Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Ilustração: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

Alexandria, 2026

Numa operação comandada pelo Xerife Xerxes Xande, a antiga Polícia Federal fechou o cerco a empresários golpistas que foram vistos num vestiário da academia falando mal do governo

O imperador Saltitante acordou de mau humor, e, com sua voz fina e metálica, berrou: “Gleice, venha já aqui!”. Sua secretária saiu correndo do aposento ao lado e perguntou o que seu mestre desejava. “Traga-me já um copo de água com açúcar, mulher imprestável! Preciso me acalmar após ler essa notícia absurda!” Saltitante se referia a uma manchete da Revista Leste, a única sobrevivente no país após a revolução democrática de 2022. Ela dizia: “Último foco da militância fascista consegue escapar da polícia”.

Numa operação comandada pelo Xerife Xerxes Xande, também conhecido como XXX, a antiga Polícia Federal fechou o cerco a empresários golpistas que foram vistos num vestiário da academia falando mal do governo. Pela nova Lei de Liberdade de Expressão, criada por decreto pela Junta Democrática do Foro de SP, estava terminantemente proibido criticar o governo, em especial o Imperador Saltitante e o Xerife Xerxes.

A mudança que permitiu isso veio por emenda constitucional e havia retirado uma única letra no texto de 1988: Todo o poder emana do Ovo, e não mais do Povo. Ovo era o apelido carinhoso de Xerxes, devido à sua cabeça careca e reluzente. Era ele quem dava as ordens na prática, enquanto o Imperador Saltitante se portava como uma espécie de Rainha da Inglaterra — e ele adorava a parte das vestimentas inspiradas em Elizabeth.

Desde quando aquele fascista cujo nome não mais pode ser mencionado venceu as eleições em 2022, apesar de todo o esforço democrático da oposição, houve uma união apoiada pelo Exército Chinês para restabelecer a democracia no país. Xerxes demitiu os demais dez ministros e passou a representar, sozinho, a Corte Constitucional. O então senador Saltitante foi proclamado imperador do Brazinil, e todos os apoiadores do fascista eleito foram perseguidos, muitos deles presos ou expulsos do país.

O respeitado jurista Miguel Retalho Junior, após a prisão de seu colega Ives Grande Martinho, foi às emissoras de televisão atestar a legalidade do ato, já que para derrotar a ameaça fascista tudo era aceitável e desejável. Brazinil mudou até de nome e passou a ser chamar Alexandria, em homenagem ao Xerife que tanto fez para impedir o golpe. Agora havia pouquíssimos focos de resistência, já que a Polícia Unificada de Todos os Amigos (PUTA) tinha lançado uma implacável busca pelos golpistas, com auxílio de soldados democratas enviados por Cuba e Venezuela.

Naquela manhã quente de janeiro de 2026, Saltitante se deparou com a notícia da Revista Leste sobre a fuga dos empresários fascistas. Isso despertou sua revolta: “Duvido que algo assim acontecesse na democrática Coreia do Norte, ou com nossos companheiros da Nicarágua! Lá todos os fascistas cristãos foram devidamente presos!”, esbravejava.

Tensa com a situação, e com medo das broncas, Gleice decidiu ligar para o verdadeiro chefe da coisa toda: “Luísque, acho melhor você abandonar Atibaia rapidinho só para vir aqui colocar um pouco de ordem na bagunça”. Já bêbado após a quinta taça de Petrus, Luísque rebateu: “Não enche o saco, Gleice. Eu fiz meu papel em 2022 e desde então quero só aproveitar minha vida de longe, com meus milhões e minha mulher, Granja. Vocês que são democratas que se entendam!”.

Esse que vos escreve só teve condições de relatar essa história toda pois morava fora de Brazinil na época da revolução democrática

Claramente decepcionada, Gleice convocou então Miguel Tremer, o único capaz de acalmar Xerxes, o que por sua vez acalmava Saltitante, que no fundo estava apavorado com o provável esporro do chefe. Tremer ligou para Xerxes, falou amenidades antes, lembrou quem o indicou ao Supremo, e com jeitinho deu o recado: “Meu ilustre Ovo, vossa excelência não acha que já fizemos o suficiente para impedir golpes fascistas? Talvez possamos deixar passar um ou outro empresário conspirador, pois são inofensivos hoje…”.

Xerxes ficou vermelho de raiva, e, com o olhar vidrado, rebateu: “Cala a boca, seu Mordomo inútil! Alexandria não terá um só crítico do governo, e não vou descansar até punir pessoalmente um a um desses miseráveis! Você nunca teve a garra de um Luísque, por isso conspirou contra ele! Não podemos permitir um só fio desencapado, pois de 1 centímetro pode surgir um curto-circuito e produzir um grande incêndio. Para ser uma democracia de verdade, como nossos companheiros conseguiram fazer na Venezuela e na Nicarágua, é fundamental ser intransigente com qualquer deslize ou malfeito. Não me liga mais, seu pusilânime de uma figa!”.

Tremer, com o perdão do trocadilho, passou a tremer de medo, e se lembrou de velhas máximas: quem planta vento colhe tempestade; quem alimenta corvos tem seus olhos arrancados; quem dá comida para o Gizmo depois da meia-noite precisa enfrentar os Gremlins — ok, isso não é bem uma máxima, mas uma lição com base num filme que entrega a idade do autor.

E assim a vida seguiu em Alexandria. Esse que vos escreve só teve condições de relatar essa história toda pois morava fora de Brazinil na época da revolução democrática. Havia inclusive um prêmio por minha cabeça, mas fui prudente e nem arrisquei uma visita sequer. Criado em ambiente fascista, e vivendo em local ainda mais fascista como Miami, confesso com toda a humildade do mundo que nunca fui talhado para viver em uma democracia tão alexandrina assim!

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50 comentários Ver comentários

  1. Excelente Constantino. George Orwell ficaria orgulhoso de seu discípulo, só que ficaria assustado por ver que sua ficção se tornou real.

  2. Constantino, dessa vez você se superou. Texto fantástico, excelente e bem irônico. Ri muito. Parabéns. Espero que essa ficção jamais se torne realidade no Brasil.

  3. Rogo à Deus para que essa estória distópica não venha a se tornar a história do golpe democrático desse ano de 2022.

  4. Constantino, você e o Fiuza fazem uma dupla hilariante. Parabéns, mas sugiro que a boa imprensa da revista oeste, gazeta do povo, jovem pan e outra mídias conservadoras insistam para que o Ministério da Defesa COMANDEM as urnas eletrônicas, única forma de acreditarmos no resultado final das apurações. Para que perder tempo com essas enfadonhas pesquisas “viternicas”, quando o VOTO IMPRESSO nos traria enorme transparência?

  5. Rodrigo, hoje vc se superou. Estou rolando de rir com essa sua criatividade toda. Pois não consigo imaginar esse país. Só sendo fictício mesmo. A parte mais hilariante para mim foi a retirada de uma letra no artigo da constituição, o P. Parabéns por nos divertir com uma situação inacreditável

  6. No Reino de Tribnia, chamado pelos nativos de Langdon…a maioria do povo consiste, de certa forma, totalmente de descobridores, testemunhas, informantes, acusadores, promotores, evidências, jurados…Eles primeiro concordam, e em seguida estabelecem entre si quais pessoas suspeitas serão acusadas de tramar uma conspiração: depois, cuidados eficazes são tomados para obter todas as suas cartas e documentos e acorrentar os donos . Esses papéis são entregues a um grupo de artistas muito destros em descobrir os significados misteriosos de palavras, sílabas e letras… Onde este método falha, eles têm outros dois mais eficazes, que os cultos entre eles chamam de acrósticos e anagramas. Primeiro eles conseguem traduzir todas as letras iniciais em significados políticos. Assim, N significa complô, B é um regimento a cavalo e L é uma frota no mar. Ou, em segundo lugar, transpondo as letras do alfabeto em qualquer papel suspeito, eles podem revelar os mais misteriosos planos de um partido insatisfeito. Assim, por exemplo, se eu disser em uma carta a um amigo, “Nosso irmão Tom pena com hemorroida- CL” um decifrador habilidoso descobriria que as mesmas letras que compõem esta frase podem ser lidas como “Resistam, ora, o complô no caminho dorme”. E esse é o método anagramático. (Um doce para quem adivinhar o nome do livro)

  7. Parabéns Consta, Inspirador seu ARTIGO !
    Tive uma dúvida: será que a revista LESTE, cobriu o seminário pela democracia que XXX teria participado na KKK ?!?

  8. Vamos aplaudir essa sátira, enquanto podemos.
    A bronca do poderoso Xerxes no mordomo Tremer lembra o lorde Voldemort esculachando os comensais da morte.

    1. Bomdemaisalemdaconta. Só que a bichasaltitante não deveria sobreviver ao falso casamento. Consta se superou.Mas, só pergunto uma coisa: – Pode o supremo minúsculo mesmo, atender a todas as demandas da Rodolfa? Cadê os juristas que não se mexem? Ficam só nas entrevistas na JP.

  9. Embora ficcional, o que se tem brilhantemente narrado no excepcional artigo mete medo. Por pura precaução, claro, já estou cuidando e me preparando para morar também em Miami, para vivenciar o facismo americano.

  10. Gostei da versão Orwelliana do Consta para um futuro distópico.
    Temos a Oeste com um oásis de liberdade dentro de um oceano de mídias corrompidas… Pelo menos enquanto não surgir o Comitê da Verdade das implacáveis mãos do sr. “Ovo”

  11. Será que posso dizer que achei perfeito?
    Corro risco de ser presa?
    Surreal o que estamos vivendo, era inimaginável, o terror tomou conta do país.
    Estão apavorados, isso é certo.

  12. Que estória macabra, Constantino! Onde você encontrou inspiração para criar, assim do nada, esse enredo?
    Em especial, achei que a estórias ficaria mais verossímil com a revolução democrática ocorrendo antes das eleições. Acho que se fosse depois, o povo fascista não permitiria.

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