Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock

O show de horrores de Mark Zuckerberg

A demissão de 11 mil funcionários da Meta é apenas o sintoma de uma crise muito maior

“Hoje estou compartilhando algumas das mudanças mais difíceis da história da Meta. Eu tomei a decisão de reduzir o tamanho da nossa equipe em cerca de 13%, mais de 11 mil postos de nossa talentosa força de trabalho. Também estamos tomando uma série de medidas adicionais para nos tornarmos uma empresa mais enxuta e eficiente, cortando despesas discricionárias e estendendo o congelamento de contratações até o primeiro trimestre de 2023.”

Assim começou o comunicado de Mark Zuckerberg aos seus empregados no dia 9 de novembro. O comunicado mostrou que mesmo a titânica empresa que nasceu como Facebook em 2004 não está livre de passar facão em mais de 10 por cento de sua força de trabalho. No seu comunicado, Zuckerberg anunciou um generoso pacote aos desempregados — indenização no valor de 16 semanas (mais duas semanas para cada ano de trabalho), pagamento de férias, exercício de ações, seguro saúde por seis meses, apoio na recolocação ao trabalho, assistência a imigrantes. E avisou que a equipe de recrutamento seria especialmente afetada, pois a empresa não pretende contratar novos funcionários por um bom tempo.

Facebook novo nome
Mark Zuckerberg | Foto: Reprodução/Flickr

A revista Bloomberg Businessweek revelou nesta semana que a receita da empresa deve cair vertiginosos US$ 10 bilhões, uma queda de 9% com relação ao que se previa. O que causou afinal esse tombo? Não existe, é claro, uma explicação simples. É uma soma de fatores que possibilita a tempestade perfeita:

  1. Segundo a Bloomberg, a Meta tem uma política com relação aos funcionários que nem sempre está voltada à criação de lucro. Equipes podem passar meses se dedicando a projetos que não levam a lugar nenhum;
  2. Bruno Meyer, em sua coluna da edição 139 de Oeste, destacou a existência de um benefício aos funcionários que exemplifica o clima de irresponsabilidade financeira na condução da empresa: “No pacote de benefícios, por exemplo, os homens têm uma generosa e inédita licença-paternidade de impressionantes seis meses, igual à das mulheres”, escreveu Bruno. “A licença se estende para adoções, e pode ser usufruída só seis meses após o nascimento do filho, para que o pai reveze com a mãe”;
  3. O Facebook sempre teve o costume de canibalizar outras redes sociais e outros serviços de internet. A Google (hoje Alphabet) também faz isso, mas oferece seus produtos em plataformas separadas, facilmente acessíveis, que nos tornam praticamente dependentes — o mapa, o e-mail, o calendário, a planilha, o processador de texto, etc. A Meta mistura tudo ao mesmo tempo de maneira confusa e pouco prática. O Facebook é um emaranhado de recursos mal explicados, do tipo “tudo ao mesmo tempo o tempo todo”;
  4. O aplicativo Instagram, um sucesso da empresa (com 1,4 bilhão de usuários), é tão pobre em recursos que parece implorar para ser substituído por um concorrente com um pingo de imaginação;
  5. Segundo a Bloomberg, a Meta atingiu o pior resultado entre as big techs em termos de receita publicitária no último ano: -2%. O Twitter subiu 5%; o Google, 13%; e a Amazon, 33%. Mas o fantasma que assombra Zuckerberg vem da China: o TikTok, que viu sua receita publicitária crescer 155% no mesmo período;
  6. Para tentar concorrer com o TikTok, o Face criou mais um puxadinho funcional — o Reels, um espaço para vídeos curtos e engraçadinhos (originalidade não é o forte da empresa). O Reels distribui 140 bilhões de vídeos por dia, sem ganhar nada com isso. A empresa já perdeu meio bilhão de dólares só no último trimestre para manter o serviço funcionando. E calcula que esse ralo vai continuar aberto para prejuízos por mais um ano ou um ano e meio.
Ilustração de Oscar Bolton Green para a Bloomberg Businessweek. O pequeno Mark desconsolado no vazio do seu metaverso | Foto: Reprodução


Rede envelhecida

O sucesso do TikTok está sugando uma multidão de jovens de outras redes. O Face está sofrendo mais que os outros com isso. É hoje uma rede social “para velhos”, cheia de apelo nostálgico. E como desde o início a rede estimula o diálogo e o debate, a cada eleição provoca um festival de cancelamentos, desmanches de amizades, ofensas mútuas e brigas entre famílias e velhos conhecidos.

Foto: Reprodução

30 dias na geladeira

O site SocialMedia Today publicou no dia 22 uma estatística interessante a esse respeito: a lista dos 20 posts mais vistos do Facebook norte-americano no terceiro trimestre do ano. Os assuntos são os mais variados: “Elon Musk dorme numa garagem” era o campeão, com 16 milhões de visualizações. Valia tudo: a falência de Lady Gaga, a fortuna de Tiger Woods, a demissão de uma professora porque — ironia das ironias — usou o Tik Tok na classe, as roupas do filho da Madonna, os 20 homens mais lindos do mundo. Tudo, menos política.

Só o TikTok continua contratando e espera que sua expansão ajude a limpar a má imagem de que seja um instrumento a serviço do Partido Comunista Chinês

O Facebook garantiu que isso fez parte de sua estratégia de diminuir as possibilidades de choques de opinião. Mas os brasileiros sabem que isso não deve ter funcionado por aqui. Onde uma guerra entre os que faziam o L e os que vestiam as roupas da bandeira nacional provocou um festival de cancelamentos, desmanches de amizades, ofensas mútuas e brigas entre famílias e velhos conhecidos. As opções “desfazer amizade”, “bloquear”, “deixar de seguir” e “colocar em modo espera por 30 dias” foram usadas à vontade nesses dias turbulentos. E continuam sendo. Assim, os conflitos naturalmente diminuem, porque os dois lados não se encontram mais.

“Terrívelmente feios”

Como fica a Meta? O diretor de comunicações da empresa, Andy Stone, disse que “é falso” o boato de que Mark Zuckerberg planeja renunciar em 2022. Zuckerberg deixou clara sua responsabilidade na situação difícil da empresa. “No início da covid, o mundo mudou rapidamente para o on-line, e o aumento do comércio eletrônico levou a um crescimento descomunal da receita”, declarou, numa mensagem a funcionários. “Muitas pessoas previram que seria uma aceleração permanente que continuaria mesmo após o fim da pandemia. Eu também, então tomei a decisão de aumentar significativamente nossos investimentos. Infelizmente, isso não aconteceu da maneira que eu esperava.” É uma confissão de mau administrador.

Um artigo de Paul Tassi para a revista Forbes mostra que a aposta estabanada no metaverso foi outro erro de cálculo. O head set Quest Pro, que serve para acessar os metaverso da empresa, não ficam mais baratos que US$ 1.500 — um investimento de R$ 8 mil. E para quê?

Quem usa o Quest Pro, segundo Tassi, experimenta lugares como “Horizon Workrooms” ou “Horizon Worlds”, os principais aplicativos metaversos para negócios e lazer, que são terrivelmente feios, pouco funcionais, criadouros para, na melhor das hipóteses, interações sociais desajeitadas com estranhos ou, na pior das hipóteses, assédio ativo”.

O HorizonWorlds, um dos metaversos de Zuckerberg: “terrivelmente feio” | Foto: Divulgação/Meta

“Há um pequeno mercado para um lugar como o Horizon Worlds”, reconhece Paul Tassi, “um lugar que tem alguns obstinados em realidade virtual presos em seu feitiço, mas é principalmente uma cidade fantasma cheia de mundos vazios, que estão ficando cada vez mais vazios a cada semana que passa. O aplicativo social perdeu 100 mil usuários neste ano.”

“Tão ruim que é bom”

A crise não atinge apenas o Facebook. O Twitter, sob a administração meio errática de Elon Musk, também demitiu praticamente a metade de seu staff, segundo a CNN Internacional. Só o TikTok continua contratando e espera que sua expansão ajude a limpar a má imagem de que seja um instrumento a serviço do Partido Comunista Chinês.

Mas o Facebook simboliza melhor essa fase difícil das redes. A canadense Isabel Slone escreveu para o New York Times um artigo cujo título diz quase tudo: “O Facebook é um show de horrores numa cidade deserta, e eu estou amando isso”. A jornalista reconhece o Face ainda é um gigante global, com mais de 2 bilhões de usuários ativos por mês. Mas um estudo da agência eMarketer calcula que neste ano vai haver uma fuga de 1,4 milhão de usuários. Pior: menos de 15% de seus usuários terão menos de 25 anos.

“O Facebook é um verdadeiro show de horrores”, escreve Isabel Slone, “e seu apelo se baseia na mesma lógica ‘tão ruim que é bom’ que informa meu amor pelo filme cult dos anos 1970 e redes de restaurantes objetivamente terríveis. Mas também é mais do que isso. Ao me juntar a uma miríade de grupos díspares, consegui transformar uma plataforma de dinossauros em uma saída refrescante do algoritmo que governa nossas vidas digitais coletivas. Eu me espreito nas sombras, como o mais assustador dos voyeurs, lendo discussões apaixonadas sobre o lançamento de memes e histórias angustiantes de problemas conjugais voltadas para outras mães, ou absorvendo fotos de banquetes suntuosos preparados por entusiastas da culinária ao ar livre.”

Censura privada

O futuro do Facebook e o das outras redes sociais interessam a todos nós. São serviços globais e em momentos de crise como o que vivemos agora no Brasil assumem uma importância fundamental na livre circulação de ideias e informações. É importante que elas sejam economicamente viáveis e cumpram suas funções, oferecendo cada vez mais recursos para que ninguém fique prisioneiro dos “consórcios de mídia” de cada país. O que essas redes não podem é servir como uma espécie de aparelho de censura privada, decidindo sem critérios justos e claros quem vai ser punido com suspensões de contas ou desmonetização. De insegurança já basta o sistema jurídico brasileiro.

ameaça petista
Ilustração: Shutterstock

@DagomirMarquezi

Leia também “Os filhos da necessidade”

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6 comentários Ver comentários

  1. Muito me estranha as minhas postagens tendo avisos de parcialmente falsa, ou bloqueada, no entanto foram postada só verdades do ladrão do nine.

  2. Certa vez, ainda na época dos cartões postais; mais precisamente em 1988, andava eu pelo centro da cidade de Viçosa – MG, quando vi na vitrine de uma lojinha um cartão cuja mensagem guardei para sempre. Havia a foto de uma flor e a seguinte frase: TU TE TORNAS ETERNAMENTE RESPONSÁVEL POR AQUILO QUE CATIVAS. Atualizando os dados, não seria este o caso das redes sociais? Agora tratem de cuidar bem do filho Matheus.

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