Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock

A sociedade do ressentimento

A doutrina política da revolta é mera versão intelectualizada da soma da frustação social, emocional, econômica — e, frequentemente, amorosa

“[…] este mundo é um vale de lágrimas.
Não espere que haja justiça nele.
Os ímpios, em sua arrogância, crescem como um cedro frondoso.
Os bons estão fadados a ser permanentemente traídos e decepcionados.
O melhor que podemos esperar é que um equilíbrio entre diferentes senhores,
entre males maiores e menores, permita que os humildes desfrutem de uma prosperidade moderada e temporária.
Dê o melhor de si para encontrar o seu caminho até essa clareira na selva.”
James Burnham, O Suicídio do Ocidente, Vide Editorial, 2020, p.9

A vida é dura. Viver é difícil para a maioria das pessoas. Todo mundo tem um inventário de derrotas e perdas para chamar de seu. Todos travamos batalhas contra os acidentes, incidentes e perigos da vida: doenças, desemprego, falta de dinheiro. Em cada esquina nos espera um criminoso ou um pilantra.

A maioria dessas batalhas lutamos sozinhos.

Ao longo da vida conquistamos e perdemos oportunidades, pessoas queridas, empregos, patrimônio e saúde. Às vezes, conseguimos recuperar as perdas; muitas vezes, não. A vida é feita dessa instabilidade.

A maioria das conquistas requer esforço, sacrifício, preparo e, sempre, boa dose de sorte. Sorte é essencial: o mundo está cheio de pessoas generosas, brilhantes, trabalhadoras e estudiosas que lutam diariamente no limite da sobrevivência e terminam a vida sem ter seu valor reconhecido — e, muitas vezes, doentes, pobres e sós.

Essa é a realidade da vida.

Nós todos conhecemos histórias de pessoas que vieram do nada e construíram fortunas e impérios. Todos conhecem Steve Jobs, o fundador da Apple, e Elon Musk, o bilionário dos carros elétricos. Mas quem já ouviu falar de Leandro, que investiu suas economias para abrir uma lanchonete, faliu e hoje, aos 54 anos, voltou a morar na casa dos pais idosos?

A verdade é que a maioria da humanidade será sempre desconhecida de nós: são pessoas honradas, que trabalharam para pagar as contas e sustentar a família, mas nunca alcançaram fama ou celebridade; apenas viveram vidas normais, nas quais altos e baixos se sucederam. Nas palavras de Guimarães Rosa: “Foram felizes e infelizes, alternadamente”.

A maioria dessas pessoas — a esmagadora maioria — nunca teve poder sobre nada ou ninguém. O rumo e a qualidade de suas vidas sempre estiveram sujeitos a forças maiores e completamente fora do seu controle: sistemas políticos corruptos, leis complexas, caprichos de governantes, revoluções sangrentas e recessões devastadoras.

Temos planos e sonhos, mas somos um pequeno barco de papel em um oceano revolto. A verdade dura é essa: é grande o contraste entre o muito que pretendemos ser e o pouco que, na realidade, a maioria de nós consegue conquistar. Isso não é pessimismo; é constatação.

Diante disso, o ser humano se divide, basicamente, em dois grupos.

O primeiro grupo é formado por pessoas que encaram essa realidade e seguem em frente, motivadas pela determinação de superar obstáculos. Apesar das perdas e derrotas, essas pessoas seguem amando, trabalhando, cuidando de suas famílias e investindo em planos e projetos, grande ou pequenos. Esse grupo lida com suas limitações e frustrações — incluindo saúde frágil, falta de dinheiro e pouca instrução — e vive normalmente, trabalhando, produzindo e encontrando alegria e satisfação onde é possível.

Mas as mesmas dificuldades provocam, em outras pessoas, sentimentos de inferioridade e derrota insuperáveis, que arruínam suas vidas.

Incapazes de aceitar as limitações impostas pela dura realidade, elas se entregam ao rancor, ao ressentimento e à tentação de culpar alguém — a sociedade, a classe opressora, a desigualdade, os alimentos transgênicos, o aquecimento global ou a “mais valia” — por tudo que deu errado em suas vidas

Foto: Shutterstock

Essas pessoas encontram na ideologia revolucionária de esquerda — variadamente chamada de marxismo, comunismo, socialismo ou progressismo — a expressão perfeita para seu rancor. A frustração existencial e os sonhos nunca realizados alimentam esse ressentimento coletivo, transformando-o em estrutural: uma chama gigante que se propõe a queimar o imperfeito mundo e recomeçá-lo do zero.

A doutrina política da revolta é mera versão intelectualizada — ou, no dizer dos intelectuais, uma versão dialética — da soma da frustação social, emocional, econômica — e, frequentemente, amorosa — de milhões de ressentidos. Esse rancor se fermenta em uma disposição violenta para “fazer a revolução” — não importa muito o que isso signifique.

O fracasso absoluto de todos os regimes socialistas não representa nada diante da oportunidade de redimir o ressentimento, a frustração e os erros de toda uma vida

A ideologia da revolta fornece justificativas e explicações “científicas” para o catálogo de perdas e danos que todos trazemos conosco. Se você não conseguiu comprar uma casa depois de toda uma vida de trabalho, é porque a propriedade privada é um crime. Se você não conseguiu formar uma família estável, é porque a família é uma invenção opressora burguesa que precisa ser destruída. Se as drogas, o álcool ou a promiscuidade te impediram de encontrar a realização emocional ou uma carreira estável, é melhor então que todo mundo também seja promíscuo e dependente químico.

O pensamento do revolucionário rancoroso pode ser resumido da seguinte forma: quero obrigar os outros a sofrerem os males que eu sofri e a cometerem os erros que eu cometi, porque isso reduz minha sensação de derrota e solidão.

Diante disso, parece justo dizer que podemos classificar os ativistas revolucionários em dois grupos. O primeiro é o grupo ideológico. Ele é formado pela pequena porcentagem de militantes que realmente entende e subscreve as propostas socialistas. Eles representam, no máximo — é meu palpite — 5% dos ativistas.

O segundo grupo, que compõe a maioria restante, é formado por pessoas em busca de uma expressão social e política para seu rancor, e de uma explicação dialética e “científica” para fracassos, derrotas e frustrações que eles não conseguiriam aceitar ou superar de outra forma.

O que a ideologia de esquerda lhes diz é que os períodos amargos ou o resultado infrutífero de suas vidas não são culpa deles e nem do acaso. A derrota do esquerdista é sempre culpa da superestrutura capitalista, do mercado selvagem ou de um mecanismo terrível de opressão que precisa ser destruído.

Foto: Shutterstock

Nessa fantasia ideológica o militante esquerdista encontra mais do algo para ocupar seu tempo ou uma forma de justificar erros e pecados; ele encontra o preenchimento de um vazio existencial.

Em épocas passadas esse vazio era preenchido pela religião, por relações familiares ou até por afiliações a uma tribo ou a um soberano. Hoje, para muitos, isso tudo foi substituído pelas fantasias do progressismo.

A vida é injusta, dolorosa e incerta. Mas, para o esquerdista, quando a revolução vencer, tudo será só felicidade.

A contradição entre a realidade objetiva do mundo — os problemas complexos que precisam ser entendidos e resolvidos — e a resposta dada a esses problemas pelas políticas esquerdistas, que sempre produzem ruína e massacres, são irrelevantes para os ativistas do rancor.

O fracasso absoluto de todos os regimes socialistas não representa nada diante da oportunidade de redimir o ressentimento, a frustração e os erros de toda uma vida. Diante dessa possibilidade — por mais fantasiosa que possa ser —, o impulso para a rendição ao totalitarismo vingativo se torna irresistível.

Mas a fantasia socialista não muda a realidade da vida.

“Todas as sociedades”, disse James Burnham, “inclusive as ditas democráticas, são governadas por uma minoria”. Embora essa minoria, a elite governante, procure legitimar seu poder aos olhos da sociedade, no final, segundo Burnham, “o objetivo primordial de toda elite, ou classe governante, é manter o próprio poder e privilégio”.

O melhor que podemos esperar é que sempre exista, no nosso meio, uma massa crítica de indivíduos informados e independentes, exercendo vigilância permanente contra o arbítrio e o totalitarismo. No mundo atual, a grande ameaça à liberdade vem da ideologia marxista, uma erva violentamente venenosa que germina e cresce no solo fértil do ressentimento.

Que nossa revolta e nossa indignação, diante das injustiças e dos crimes, nunca fertilizem esse solo infame.

Leia também “O laranja é um vermelho claro?”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

37 comentários Ver comentários

  1. Caro Engenheiro Motta:
    Brilhante, como sempre, o seu texto. Acompanho seu canal “Meia hora com Motta” e estou esperando aquela síntese de quem foi Marx. Não demore muito, por favor, se demorar, talvez eu não possa ler. Fraterno e respeitoso abaço com votos de sucesso,l sempre!

  2. Parabéns, Motta! Perfeito! Vou pedir a amigos meus que assinam a Oeste para tb presentearem outras pessoas com seu texto! Merece ser lido e relido muitas vezes e por muito mais gente !

  3. Excelente artigo! Nos traz muita lucidez nesse momento crucial, luzes q nos impulsionam a lutar por nossa liberdade, sem a qual ficamos incapacitados até de SER!
    Poderia comentar, se leu, sobre o livro de Timothy Snyder – Sob Tirania – On Tyranny? Muito obrigada Motta!

  4. Mota, tenho 58 anos, sou aposentado, tenho 4 filhos, uma enteada e oito netos. Leio muito, cerca de 6 horas por dia. Este texto seu foi uma das melhores leituras que eu ja fiz em toda a minha vida. Parabéns. Vou ver se faço uma múscia dele. Sua parceria será reconhecida e registrada. Queria autorzação para publicar num blog em que escrevo. Meu e-mail é [email protected]

  5. Parabéns Roberto pela excelente coluna. Em conversas com amigos, estas características de comportamento são frequentemente percebidas. Principalmente após anos de frustrações.

  6. Reli o texto e repassei para vários amigos. Sintetiza nossos pensamentos e sentimentos. Obrigado Roberto Motta. Suas palavras trazem conforto e coragem para seguirmos em frente.

  7. O movimento comunista aproveita da fragilidade da sociedade para se manifestar como a cura dos problemas, mas os resultados sempre são os mesmo: destruição da liberdade de pensamento.

  8. Que texto FANTÁSTICO !!! Acho que todos aqui que conhecem um esquerdistas certamente sabe que eles se encaixam em uma ou várias das frustrações que os caracterizam.

    1. Show de artigo! 👏👏👏 oportuno para esse momento. Venho pensando muito no que levou tanta gente que conheço, há tanto tempo, a fazer a escolha mais absurda e estarrecedora que nunca poderia imaginar.
      As suas reflexões são mesmo ‘da hora’!
      Obrigado

  9. Como sempre, brilhante, racional, consistente. Parabéns Motta. Espero que vc vá se juntar ao novo time do Augusto Nunes na Tv Record e dar qualificação com audiência vencedora a uma emissora que não será chutada como a frágil rádio Jovem Pan porque, na sustentação da Record está a bancada evangélica que significa votos no Congresso que , por mais ditatorial que sejam o ladrão e seus office boys de toga, é vespeiro.

  10. Exímio. Gosto demais do Roberto Motta. Isto diz tudo: “O fracasso absoluto de todos os regimes socialistas não representa nada diante da oportunidade de redimir o ressentimento, a frustração e os erros de toda uma vida”. O liberalismo leva em conta o Evolucionismo de Darwin, o comunismo, nem de longe… Como a teoria da Evolução é científica e o socialismo paradisíaco é utópico, deve ficar claro que ele só dá certo nas teorias de Saint Simon e Marx, e nunca na prática. O desejo por paraísos é tão antigo quanto o próprio ser humano – o lugar/situação onde não há carências e todos são igualmente atendidos em seus desejos. Na prática, contudo, sociopatas desejam o que é dos outros, tomam e se tornam ‘imperdadores do todo’ (e os outros que se explodam), como um câncer organicamente instalado – até matar o ‘hospedeiro’. Simples assim. Socialistas exaltam as minorias pq eles mesmos representam os menos adaptados ao ambiente (na linguagem de Darwin) – menos adaptados por não se disporem a lutar como adultos pela sobrevivência, ressentidos por terem de crescer e enfrentar a realidade. Só há um problema – e ele nos acena da própria teoria da evolução: invista nas minorias, e vc quebra o ecossistema. Por isto, qdo vc olha qq experiência comunista tentada na Terra, tudo o que vc vê é destruição do que de valioso os seres humanos construíram. Câncer típico.

  11. Brilhante texto.
    Vai muito na linha do livro “A Mente Esquerdista”, do Dr. Lyle H. Rossiter.
    Trata-se de uma patologia e seus portadores deveriam se submeter a tratamentos psiquiátricos.

  12. O que difere um intelectual de um analfabeto ? Um texto semelhante a este. Parabéns Motta. A você e a todos os BRASILEIROS PATRIOTAS QUE COMPÕEM A RESISTÊNCIA.

  13. Excelente artigo mas vai dizer para um esquerdista que ele tem algum problema psicológico ou é um sociopata que tem raiva do sucesso dos outro.
    Vejo essa doença entre funcionários públicos, especialmente professores categoria que faço parte.
    Aliás, no meu caso trabalhei 35 anos na indústria onde aposentei e depois mais 10 anos como microempresa e consegui um patrimônio.
    Sou professor há 15 anos mas somente nos últimos dois anos optei pela jornada de 20 horas, antes eram 10 horas. Como funcionário público tem uma assistência médica razoavel

  14. Francamente, a melhor opinião sobre os comunas. RESSENTIDOS e INVEJOSOS. Este texto esclarece psicologicamente o que acontece na cabeça destas pessoas. Roberto, você é psicólogo?

  15. Eu chamo isso de pacto da mediocridade. Se eu me ferrei, ao invés de tentar prosperar, é mais fácil terceirizar a responsabilidade do meu fracasso e cuidar para que outros não tenham sucesso.

  16. Caro Roberto,
    Eu gostei bastante do texto. Seria oportuno explorar em outro texto a relação da “morte de Deus” e a substituição da religião pela ideologia esquerdista como uma seita secular.
    Peço licença para fazer um reparo. Só uma palavra que usou, “progressistas”, eu não concordo e me irrita quando vejo sendo usada “de bandeja” pela direita, liberal ou conservadora.
    Palavras tem sentido. A guerra cultural, tão instrumentalizada pela esquerda há mais de um século, e transformada em arma potente desde a implementação da visão de Gramsci, especialmente pelos pós-modernistas, usa muito bem as palavras para lutar a guerra cultural morro abaixo, montada em um cavalo, em um campo de batalha enlameado.
    Progressista, para a imensa maioria dos ignorantes e analfabetos funcionais que ouvem essa palavra, é quem produz o progresso. E progresso é uma coisa boa.
    A direita educada pode até saber a origem, associar com o positivismo, mas até explicar que focinho de porco não é tomada isso aqui já será uma Venezuela miserável comandada por “progressistas”.
    Em uma terra que votam pela promessa de ser feliz com picanha e cerveja, é querer demais entenderem que progressistas são os cavaleiros do armagedom.
    Sinceramente, não concordo com a opinião do Fiúza que só de chamar de “esquerdista” já confere uma medalha de virtude social a um notório canalha. Mas ele tem um ponto, que é mais exacerbado que o meu, derrotista até em palavras neutras que foram construídas para ter um significado bom, como “de esquerda” ou um significado ruim, como “de direita”. Pra mim, é real e importante distinguir, qualificar e adjetivar esquerda e direita, coletivista e liberal, conservador e revolucionário, etc.
    Entretanto, penso que é urgente reconhecer o poder das palavras e lutar nessas trincheiras da guerra cultural, libertando essas palavras com significado positivo que foram sequestradas pela esquerda, como progressista, liberal (que já aconteceu nos Estados Unidos e está em processo de acontecer aqui), etc.
    Ao mesmo tempo, é preciso desconstruir (um termo que gostam tanto) a associação positiva da palavra “de esquerda”, porque os ESQUERDOPATAS e PETRALHAS sabem fazer isso muito bem.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 23,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.