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Gado Nelore | Foto: Alf Ribeiro/Shutterstock
Edição 135

Mais boi, menos pasto e mais picanha

Como já é na agricultura, a pecuária tropical do Brasil ainda se tornará exemplo planetário de eficiência e sustentabilidade

Evaristo de Miranda
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O boi é responsável pela falta de picanha no churrasco de domingo? Não. Em 2021, o rebanho bovino do Brasil chegou ao recorde de 224,6 milhões de cabeças, um crescimento de 3,1% com relação a 2020. São dados divulgados recentemente pela Pesquisa da Pecuária Municipal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É o maior rebanho já registrado na série histórica do IBGE. Supera o recorde de 218,2 milhões de cabeças de 2016. Há muita desinformação sobre a pecuária, quase sempre acusada de ser um problema ambiental e até social.

O aumento do número de bovinos nem sempre é boa notícia. Pode resultar de problemas no mercado e na produção. Entre 2020 e 2021 houve retenção de fêmeas pelos pecuaristas para a produção de bezerros. Impactos dos lockdowns da pandemia na perda de renda da população, aumento de preços na carne bovina para o consumidor e boicote temporário da China à carne brasileira, entre outros fatores, levaram à queda no abate de bovinos.

Em tom de boutade, parte da mídia destacou o fato de o país ter um número de bois e vacas superior ao de pessoas. Mas outras comparações também são possíveis. O rebanho de vacas produz leite. O IBGE estimou em 35,3 bilhões de litros a produção em 2021. Ela cresceu 13% no Nordeste, onde chegou a 5,5 bilhões de litros. Pode-se comparar essa produção de alimento nobre, leite, com a de etanol combustível, na linha alimento x energia. Em 2021, a produção de etanol foi de cerca de 27 bilhões de litros contra 35 bilhões de leite. A produção de leite cresce e segue bem superior à do etanol.

Unidade de ordenha | Foto: Alf Ribeiro/Shutterstock

Os indicadores mais relevantes para compreender a pecuária nacional são seus ganhos em produtividade, rentabilidade e sustentabilidade. Segundo estudos da consultoria Athenagro, em 32 anos, o rebanho bovino aumentou 13%, enquanto a produção de carne cresceu 108%! A produtividade foi ampliada em 147% no período, mesmo com uma redução de 16% na área das pastagens. Menos pastos, mais bois e muito mais carne.

Há décadas, o país assiste a uma redução constante na área das pastagens e ao aumento de seu rebanho. Isso indica claramente ganhos de produtividade nas pastagens: novas variedades de capins; pastos bem manejados e mais produtivos; com maior qualidade nutricional e mais resistentes a seca, cigarrinhas e outras pragas. E suplementação mineral e proteica propiciada a pasto pelos pecuaristas. Há cada vez menos pastagens degradadas. Ainda há muito por fazer, mas a dinâmica é a da intensificação no uso dos pastos.

Os ganhos de produtividade nos sistemas de criação e manejo decorrem do uso de tecnologias modernas: melhoramento genético dos rebanhos; cuidados veterinários e garantias da boa saúde animal; atenção ao conforto e ao bem-estar animal; complementações nutricionais adequadas ao ganho de peso; confinamentos etc. Como já é na agricultura, a pecuária tropical do Brasil ainda se tornará exemplo planetário de eficiência e sustentabilidade.

Nos rebanhos, a eficiência produtiva e a reprodutiva caminham juntas. Há décadas, a Embrapa e outras instituições desenvolvem técnicas para melhorar o manejo reprodutivo dos bovinos de corte para pequenos e grandes produtores. Os pecuaristas praticam sistemas de produção capazes de aumentar o número de bezerros nascidos por ano e a vida útil de suas vacas. E administram de forma eficiente o intervalo de partos. Inovações constantes aumentam a produtividade na pecuária, com redução da mortalidade, diminuição do número e do tempo de vacas secas nos rebanhos e crescimento da natalidade e do ganho de peso em bovinos de corte.

Fazenda de gado confinado na Amazônia, Pará | Foto: Paralaxis/Shutterstock

O gado fica pronto para o abate em tempo cada vez menor. A redução da idade ao abate não compromete a qualidade da carne, nem o peso dos animais. Os pecuaristas cuidam até da alimentação intrauterina dos bezerros. Garantir sua gestação nas melhores condições resulta, já no nascimento, em animais de peso adequado. Quando a vaca prenha é bem nutrida, o terneiro em seu ventre também o é. Para um bovino com 24 meses seguir para o abate, ele deve pesar mais de 450 quilos. A redução da idade ao abate melhora os índices de aproveitamento dos rebanhos em até 25%, com menos emissões de gases de efeito estufa por quilo de carne produzida e custos inferiores. Esses são os dados decisivos sobre modernização da pecuária.

Além dos ganhos em produtividade, a pecuária tem características históricas de sustentabilidade. Desde o início do povoamento europeu, os portugueses introduziram a pecuária em biomas propícios e pouco adequados à agricultura. Foi assim na pampa, caatinga, Pantanal, várzeas e campos inundáveis da Amazônia, serras e montanhas. A pecuária cresceu em locais inaptos à agricultura devido à topografia acentuada, aos tipos de solos pedregosos ou regularmente inundados e ao clima (escassez de água e períodos secos muito pronunciados). Em áreas marginais para a produção de alimentos, onde não se podem cultivar grãos, cana-de-açúcar, frutas ou praticar agricultura mecanizada, os ruminantes fazem o milagre de transformar capim em leite e carne, proteínas nobres. E sem subutilizar as pastagens, algo tão problemático quanto degradá-las por uso excessivo.

A pecuária cresceu em locais inaptos à agricultura devido à topografia acentuada, aos tipos de solos pedregosos ou regularmente inundados e ao clima

Não faltam bois, nem vacas, e tem faltado carne. Com o aumento do preço da carne bovina no mercado nacional e internacional e a perda de empregos e renda da população durante a pandemia, houve diminuição no consumo per capita entre 2019 e 2022. Os preços das carnes suína e de frango ao consumidor aumentaram cerca de 45% e 55%, respectivamente. O preço da carne bovina (considerados todos os cortes) subiu 72%. De acordo com o IBGE, a queda foi de 5,2 quilos de carne bovina/ano para cada brasileiro.

Diante desse quadro, algumas lideranças políticas sugeriram reduzir as exportações de carne para aumentar a oferta no mercado interno e baixar os preços. O raciocínio não é novo, nem original. Essa proposta simplista ignora a dinâmica do mercado e da produção bovina. E pode ser trágica.

O país exporta cerca de 25% da carne produzida. Restringir as exportações traria, no curto prazo, maior oferta no mercado interno e redução nos preços aos consumidores. Por quanto tempo? Quais seriam os impactos para a economia e os consumidores no médio e longo prazo? Propostas de limitar as exportações de carne resultariam num cenário prejudicial a todos. Foi assim na Argentina.

Em março de 2006, para controlar a inflação no mercado interno, o governo argentino anunciou restrições às exportações de carne bovina. O mercado estava em alta sobretudo pela ocorrência da gripe aviária na Ásia. Com o recuo de quase 25% nas exportações anuais, os argentinos tiveram um curto período de maior oferta. A disponibilidade de carne bovina subiu da média de 63 quilos para 67 quilos/pessoa/ano.

No Brasil, houve um aumento do consumo de carne suína e de frango | Foto: New Africa/Shutterstock

Logo ocorreu uma reversão no processo, dada a queda no interesse dos pecuaristas de produzir com perda de renda. Os rebanhos diminuíram. Os preços voltaram a subir. De 2010 em diante, a disponibilidade per capita de carne bovina nunca mais voltou aos patamares anteriores. E cai a cada ano. Hoje, a quantidade de carne bovina disponível ao consumo por argentino é de 47,8 kg/ano, quase 25% abaixo do disponível antes da decisão de 2006 e a menor em 100 anos! O rebanho per capita também está no menor valor histórico: 1,1 bovinos por habitante contra o máximo de 2,3 em 1977.

Os argentinos foram vítimas dessa proposta imediatista e irresponsável. Uma questão pontual, passível de ser resolvida em poucos anos, pelo investimento privado em mais produção, transformou-se em um grave problema. E levará décadas para ser solucionado. Aqui, tal medida depreciaria o patrimônio de quase todos os pecuaristas. E a carne bovina não está apenas em grandes fazendas. Cerca de 70% da produção vem de pequenos e médios produtores.

No Brasil, essa sugestão demagógica é contestada por um exemplo inverso. Após a queda da oferta global de proteínas, as exportações nacionais de carne suína aumentaram quase 60% entre 2018 e 2020. O crescimento nos preços estimulou a produção. Entre 2018 e 2021, o volume anual produzido aumentou duas vezes com relação ao total exportado. Nos últimos dois anos, a disponibilidade de carne suína foi a maior dos cinco anos anteriores.

O ciclo da produção bovina é muito mais longo. Em 2022, espera-se um aumento de 5% a 8% na produção. A disponibilidade crescerá ainda mais a partir de 2023. Restringir as exportações quebraria o estímulo ao aumento consistente da oferta. Reduziria empregos no campo, bem como a renda gerada a partir de fazendas, empresas e negócios relacionados à produção de carne. Impedir ou taxar exportações nunca garantiu picanha no churrasco. É conversa de burro, para boi dormir.

Silhueta de nelore. Bovino originário da Índia e raça que representa 85% do gado de corte brasileiro | Foto: Shutterstock

Leia também “O agro, o mercado e o supermercado”

12 comentários
  1. Rodrigo
    Rodrigo

    Parabéns pelo texto. Muito bem embasado!
    Tanto a atividade agrícola como a pecuária vêm demonstrando há vários anos aumento de produtividade e também aumento da eficiência nos modelos produtivos. A própria fusão delas, como a Integração Lavoura-Pecuária, é um exemplo prático disso. Em um cenário atual, em que as ferramentas digitais desembarcaram com força no Agronegócio, as oportunidades são imensas para o setor assumir cada vez mais o protagonismo. Esperamos que as decisões gerenciais e as políticas públicas sejam estratégicas para beneficiar a cadeia produtiva e o consumidor final a curto e longo prazos.

  2. Edna Garbelotti
    Edna Garbelotti

    Bastante interessante e uma aula de economia!

  3. Alice Helena Rosante Garcia
    Alice Helena Rosante Garcia

    Aprendendo sempre com os artigos do Evaristo. Espero que os brasileiros acordem e consigam nas urnas manter nosso governante e seus excelentes ministros

    1. Felipe Uassure Nery
      Felipe Uassure Nery

      Como sempre os textos são muito bem escritos e trazem muitas informações atuais e importantes sobre o setor. Parabéns Dr. Evaristo por mais esse texto brilhante!

  4. Francisco Albuquerque
    Francisco Albuquerque

    Prezado Mestre Evaristo
    Suas aulas valiosas corrigem as errôneas informações, internas e externas, com relação a nossa pecuária. Seus artigos contribuem para o sucesso de nossa agropecuária, carro chefe da nossa economia.

  5. Gustavo Amaral
    Gustavo Amaral

    Sensacional. Uma aula de produção e economia da cadeia da carne com uma conclusão arrebatadora. Parabéns Dr. Evaristo e Revista Oeste!

  6. Alan Coelho de Séllos
    Alan Coelho de Séllos

    O Professor Evaristo pega o boi pelo chifre, dá nome aos bois, e nos alerta para o risco de que a vaca vá para o brejo, se o eleitor se comportar como vaquinha de presépio.

  7. Roberto Castelo Branco
    Roberto Castelo Branco

    No esporte o primeiro lugar é conquistado com muita dedicação, técnica e trabalho. Raríssimas tentativas de destruir adversários viram filmes. Nas extintas CCCP e RDA práticas médicas ilegais foram exemplarmente punidas. Exames foram introduzidos para assegurar igualdade. Na agropecuária, as conquistas infelizmente são alvos de cupins ideológicos e praticas comerciais desleais. O Dr. Evaristo analisa esse conflito com dados e informações da labuta do produtor e das consequências nefastas de práticas comerciais e ideológicas equivocadas.

  8. Durval Olivieri
    Durval Olivieri

    Artigo realista e oportuno

  9. José Menezes
    José Menezes

    Excelente artigo!
    Análise acurada da evolução da pecuária brasileira e a importância do livre mercado nesse contexto vis-à-vis outros países.
    Parabéns Prof. Evaristo

  10. Júlio Rodrigues Neto
    Júlio Rodrigues Neto

    Não confundir picanha defumada com picanha defamada

  11. Eduardo
    Eduardo

    Excelente matéria.
    Aviso àqueles que acham que limitar exportações de carne é a solução : Vejam o que está acontecendo na Argentina.

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