Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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O fantasma de 2014

Virada de Dilma Rousseff no meio da apuração levou à insegurança sobre o processo eleitoral no Brasil

Sempre que o debate sobre a segurança da apuração das urnas eletrônicas vem à tona, o eleitor brasileiro volta a 2014. A lembrança é inevitável. Teria ou não ocorrido manipulação nos dados da Justiça Eleitoral, precisamente às 19h32, quando Dilma Rousseff ultrapassou Aécio Neves no segundo turno? Uma hora depois, os plantonistas das emissoras de TV anunciaram a vitória da petista, a mais apertada já registrada até hoje.

A eleição presidencial de 2014 é um roteiro cinematográfico perfeito. Terminou com a vitória de uma presidente impopular, que comandava o último capítulo de um projeto de poder desgastado. Foi marcada pela morte trágica do candidato Eduardo Campos (PSB) em um acidente aéreo. Foi também a última campanha bilionária, com produções de TV hollywoodianas — bancadas pelo Petrolão, como se sabe hoje. Registrou a arrancada do tucano Aécio Neves na reta final. Viu São Paulo, o maior colégio eleitoral do país, erguer uma muralha de 7 milhões de votos contra o PT.

O roteiro da apuração terminou com suspense até a cena final. Por causa da diferença do fuso horário para o Acre, o resultado só começou a ser divulgado às 19 horas pela imprensa. Porém, como a contagem teve início às 17 horas, os resultados de muitos TREs (Tribunal Regional Eleitoral) já eram conhecidos. E a dianteira de Aécio era grande.

Com mais da metade dos votos apurados, às 18h30, o tucano tinha uma vantagem de 6,7 milhões para Dilma. A campanha tucana se agitou. Um grupo de apoiadores, políticos, marqueteiros e celebridades, como o apresentador Luciano Huck, se reuniu no apartamento de Aécio em Belo Horizonte para iniciar a festa.

Em 2014, apoiadores se reúnem no apartamento de Aécio Neves para acompanhar a apuração das urnas | Foto: Reprodução/Internet

Do outro lado do campo, o clima no comitê petista era de tensão. Mesmo depois da divulgação do resultado final, os semblantes de Dilma, Lula e Rui Falcão, então presidente do PT, estavam apreensivos. Reeleita, ela permaneceu pálida ao agradecer ao eleitorado no discurso da vitória. “Chegamos, chegamos… Eu vou pedir, gente, um pouquinho de silêncio, porque a minha voz se foi. Peço que vocês me deem uma força”, desabafou.

Durante anos, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) dedicou-se a negar irregularidades naquela apuração. O PSDB pediu uma auditoria do placar, que durou quase um ano. O desfecho foi inconclusivo, porque não havia materialidade para a recontagem. O caso foi encerrado oficialmente.

Dilma teve 3,5 milhões de votos a mais do que Aécio, num universo de mais de 112 milhões contabilizados — incluindo brancos e nulos. Outros 30 milhões de pessoas não foram votar

É claro que há vários casos de eleições acirradas na história, especialmente para prefeituras de pequenas cidades. Basta um único voto para o placar ser decidido. Mas a impossibilidade de mapear de onde saíram os votos que selaram a reeleição da petista deixou boa parte do eleitorado com a pulga atrás da orelha. Em tese, eles teriam partido de colégios com apuração mais lenta, no Norte e no Nordeste, e em Minas Gerais — berço político do rival. Na manhã seguinte ao pleito, a manchete repetida pelos jornais dizia: “Aécio perdeu a eleição em casa”. A estratificação dos dados mostra que ela venceu em 70% das cidades mineiras — 589 das 853.

Os gráficos abaixo foram feitos a partir da contagem registrada por minuto. As curvas mostram que Dilma teria virado o jogo às 19h32, com 89% dos votos válidos apurados.

Voto auditável

O fantasma da eleição de 2014 mobilizou políticos de diferentes correntes ideológicas para aprimorar a auditagem das urnas. Tratava-se de um pleito antigo dos partidos, que começou com Leonel Brizola (PDT), pouco depois da instalação das urnas eletrônicas, em 1996. Três projetos passaram pelo Congresso Nacional. O último deles, justamente em 2015, depois da reeleição de Dilma, teve o apoio de PSDB, MDB, PCdoB, Psol e PDT, entre outros.

Os principais candidatos que disputarão a Presidência em outubro deste ano criticaram a urna eletrônica em diferentes ocasiões. “Nada é infalível, só Deus”, afirmou Lula, em 6 de junho de 2002, meses antes da eleição. “Vamos pegar o que aconteceu aqui, quantas denúncias já foram feitas de defunto que vota, de cidades que têm mais eleitores do que habitantes.” Segundo o ex-presidente, “não sabemos se a urna pode ser manipulada ou não”.

Há sete anos, Simone Tebet (MDB) defendeu a impressão do comprovante do voto. “Será que o meu voto depositado na urna, depois de processado, se concretiza?”, perguntou, durante uma entrevista. Já Ciro Gomes defender, há um ano, a adoção do voto auditável para “aperfeiçoar a urna eletrônica”: “Qual o problema em tornar um sistema, que já é bom, em um sistema melhor?”

Basicamente, aperfeiçoar o sistema eleitoral passa por esse caminho: a impressão de um comprovante do voto. O TSE, contudo, rejeita qualquer mudança. O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que as medidas aprovadas pelo Legislativo eram inconstitucionais.

Em julho do ano passado, a edição 69 de Oeste detalhou o tema. Na época, como o presidente Jair Bolsonaro defendia a implementação de mecanismos para ampliar a checagem dos votos, ergueu-se no país uma frente em defesa das urnas eletrônicas. Os mesmos partidos e políticos que antes defendiam a impressão do comprovante de voto mudaram de ideia. O consórcio da imprensa lançou a tese de que o pedido de Bolsonaro, na verdade, era uma desculpa para dar um golpe de Estado caso fosse derrotado. Foi nessa fase que os editoriais da velha mídia trocaram o adjetivo “genocida” da pandemia pelo “golpista” de 2022, ao se referirem ao presidente.

Ninguém defendeu com tanto entusiasmo as urnas eletrônicas brasileiras quanto o ministro Luís Roberto Barroso. Quando comandou o TSE, ele chegou a atravessar a Praça dos Três Poderes, em Brasília, para articular a derrubada na Câmara de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), de autoria da deputada Bia Kicis (PL-DF), aliada de Bolsonaro.

Barroso levou os seguintes argumentos, que passaram a ser adotados pelos parlamentares: 1) a instalação de impressoras custaria R$ 2 bilhões — ainda que a Justiça Eleitoral consuma R$ 10 bilhões dos cofres públicos, e o fundão eleitoral mais R$ 5,7 bilhões; 2) as urnas brasileiras, de primeira geração, ainda são altamente sofisticadas, apesar de terem sido abandonadas por vizinhos, como Equador e Argentina; 3) o pano de fundo desse debate é que Bolsonaro planejaria um golpe.

O ápice da cruzada do TSE em defesa do sistema de votação ocorreu em agosto. O novo presidente da Corte Eleitoral, Alexandre de Moraes, promoveu uma festa de gala para sua posse, com 2 mil convidados, recepcionados pelos Dragões da Independência em tapete vermelho. A cena lembra a entrega do Oscar ou algum prêmio do cinema.

“Somos a única democracia do mundo que apura e divulga os resultados eleitorais no mesmo dia. Com agilidade, segurança, competência e transparência. Isso é motivo de orgulho nacional”, disse Moraes

A fala de Moraes foi aplaudida pelos convidados, cuja maioria retrata um velho Brasil: Dilma, Lula, Michel Temer, José Sarney. Vinte dias depois, uma multidão cobriu as ruas do país de verde e amarelo para celebrar o 7 de Setembro. Há milhares de imagens de bandeiras. O Hino Nacional foi ouvido em centenas de cidades. São esses os símbolos de “orgulho nacional” — não as urnas eletrônicas.

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