Elon Musk | Foto: Shutterstock
Elon Musk | Foto: Shutterstock

Elon e eu

Meu improvável encontro com o homem mais rico do mundo

Na semana passada Elon Musk respondeu a um tuíte que eu escrevi.

Deixa eu te contar: o Elon é o homem mais rico do mundo. Mesmo sem essa fortuna, ele já seria uma lenda por uma dúzia de outras razões. Cada um dos empreendimentos que ele criou, ou controla, já seria suficiente para justificar a existência da maioria dos seres humanos no planeta Terra.

Musk é um dos fundadores da PayPal, uma empresa pioneira em pagamentos on-line. Em 2002 ele fundou a SpaceX, dedicada à exploração espacial, que já foi contratada pela Nasa para trazer de volta à Terra astronautas da Estação Espacial Internacional (ISS). Mais tarde Elon assumiu o controle da Tesla, pioneira na fabricação de carros elétricos, e ainda fundou uma empresa de pesquisa em inteligência artificial (OpenAI), uma empresa de neurotecnologia (Neuralink) e uma empresa de construção de túneis (The Boring Company).

Musk Marte
Elon Musk | Foto: Reprodução/Flickr

Há poucos meses, em 2022, Elon Musk comprou a empresa que criou e mantém a rede social Twitter, por US$ 44 bilhões.

Então.

Além de tudo isso, Elon Musk é uma pessoa de convicções e opiniões fortes — opiniões que nem sempre se alinham com o consenso fofinho do politicamente correto que hoje domina o mundo, e em especial a indústria de alta tecnologia.

Por isso, a Wikipedia descreve Elon como “uma figura altamente polarizadora”. Se, um dia, eu merecer uma citação na Wikipedia, tenho certeza de que minha descrição será parecida.

A Wikipedia também nos informa que “Musk fez declarações controversas sobre política e tecnologia, principalmente no Twitter”. Mas o Twitter — antes de ser comprado por Elon Musk — nunca precisou de muitos motivos para considerar uma postagem como “controvertida”.

Em algum momento dos últimos anos isso começou a acontecer com todas as redes sociais. Surgidas não se sabe de onde, e funcionando de forma misteriosa, confusa e totalitária, patrulhas do politicamente correto passaram a policiar o discurso nas redes. E ai de você se entrar na mira delas.

Vi isso acontecer dezenas de vezes, com dezenas de pessoas. Basta um desvio mínimo do que é considerado politicamente correto para que a implacável lâmina dos cibercensores caia como uma guilhotina digital sobre a cabeça dos rebeldes. O processo é, ao mesmo tempo, extremamente eficiente, descaradamente injusto e escandalosamente totalitário.

Textos, fotos, vídeos ou memes — na maioria absoluta das vezes, sem qualquer elemento extraordinário — podem ser marcados, por alguma razão misteriosa, como inapropriados. A razão alegada (quando os censores se dão ao trabalho de alegar alguma razão) é, quase sempre, a violação de supostas “regras da comunidade”, embora nunca se indique precisamente que regra foi violada ou que “comunidade” é essa de que eles estão falando.

Infeliz é o usuário sobre o qual cai essa sentença. A punição é tão certa quanto variada.

Algumas pessoas têm sua postagem simplesmente removida; outros têm a própria conta suspensa ou cancelada, por semanas, meses ou para sempre. Para outros é reservada uma punição ainda mais sutil e cruel: o shadow ban.

Esses usuários infelizes são colocados em uma espécie de limbo cibernético, um purgatório social em que, apesar de ainda existirem, e conseguirem fazer postagens, não são mais vistos nem ouvidos. Quando você é exilado para a terra desolada do shadow ban tudo lhe parece normal; entretanto, suas postagens não são mais apresentadas a ninguém. Cala-se o cidadão impedindo que suas mensagens cheguem aos outros.

No shadow ban, ninguém escuta quando você grita.

Vista exterior da sede do Twitter, em São Francisco, Califórnia | Foto: Shutterstock

No sistema despótico e distópico dos Robespierres digitais não há nenhuma chance de defesa ou remota semelhança com um processo legal. A acusação é a própria prova do crime. O acusado é considerado culpado, mesmo com evidências em contrário. Junte-se a isso um dispositivo de delação em grupo que transforma um grande número de reclamações em evidência suficiente para encaminhar alguém à guilhotina digital. Se a sua opinião desagrada a um determinado grupo, basta que um número grande de insatisfeitos combine de denunciar a sua conta para que, do nada, ela seja suspensa ou cancelada.

Há razões suficientes para acreditar que os promotores e os juízes invisíveis que controlam esses tribunais digitais têm preferências políticas muito claras, e que sua atuação, longe de significar uma tentativa de sanear e equilibrar o discurso das redes, tem, na verdade, objetivos ideológicos, políticos e eleitorais concretos. É óbvio e desnecessário dizer que esse mecanismo funciona exclusivamente para patrulhar, identificar, caçar e punir opiniões que não sejam de esquerda.

O aspecto mais irônico, fofo e — é justo dizer — pervertido desse fenômeno é que essa é uma censura que não se reconhece como tal. Os departamentos de marketing das big techs trabalharam duro, junto com organizações políticas progressistas e todo um ecossistema ideológico, para produzir as mais variadas e criativas justificativas para essa ação sistemática de repressão de pensamento, censura e controle de discurso.

Os departamentos de marketing das big techs trabalharam duro, junto com organizações políticas progressistas e todo um ecossistema ideológico, para produzir as mais variadas e criativas justificativas para essa ação sistemática de repressão de pensamento

Não se trata de censura, dizem eles, mas de combate à desinformação. Afinal, não se pode permitir que qualquer coisa seja dita on-line, certo? Alguém tem de trazer um pouco de responsabilidade para essa gente. Mas esse é um problema clássico da liberdade de expressão; ela inclui o direito de mentir, de afirmar coisas que não são verdade. Todos são livres para dizer que o oceano é vermelho e que os cachorros são, na verdade, seres extraterrestres que habitam entre nós. Se alguma dessas afirmações prejudicar ou ofender alguém, o Estado de Direito já prevê remédios jurídicos amplamente conhecidos (processos penais por injúria, calúnia e difamação e processo civil por danos morais).

A liberdade de expressão é um direito natural, consolidado — ou assim imaginávamos — há centenas de anos nas democracias ocidentais. Não cabe qualquer revisão desse direito, seja por algoritmos computadorizados, seja por juízes invisíveis sem nenhuma formação em Direito ou compreensão das questões éticas e filosóficas.

Esses juízes — e aposto que a maioria não atingiu os 30 anos de idade — insistem que não se pode permitir discurso de ódio. Mas o que é esse discurso? A resposta deles é: qualquer coisa que ofenda a sensibilidade de meia dúzia de funcionários de uma multinacional de tecnologia. Mas discurso de ódio — em inglês, hate speech — tem, na verdade, uma definição muito precisa: é a expressão de desejo, de incentivo ou de planos para a eliminação violenta de grupos de seres humanos com base em etnia, religião ou gênero.

O combate ao discurso de ódio é obrigação de todos, e faz parte da missão maior de enfrentar qualquer manifestação totalitária. Mas é evidente que não se combate discurso de ódio quando se classifica dessa forma qualquer opinião apenas porque ela não segue as regras do consenso hegemônico de esquerda.

A batalha pela liberdade de expressão acontece hoje no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos, principalmente nas redes sociais.

Um pequeno grupo de “ungidos” não se conforma que o cidadão comum agora tenha opinião e o poder de questionar a grande mídia.

Querem calar as tias do zap. Não só calar; querem ofender, cancelar, proibir, criminalizar, prender e sumir com todos os cidadãos comuns que, subitamente, aprenderam a pensar sozinhos. Dar opinião virou crime. Fazer determinadas perguntas é “ato antidemocrático”.

Essa campanha contra a “desinformação” é, na verdade, uma gigantesca e vergonhosa operação de censura e repressão em escala global. As motivações são dinheiro, poder político e outros interesses inconfessáveis.

Essa agenda sombria ataca uma das bases da civilização ocidental: o conceito dos direitos naturais. Os direitos à vida, à propriedade, à liberdade e à livre expressão estão sob ataque permanente.

Foto: Shutterstock

Dentre aqueles que, um dia, terão contas a ajustar com a humanidade, destacam-se os que tinham a responsabilidade de garantir a liberdade, mas que, movidos por ideologia, ganância ou covardia, usaram seus cargos e seu poder para calar, censurar e falsificar a própria história.

Foi mais ou menos isso que eu contei ao Elon, em dois ou três tuítes. O primeiro deles foi:

Senhor @elonmusk: por favor, dedique 10 minutos para se familiarizar com a situação no Brasil e a forma como a liberdade de expressão foi cerceada com a ajuda (espero) inadvertida ou (talvez) falsa das políticas e ações locais do Twitter

Elon me escutou e respondeu: “Está na minha lista de tarefas.” E perguntou: “É urgente?”

“É crítico”, respondi.

“Você pode citar alguns casos específicos?”, Elon perguntou.

Eu respondi. Citei dois casos.

Um deles foi o caso do meu amigo Marcelo Rocha Monteiro, que teve sua conta bloqueada porque publicou no seu perfil uma foto da capa dos seus dois últimos livros. Uma capa tinha a foto de uma explosão nuclear (acusação: exibição de “violência explícita”); a outra capa tinha a foto de uma pintura de Michelangelo (acusação: pornografia).

O outro caso foi o da Revista Oeste, uma publicação que conta com dois dos maiores jornalistas brasileiros: J.R. Guzzo e Augusto Nunes. O link da Revista Oeste estava sendo classificado pelo Twitter como “inseguro”.

Em menos de quatro horas os dois casos haviam sido resolvidos.

As redes sociais são, ao mesmo tempo, o front da batalha pela liberdade de expressão e nosso principal recurso.

Há dois livros importantes, absolutamente essenciais, nesse momento da história brasileira e, talvez, mundial.

Um deles é Linguagem e Silêncio, de George Steiner. Segue um trecho:

“Quais são as relações da linguagem com as falsidades assassinas que ela foi obrigada a articular e consagrar em certos regimes totalitários? Ou com a grande carga de vulgaridade, imprecisão e ganância que ela é obrigada a carregar em uma democracia baseada no consumo de massa?”

O outro livro é 1984, de George Orwell. O livro descreve um país totalitário chamado Oceania, onde existiam quatro ministérios.

O Ministério da Paz cuidava da guerra. O Ministério da Verdade produzia as mentiras oficiais. O Ministério do Amor era encarregado da tortura. O Ministério da Abundância era responsável pela fome.

Diz George Orwell no livro: “Essas contradições não são acidentais, nem resultam de simples hipocrisia: são exercícios deliberados de duplipensar, que é a habilidade de manter na mente, ao mesmo tempo, duas ideias contraditórias”.

Vida longa às redes sociais.

Leia também “A sociedade do ressentimento”

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14 comentários Ver comentários

  1. Parabéns pela altivez, informações, realismo, pé no chão e principalmente, pela humildade em retratar o homem mais rico do mundo, não como adversário, mais sim, com admiração.

    Afinal de contas, a maior riqueza deste mesmo senhor não está na grana nem tão pouco na lista de alguma revista.

    Super abraço sempre fraterno.

    Carlos Costa – Toronto – Canadá

  2. Parabéns por se mover, não se amedrontar, assim, desafiar aquilo que parecia impossível. Esperamos que o senhor Musk não seja dominado pelas censuras.

    Observando seu artigo, minha opinião, evite colocar “, e”, a virgula depois a vogal “e”, essa é uma expressão coloquial, mas, ao meu ver, não adequado à escrita.

  3. Motta. TD bem? Gostaria de fazer uma sugestão. Você poderia criar uma lista de autores, filósofos… conservadores. Isso é bom para aqueles que estão iniciando no estudo sobre o conservadorismo.

    Grato pela atenção,

    Kevin Christlieb Deessuy

    1. ” Só assim e através de atitudes sensatas, conseguiremos resolver grande parte da desinformação da nossa sociedade.”
      Parabéns e sucesso à todos.

  4. Parabéns Mota, estou com a minha conta no Twitter suspensa “permanentemente”, o mais incrível que o censor no Twitter é o Sleeping Giants, e eles comemoram o fato afirmando em seu site que já desmonetizaram mais de R$ 62 milhões, o TSE contratou esse Ministério da Censura, que absurdo estamos vivendo, informe o Elon Musk desse absurdo por favor.

  5. Certos membros da corte constitucional agem DIRETAMENTE, em desobediência ao devido processo legal, ao receber e atender pedidos de políticos e partidos, abrindo inquéritos do “fim do mundo” ilegais, investigações, prisões arbitrárias em desrespeito às imunidades parlamentares, contra cidadãos comuns, pessoas físicas e titulares de pessoas jurídicas sem foro privilegiado (cujos atos são de competência da justiça de 1ª instância), desmonetizações de mídias, cancelamento de acesso às redes sociais, multas bilionárias insanas (impagáveis, nos dois sentidos) etc., usadas contra adversários e vítimas de políticos larápios ex-condenados, ora protegidos. Tais cometimentos são tipificados como abuso de autoridade, inclusive a invasão de competência entre os poderes, ao criar dispositivos que cabem exclusivamente ao Congresso nacional. Quaisquer pessoas físicas e jurídicas estão desobrigadas de atender mandados fora da lei, inconstitucionais, que, respeitosamente, merecem a devida recusa. Os que atendem tais aberrações estão agindo mutuamente como criminosos.

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