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Corrida da vacina: Anastasia sem anestesia

O senador mineiro criou uma regra para aprovação de vacinas à revelia da autoridade sanitária. Quem sabe o que é bom para a tosse é ele

O senador Antonio Anastasia apresentou projeto (aprovado) dando à Anvisa 72 horas para deliberar sobre as vacinas contra a covid. Se esse prazo não for cumprido, será considerada concedida “autorização tácita” pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária para aplicação da vacina no Brasil. Vamos traduzir: autorização tácita quer dizer aprovação da vacina sem o exame da autoridade sanitária do país. Isso é um escândalo.

Não dá para saber se o empático senador calculou as possíveis consequências da sua pressa. Vamos ajudá-lo citando um trecho do documento entregue à Procuradoria-Geral da República por um grupo de mais de cem médicos e professores, liderado pela doutora Nise Yamaguchi e pelo professor de bioética Hermes Nery:

Os testes que estão sendo realizados (nesta data) para desenvolvimento de mais de 200 vacinas experimentais em todo o mundo são muito heterogêneos e muitos dependem de tecnologias emergentes algumas delas com abordagens nunca testadas em seres humanos —, o que requer cautela e respeito aos Protocolos Técnicos de Segurança já consagrados para desenvolvimento de vacinas, os quais não foram, nos estudos em andamento, devidamente acatados no curto e médio prazos, visto que etapas de pesquisa e avaliação foram drasticamente encurtadas ou fundidas a outras.

Caso o senador apressado não tenha entendido o português claríssimo acima, vamos ajudá-lo: o desenvolvimento das vacinas contra a covid tem pulado etapas, e isso é perigoso para a saúde humana. Portanto, é preciso CAUTELA. Se ainda não ficou claro o tamanho do problema, vamos a outro trecho do documento:

A história do desenvolvimento de vacinas antivirais possui um recorde preocupante de reações indesejadas e fatais, como, por exemplo, a questão do desenvolvimento de vacina contra a dengue que causou em alguns casos uma forma mais grave da doença, a dengue hemorrágica; existem também relatos de diversos tipos de vacinas, como por exemplo contra a aids, que não conseguiu ainda atingir os requisitos para ser liberada, após anos de pesquisa, bem como relatos de efeitos adversos precoces e tardios e diversas síndromes vacinais que podem ocorrer com anafilaxia, reações imunológicas adversas e doenças autoimunes.

Vejamos as consequências do arroubo sanitário deste legislador inquieto

Ou seja: vacina pode matar. E mesmo assim o ilustre senador Antonio Anastasia, ex-governador de Minas Gerais, criou uma regra para aprovação de vacinas à revelia da autoridade sanitária. Quem sabe o que é bom para a tosse é ele. Então vamos continuar prospectando o que dizem os estudiosos para tentarmos avaliar, em menos de 72 horas, as possíveis consequências do arroubo sanitário deste legislador inquieto:

O Protocolo Científico e Bioético para Desenvolvimento de Vacinas preconiza que a aplicação de uma vacina experimental, mesmo quando já se obtiveram resultados de eficácia e segurança promissores em estudos clínicos, o seja inicialmente apenas em voluntários que possuam um perfil igual ao dos primeiros voluntários que participaram das fases até então testadas. A seguir, o acompanhamento clínico desse grupo deve ser feito por no mínimo um ano, para confirmação da persistência e duração da imunidade celular a qual é mais duradoura e pode ou não ser permanente —, bem como verificar se houve reações adversas graves ou sequelas correlatas de médio prazo nessa população.

Resumo executivo para os apressados do gabinete: é requerido no mínimo um ano de acompanhamento de um primeiro grupo de receptores do imunizante para verificar reações adversas graves. O senador está passando por cima de tudo isso com sua ameaça de “autorização tácita” para vacinação indiscriminada da população. Anastasia declarou, como exposição de motivos para a cotovelada na Anvisa, que “a vida não pode esperar”. Com certeza a morte também não vai esperar a revisão desse processo irresponsável se ocorrerem reações adversas graves em organismos vulneráveis que tenham sido vacinados antes das devidas etapas de verificação.

Vamos completar esse debate sobre as consequências possíveis da demagogia em meio a uma crise sanitária citando outro trecho do documento enviado à Procuradoria-Geral:

Seria de fato uma temeridade e desrespeito à Saúde e aos Direitos Humanos expor milhões de pessoas a qualquer vacina experimental, mesmo que aparentemente segura e eficaz em testes clínicos, antes de se cumprirem todas as fases temporais de seguimento dos voluntários recipientes, em conformidade ao Protocolo Científico e Bioético de Desenvolvimento de Vacinas internacionalmente praticado de forma consensual até o ano de 2019 para avaliar os efeitos e sequelas que podem surgir em um ou dois anos, ou mais, razão pela qual o prazo médio de consolidação de vacinas para uso geral é de cinco anos. Como demonstrado por dezenas de exemplos da literatura científica, não se pode pular etapas naturais de avaliação de médio e longo prazos sem que vidas paguem por isso, como mostra a história das vacinas. Assim sendo, as vacinas, quando forem aprovadas pela Anvisa, deveriam continuar condicionadas a maiores e mais longos estudos e seus resultados clínicos e às novas informações que serão incorporadas aos dados obtidos até o momento, para a liberação gradual e seletiva da vacinação.

Esperamos que assim tenha ficado claro o tamanho da aventura na qual algumas autoridades querem lançar a população brasileira. E esperamos que essas autoridades estejam prontas para responder pelas eventuais consequências dos seus atos.

Mais sobre vacinas contra a covid-19 na reportagem “A verdade sobre a CoronaVac”

 

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34 comments

  1. Perguntem a esse senador se ele não quer ser o primeiro a tomar na bunda? Está até arriscado essa bichinha gorda aí dar um passo à frente, achando se tratar de outra coisa.

  2. Aconselha-se ao senador mineiro permanecer dando opiniões exclusivamente na área do Direito, na qual se espera tenha conhecimento! Todavia, se for o mesmo conhecimento que tem na área da Medicina, o melhor é que permaneça calado, pois ao menos não ficará demonstrada a sua ignorância!!! E como perguntar não ofende, pergunta-se qual o interesse que move o senador dando prazo para que uma instituição científica se manifeste em assunto eminentemente técnico ???!!! Acaso acha o senador que a Anvisa está sendo manipulada politicamente???!!! Quais os fundamentos dessa manipulação???!!! Que ele tenha a dignidade de colocar os pingos nos is. Que dê nomes aos bois e apresente provas!!! Ou acaso sua conduta é a mesma do governador paulista, que já está em plena campanha eleitoral para 2022, achando que atropelando a ciência vai garantir vitória na eleição presidencial???!!! De ilusão também se vive! Quem viver, verá!!!

  3. Lembrando que o senador Anastasia foi o mesmo que redigiu uma carta de desculpas ao embaixador chinês pelas “grosserias” proferidas por Eduardo Bolsonaro. A quem você serve, senador da república?

  4. É inacreditável que homens experientes e supostamente inteligentes como estes políticos se metam com assunto eminentemente técnico.
    Pobres autoridades públicas nos temos! Onde vamos parar?

  5. Amigos, calma. A lei é esta : n° 14.006/de 28 de maio de 2020). Foi sancionada pelo presidente em maio. Por que estamos assustados com isto só agora?

  6. O senador tucano deveria apresentar projetro dando 72 horas (ou dias) para o STF tirar seu back log, colocando em dia sua pauta, onde milhares de acoes “dormem em berco explendido”, prescrevendo e salvando inclusive corruptos (como seus amigos politicos)

  7. Por que, também, não criamos uma Lei para obrigar senadores, deputados e ministros juntos com seus familiares, ascendentes e descendentes, até segundo grau a serem os primeiros a tomar a maravilhosa vacina já que “a vida não pode esperar”. O resto é, como sempre, hiprocrisia dos políticos.

    1. Boa idéia a politicada do Brasil, em decisão altruística como sempre se comportam, darem o exemplo e se colocarem para vacinarem juntamente com os seus familiares? Aproveitem que o Jair já avisou que os parentes de políticos ficarão livres, pois o que manda é o “chamego” no papel. CONCORDO E QUERO VACINAR. Ponto.
      Sabe que de tão feliz já aprovo a vachina?

  8. Isso colabora com a outra matéria de revista “Por que o Congresso é tāo ruim no Brasil”. Principalmente, causa de hipócritas como esse que assolam o Congresso.

  9. Excelente, Fiuza !
    O que me causa espanto não é apenas o Senador Anastasia agir açodadamente e atropelando tudo; o mais grave é que a grande imprensa silencia sobre os riscos que todos correrão ao serem vacinados.
    Pelo pouco que entendo, parece que, mesmo após a eventual aprovação da Anvisa, ainda assim haverá riscos de efeitos deletérios em um futuro próximo ou mais remoto, basicamente porque os estudos sobre o vírus são muito novos e as vacinas encontradas ainda não foram aplicadas em um número considerável de seres humanos.A verdade é que a grande maioria está avida pelas vacinas, esquecendo-se de que seremos cobaias e sentaremos em bombas que poderão ou não explodir.
    O meu espanto está na postura da grande imprensa brasileira e também na mundial.
    Parabéns, Fiuza !

    1. José Antônio, dados os últimos acontecimentos, o senhor não deveria se espantar com o comportamento da grande imprensa. Além de imbecis fundamentais, ignorantes de pai e mãe – com as óbvias exceções, como por exemplo todos aqui da Oeste – eles são também criminosos e tiranos insensíveis. Querem fazer valer suas visões de mundo, doa a quem doer. Já não me assusto com nada dessa mídia podre, pois eles não tem mais pra onde cair em matéria de estupidez.

  10. E dizem que esse energúmeno é forte candidato à presidência do Senado. Já pensou? Estaremos ferrados, aliás continuaremos ferrados.

  11. Boa ideia, todos os que concordam com a vachina de Dória, sejam eles políticos e alienados pela esquerdalha, que sejam os primeiros a se voluntariarem.

  12. Fiuzza, muito bom esse comentário sobre um destacado politico jurista que nada entendendo de ciência da saúde, quer impor sua autoridade judicial legislativa.
    Agora, sugiro que leia a MANIFESTAÇÃO dos indignados cientistas que não gostaram do relatório enviado pelo ministério da saúde ao STF, do Plano Nacional de Vacinação da COVID 19, sem tê-lo apresentado previamente aos listados cientistas. Neste manifesto estão cientistas do Butantã e outros institutos. É assustador estarmos entregues a essa qualidade de cientistas da saúde que inclusive pedem a inclusão de outras vacinas tipicamente com o mesmo discurso do marqueteiro Doria do Butantã.
    Fiuzza parabéns pelo artigo, mas procure ler esse manifesto que poderá ser excelente material para o teu jornalismo critico, irônico e bem humorado.

  13. É inacreditável como figuras eleitas para trabalhar em prol do cidadão, zombam e cospem em sua cara, e, tudo isso, com o maior desdem e desprezo.
    Será que seus objetivos são outros?????

  14. Anastasia continua a mando de Aécio. Só isto.
    Hoje aquí em MG é chamado de ANESTESIA.
    Juntamente com Rodrigo Pacheco serão em breve banidos da política, pois não mais será como antigamente, qdo descartados em eleições, arranjam uma boquinha na Cemig, Copasa, Codemig.
    O Zema vai acabar com todas essas ineficiências.

    1. José Angelo, me perdoe se eu parecer arrogante, mas a julgar pela reeleição massiva do Khalil em BH, tenho minhas dúvidas se esses criminosos citados pelo senhor serão banidos da política.

  15. Mais um vagabundo a serviço de interesses outros. Nao sei como não determinou a compra da vacina chinesa. Ainda tem um pouco de medo e vergonha na cara.

  16. Dois traíras deploráveis: ele e o Pacheco. Na próxima eleição mandaremos o primeiro vendido para casa. Nós eliminamos a estocadora de ventos, ele será o próximo. E com mais 4 anos, o outro.

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