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O novo Estado onipotente e o reino transgênero

Ao redefinir 'sexo', projeto de Biden expõe flagrante desprezo pelo pluralismo religioso e pela biologia humana

Desde que Joe Biden assumiu a Casa Branca como presidente da nação mais poderosa do planeta, os Estados Unidos e o resto do mundo pararam para observar qual caminho o democrata seguiria. Muitos apostaram que Biden, há mais de quarenta anos no Partido Democrata, observaria a agenda social-democrata do antigo partido de Bill Clinton. Outros afirmavam que a atual ala radical da extrema esquerda de Kamala Harris comandaria o Salão Oval — uma vez que, durante a campanha presidencial, Biden fez promessas de tocar rapidamente a agenda progressista radical da turma de sua vice. Depois de apenas quarenta dias da Resolute Desk, tudo está tão claro como a luz do dia.

Recentemente, escrevi um artigo para nossa Revista Oeste sobre as muitas ordens executivas assinadas por Biden logo nos primeiros dias de administração. Entre elas, uma que atinge as mulheres no esporte em cheio: a permissão para que homens biológicos possam competir em esportes femininos, apenas identificando-se como mulheres. As ordens executivas do ex-vice de Barack Obama seguem à risca a agenda globalista dos progressistas radicais. Biden assumiu, sem a menor cerimônia, a liderança do movimento de esquerda mais radical da história dos Estados Unidos. A mais recente peça da realidade paralela dos novos democratas orwellianos é o Equality Act (“Lei de Igualdade”). O projeto de lei, que não passou por nenhuma comissão e foi aprovado pela Câmara com maioria democrata, segue agora para o Senado. Para ser aprovado, precisa dos votos de 60 senadores devido ao filibuster, uma manobra de obstrução em que um ou mais membros debatem uma proposta de legislação para atrasar ou impedir totalmente uma decisão final.

Como todas as medidas politicamente corretas, o Equality Act esconde-se atrás de um nome fofo. Na prática, se aprovado, afetará vários aspectos da vida de maneira inimaginável, desde o uso de talentos e habilidades — incluem-se as atléticas — até a fala obrigatória com “linguagem neutra”. A rotina em locais públicos, na escola, no emprego, em creches, hospitais e lares de idosos, em todos os meios de comunicação, de instituições religiosas a organizações de caridade, tudo será afetado porque os sentimentos de poucos precisam ser considerados antes da realidade, da ciência e da biologia. Nenhuma área de existência estará livre do alcance de seus tentáculos e do poder do Estado.

O ponto-chave a reconhecer sobre o projeto é que ele vai codificar em lei que você é um fanático, reacionário, racista, homofóbico e transfóbico, e que deve ser excluído da sociedade e, sempre que possível, assediado e perseguido por suas crenças obscuras se não aceitar as imposições ali descritas. Aqui estão apenas alguns exemplos dos resultados draconianos caso a Lei de (Des)Igualdade se torne realidade:

  • Proibição de que o indivíduo alegue exercício de liberdade religiosa — direito protegido pela Primeira Emenda da Constituição Norte-Americana — para não seguir a agenda LGBTQ na escola, no trabalho ou em qualquer outra “acomodação pública”;
  • Proibição da discriminação com base em sexo, orientação sexual e identidade de gênero em áreas como acomodações e instalações públicas, escolas, empresas e mais uma série de lugares públicos. Basicamente, acrescenta as expressões “orientação sexual” e “identidade de gênero” à Lei dos Direitos Civis de 1964;
  • Autorização para que homens que alegarem “identidade de gênero” feminina — mesmo os que não passaram por “cirurgia de redesignação de sexo” — possam utilizar “todos os banheiros e vestiários no país” destinados a mulheres (as aspas destacam a linguagem real do projeto de lei). Também estão explicitamente incluídos no projeto os abrigos para mulheres, prisões femininas e, como mencionei anteriormente, esportes femininos;
  • Inclusão no programa escolar de toda a rede pública e de estabelecimentos privados não religiosos de toda a agenda LGBTQ, a partir da pré-escola. Nenhum professor ou administrador poderá impedir um menino de entrar no banheiro feminino. Na prática, trata-se de pura e simples doutrinação;
  • Punição com multas pesadas a empresas que se recusem, mesmo por motivos religiosos, a prestar seus serviços a eventos LGBTQ, como casamentos entre homossexuais;
  • Cancelamento de financiamento federal — bolsas de pesquisa, empréstimos estudantis etc. — e até mesmo, em última instância, descredenciamento de todas as escolas e faculdades religiosas que não promovam a diversidade de “orientação sexual” e “identidade de gênero”;
  • Obrigatoriedade de que médicos e enfermeiras, mesmo em hospitais cristãos, realizem “cirurgia de redesignação de sexo” até mesmo para menores. Todos os funcionários serão obrigados a se referir a pacientes transgênero por seus pronomes preferidos. Profissionais de saúde que tentarem alertar jovens e adultos sobre os efeitos prejudiciais de bloqueadores de hormônios na puberdade, da cirurgia de redesignação de sexo e de práticas comuns ao comportamento homossexual masculino (como sexo anal) serão demitidos e perderão a licença profissional;
  • Perda da isenção de impostos, em certos casos, para igrejas que não promovam a agenda LGBTQ, incluindo a realização de casamentos entre homossexuais.

Se você ainda não está sentado, por favor, sente-se para ler o próximo item:

  • Autorização para que o Estado assuma a tutela de crianças “transgênero” cujos pais se recusem a chamá-las pelo nome e pronome que escolheram em desacordo com o sexo “atribuído” no nascimento. Os pais também não poderão recusar a aplicação em seus filhos de bloqueadores de hormônios na puberdade e de realização de cirurgia de “redesignação de sexo, mesmo em menores de idade.

Bem, há vários outros pontos assustadores no documento de mais de cem páginas, mas creio que já dá para vermos qual agenda seguirá Joe Biden, “o moderado” para muitos analistas brasileiros. Todo esse movimento legislativo ecoa de forma impressionante a estratégia para erradicar a religião na União Soviética e na China, entre outras nações, como observa o historiador Dimitry V. Pospielovsky, em Uma História do Ateísmo Marxista-Leninista e das Políticas Antirreligiosas Soviéticas: “A coexistência entre o materialismo ateísta e a interpretação religiosa da realidade é teórica e praticamente impossível. A hostilidade contra a religião não é uma questão de contingência, mas um compromisso profundo e fundamental de visão de mundo da ideologia oficial do comunismo.”

Na verdade, a Lei de Igualdade apagaria oficialmente os direitos dos membros de comunidades religiosas tradicionais de fazer publicamente escolhas de vida com base numa cosmogonia que não aceite o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a agenda LGBTQ. Essas religiões minoritárias incluem o judaísmo ortodoxo e o cristianismo ortodoxo, o islamismo e o budismo tradicionais e o protestantismo evangélico. A Lei da Igualdade imporia a egocêntrica cultura de elite a tais tradições. Tudo isso seria baseado em ciência contestada, visto que categorias essenciais de orientação sexual e identidade transgênero continuam sendo tópicos de desacordo mesmo dentro das comunidades LGBTQ.

Longe de encorajar direitos civis reais, esse projeto estabelece uma nova antropologia sexual oficial, a ser aplicada sem isenções de liberdade religiosa ou de expressão científica. A aplicação dessa nova visão da humanidade viria à custa de muitos. Aqueles que decidirem expressar outras tradições sobre sexo, amor e família correm o risco de assumir estereótipos preconceituosos e de sofrer a mão pesada do governo. Ao redefinir “sexo”, um termo básico do discurso humano, o projeto cria um vocabulário oficial a ser policiado por um Estado onipotente, com flagrante desprezo pelo pluralismo religioso e pela biologia humana. Sua distorção da linguagem evoca o vocabulário totalitário da novilíngua no clássico 1984, de George Orwell. Lá, também, a linguagem foi mudada para garantir o controle social.

Aqueles que não aceitarem o que a legislação promove seriam alvos abertos para um paralelo norte-americano moderno ao “ódio de dois minutos” de Orwell. Hoje, nossas sessões de ódio acontecem on-line, em que a turba violenta ataca dissidentes em linchamentos virtuais e tentativas de assassinato de reputações.

Há sinais claros de que o mandato de Joe Biden não marcará o retorno da política no estilo Clinton. Biden, provavelmente, acelerará o avanço da extrema esquerda, provando que nunca foi tão real a sentença da distopia de Orwell em outra obra, A Revolução dos Bichos, segundo a qual “todos os animais são criados iguais, mas alguns animais são mais iguais do que outros”.

Leia também “A epidemia global da confusão sobre gênero”

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