entrevista. Sou jornalista profissional diplomado, não devo satisfação para ninguém, falo e escrevo o que quiser. Sou bom de entrevista. Sou o melhor. Entrevistado tem que responder, e quem entrevista tem que perguntar, curto e grosso, sem comentário. Teve uma hora que o Bonner perguntou, comentou, analisou e depois fez a pergunta. Não está certo. Cada um tem direito de fazer o que acha certo, e não sou importante como o cara é. Mas ninguém entende mais de entrevista do que eu. O Ruy Castro escreveu um texto maravilhoso na Folha de S.Paulo, falando que o entrevistador tem que ter o olhar do jogador de pôquer, escondendo o jogo. O pessoal tem que aprender com o Ruy Castro.  


O Brasil tem como superar essa polarização dos últimos anos?

Entrevistei outro dia o Danrlei (PSD-RS), ex-goleiro e hoje deputado federal, e ele me falou: a política brasileira está grenalizada (em referência à rivalidade entre Grêmio e Internacional). Os gaúchos são o povo mais culto e politizado do Brasil. Eles criaram esse verbo lá, porque Bolsonaro e Lula é igual a Internacional x Grêmio. Mas a polarização entre os dois é óbvia. Tanto que os outros candidatos não têm chance nenhuma, são da segunda e terceira divisão. O Ciro Gomes, que nunca vi na vida, acho ele bom. Ele vai ter uma votação boa. É feeling, não pesquisa. Ele não vai ganhar, nem vai para o segundo turno, se houver segundo turno. Ele aparece aí com uns 7% ou 8%, acho que vai ter uns 12% ou 13%. Acho que ele vai ser o fator da decisão, porque acredito que os eleitores dele devem passar para o Lula. É o melhor de papo, o melhor de raciocínio. Dá umas chutadas também, como todo mundo, mas é muito bom. Não o conheço, não preciso conhecer, mas gostei dele nos debates. É um sujeito sincero, não faz média. Mas não vou votar nele. Queria votar no Enéas, mas infelizmente ele morreu. Não preciso de política. Preciso de microfone, suor, garganta e memória. São as minhas armas.

O senhor viralizou nas redes sociais no começo de 2020 ao pedir o cancelamento do Carnaval no Brasil, semanas antes de a pandemia de covid-19 estourar no país. A mensagem ficou circulando um bom tempo nos meses seguintes. O que o motivou a escrever aquilo? 

Estava em Nova Iorque, tenho casa lá. Chegamos ao Aeroporto JFK, saindo de Cumbica. Estava com as minhas netas, em classe especial. De repente, recebi quatro propostas para trocar de poltrona. Eram três mulheres e um homem, que não queriam ficar do lado de um chinês. Quando começou o negócio de covid, o papo era só chinês. Cheguei ao aeroporto, estava numa daquelas filas quilométricas, tudo lotado. E no canto tinha uma porta improvisada, só para chinês. Chegando ao meu apartamento, tuitei, estou sempre tuitando. Isso aí talvez tenha sido o maior acerto da minha carreira de jornalista. Fui o primeiro a falar: “Alô, gente, vamos largar mão desse Carnaval, porque milhões de turistas vão para o Rio de Janeiro e levando o vírus”. Acertei na mosca. Tenho profundo orgulho disso. 


Outro comentário do senhor nas redes sociais teve grande repercussão, depois da visita do Elon Musk, criticando a reação de setores ideológicos e contrários ao governo. Por que publicou esse comentário?

O cara é o homem mais rico do mundo, vem para o Brasil, vai para um belo hotel no interior de São Paulo e encontra com o presidente lá. Aí os caras ficam escrevendo: ‘Ah, o Bolsonaro vai vender o Brasil para o homem mais rico do mundo’, um delírio. Eu falei: vamos respeitar, tudo tem limite. Falei que era uma honra para o Brasil receber o cara mais rico do mundo. Tem delírio para todo lado, não é só para um lado, não.    


O senhor cria cabeças de gado no sul de Minas Gerais e conhece o agronegócio. O que acha desse esforço ideológico dos últimos tempos, de setores “progressistas”, de colocar o agro como uma espécie de vilão do país?

Isso também critiquei. Porque nasci meio que na roça. Muzambinho, cidade pequena. Meu pai e minha mãe tinham um sítio. O meu irmão mora em Monte Belo, tem terras e é agricultor. Pequeno agricultor. Agora, nós somos agricultores fortes em três cidades: Muzambinho, Guaxupé e Monte Belo. Então, conheço um pouco da roça, da luta. E o MST, que falam que é uma coisa legal, espetacular, há casos comprovados de invasões do MST em sítios com um trator e umas vaquinhas. De repente, os caras entram, fazem churrasco com os bois e levam o trator. E o sujeito estava devendo para o Banco do Brasil. O cara financiou em anos o pagamento do trator. Muitos casos. A gente tem um monte de trator lá, mas tudo com seguro. Mas esses coitados pequenos não têm seguro, vivem de sol a sol. Acho sacanagem isso aí.

Oswaldo de Oliveira, Zagallo, Pelé, Milton Neves, Parreira e Vanderlei Luxemburgo | Foto: Redes sociais

No ano passado, a Netflix produziu um documentário sobre o Pelé, com uma revisão política e histórica, apresentando o ex-jogador quase se desculpando por não ter conseguido combater o regime militar. O senhor assistiu a esse filme? 

Ninguém gosta do Pelé no mundo mais do que eu. Só a dona Celeste, a mãe dele. É a minha área, o futebol, conheço como poucos. O Pelé nem tinha tempo de dormir. Ele tinha que viajar com o Santos, ganhava 5% ou 10% das cotas de amistosos. O Santos chegava lá, no domingo tinha jogo na Alemanha, terça jogo na Holanda, quinta em Milão. Tinha vezes que o Santos tinha que jogar um dia sim e outro não, na mesma cidade. O Pelé é um sujeito injustiçado neste país, porque o povo não tem memória, tanto é que esqueceram de Maria Esther Bueno e Éder Jofre, e estão esquecendo de Ayrton Senna e Guga. E hoje tem uns imbecis lá da Inglaterra que ficam contestando os gols do Pelé, que foram em amistosos, que não valiam nada. Não gostei desse filme.

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13 comentários Ver comentários

  1. Excelente entrevista…só achei o comentário sobre o Ciro me fez dar risada, o Ciro e tudo menos um político honesto, mas respeito sua posição

  2. Em 25/01/20 Milton alertou. Em 04/02/20 o governo federal decretou, por portaria, situação de emergência no Brasil em meio à epidemia de coronavírus, mesmo sem a confirmação de um caso no país. A despeito disso ocorreu o Carnaval.

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