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Amazon: de vendedora a queimadora de livros

A decisão de parar de vender um livro que faz críticas à transgeneridade faz parte de uma tendência alarmante

When Harry Became Sally: Responding to the Transgender Moment foi publicado em 2018. Nele, o autor Ryan T. Anderson, membro da conservadora Heritage Foundation, voltou sua mira para o pensamento transgênero e incluiu histórias sobre pessoas que se arrependeram da transição.

O livro é crítico. Claro que é. Ele foi escrito de uma perspectiva explicitamente conservadora do ponto de vista social. Mas não é uma diatribe. É uma argumentação bem pensada e elogiada, entre outros, por um ex-chefe do departamento de psiquiatria do Hospital Johns Hopkins, um professor de psicologia da Universidade de Nova York, uma professora de ética médica da Faculdade de Medicina da Universidade Columbia, uma professora da Faculdade de Direito da Harvard e um professor de filosofia do direito da Oxford. E, apesar de sua contribuição, valorizada por membros da academia, para um debate muito necessário, a Amazon achou boa ideia removê-lo de suas prateleiras.

A Amazon não explicou por que retirou When Harry Became Sally de sua plataforma. Claramente a empresa não viu necessidade de dar satisfações. Só se pode supor que, quase três anos depois de sua publicação, a companhia agora acha que um livro que critica a ideologia transgênero não está de acordo com suas diretrizes, que o consideram “não apropriado ou ofensivo” ou “discurso de ódio” — uma categoria que só foi acrescentada às normas nos últimos seis meses, o que é revelador.

Claro, uma censura tão descarada não é novidade. Assim como seus irmãos das Big Techs — Facebook, Google e Twitter —, faz tempo que a Amazon abandonou qualquer fingimento de estar comprometida com a liberdade de expressão — ou, no seu caso, continuar vendendo “conteúdo que pode ser considerado questionável”. No começo do ano passado, veio à tona que ela havia removido alguns títulos racistas e neonazistas de seus produtos à venda, incluindo dois livros de David Duke, ex-líder da Ku Klux Klan, diversas lenga-lengas de George Lincoln Rockwell, fundador do partido nazista dos Estados Unidos, e outros lamentos antissemitas. A empresa até aprovou a remoção de todas as imagens nazistas de um livro-tributo da série com temática nazista da própria Amazon, The Man in the High Castle, com a explicação de que ela não queria “perpetuar a distribuição de símbolos de opressão”. Espere só eles darem uma olhada em Os Caçadores da Arca Perdida.

Tolerada em um caso específico, a censura tem o potencial de ser tolerada em todos os casos

Poucos derramaram lágrimas pelo silenciamento dos racistas. Mas, como vimos no caso de When Harry Became Sally, o ato de silenciar nunca para nos racistas. Os mecanismos e as diretrizes que os acompanham, depois de estabelecidos, sempre facilitam que se continue silenciando outras visões arbitrariamente consideradas tão odiosas quanto. O desejo de censurar aquilo que promove o ódio é voraz. E isso ficou provado. Ontem, foi um bando de racistas tediosos. Hoje, é a vez de conservadores sociais moderados e feministas que sem dúvida criticam a identidade de gênero. A censura, uma vez tolerada em um caso específico, tem o potencial de ser tolerada em todos os casos.

A vanguarda da cultura do cancelamento, fã do direito de propriedade como é, sem dúvida vai destacar que a Amazon é uma empresa privada. Portanto, é direito dela decidir o que vender em sua plataforma. O que é verdade. Mas a Amazon também está bem perto de ser um monopólio, controlando pelo menos dois terços do mercado de livros novos, usados e digitais só nos Estados Unidos. Se você não puder vender seu livro na Amazon, está sendo negado seu acesso à maior parte do público.

Então, sim, a Amazon, como o Google, o Facebook e o Twitter, é uma empresa privada, mas é uma empresa que efetivamente estabeleceu um monopólio sobre uma esfera do público. E seu poder de decidir o que nós lemos, vemos e ouvimos é tão ou mais preocupante por ela ser tão pouco responsabilizada.

Suas ações também definem o que as demais vão seguir. Como vimos na decisão do Twitter de banir Donald Trump de sua plataforma, outras empresas de tecnologia logo seguiram a mesma linha. Então, se a Amazon decidir que um livro passou do limite, se considerá-lo “discurso de ódio”, é preciso que um livreiro tenha uma mentalidade muito independente para continuar vendendo esse “discurso de ódio”. É tamanho o seu monopólio, e portanto o seu poder, que a Amazon está efetivamente decidindo quais livros é aceitável vender, quais livros não é.

E não para por aí. Como o próprio Anderson disse, a decisão da Amazon “terá um efeito de arrefecimento em todos os aspectos do marketing do livro”. Afinal, as demais editoras, compreensivelmente, só vão querer publicar livros que a Amazon considere apropriados o suficiente para ser comercializados. E sem dúvida os leitores também ficarão inclinados a ler apenas os livros que a Amazon, como o árbitro autoproclamado do bom gosto, considerou apropriados para ser lidos por nós.

É chocante o conformismo assustador e embrutecedor de uma cultura de censura. Porque esse é o efeito do desejo da Big Tech de censurar e erradicar os supostos preconceitos do “discurso de ódio”. Isso vai nos deixar com nada além de preconceito em relação ao politicamente correto.

NOTA DA REDAÇÃO OESTE:

Ao buscar na Amazon o livro When Harry Became Sally: Responding to the Transgender Moment, o algoritmo de recomendação indica o título Let Harry Become Sally: Responding to the Anti-Transgender Moment, de Kelly R. Novak.

Leia também “Rumo à utopix socialistx intersecionxl!”


Tim Black é colunista da Spiked.

 

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20 comentários

  1. Excelente matéria, mas tenho que discordar em um ponto. A Amazon não impede de ler o livro em questão, ela simplesmente parou de vender. Se quiser ler o livro em questão, compre em outra plataforma. Simples assim!

    1. Bom dia, Kamilla. Nem tanto. A Amazon explicitou os motivos para interrupção da venda. Trata-se de pura discordância com o conteúdo do livro. Em outros termos, censura prévia. Essa motivação é inesperada em uma empresa privada que nasce e cresce dentro de um sistema de livre iniciativa. Simples assim.

    2. Penso como a Kamilla. Antes os livros contrários ao discurso predominante não eram nem publicados. Até que surgiu uma editora que topou publicar tais obras. Quanto a venda e distribuição, pode-se encontrar inúmeras livrarias virtuais que disponibilizam obras que com certeza não são vendidas nas livrarias “de shopping”.
      Porém, quando se fala em eBooks, aí sim vejo uma barreira, uma vez que o kindle é predominante nesse mercado.

    3. Parece que você não entendeu,, apesar de todo esforço do autor de deixar isso claro, as consequências da decisão da Amazon.

  2. Duas liberdades em rota de colisão, a de mercado e a de expressão. Como conciliá-las? Impor que determinados títulos sejam vendidos pela Amazon seria uma agressão ao capital. Permitir que o capital exerça curadoria de conteúdo cultural seria um insulto ao direito de livre pensamento. Acredito que a era digital facilite as coisas na medida que reduz custos de produção e distribuição.

  3. Essa prática não é só da Amazon. Livrarias tupiniquins escondem os livros que acham “inconvenientes”. Procure o Fiuza na Travessa.

  4. Por isso Amazon nunca mais! Voltei a comprar livro de papel em outras livrarias, inclusive na livraria do Olavo. Mas na Amazon não compro mais! Eu ajudei a criar um monstro! Não vou alimentá-lo! Amazon não vê mais 1 real do meu dinheiro!

  5. A saída é essa que a Cibele disse acima: buscar e apoiar outras livrarias. Essas censuras abrem oportunidades de mercado, pois o público existe.

  6. Aliás, sobre a opção da Cibele, tenho adotado essa prática, na medida do possível, em outras marcas também. Exemplo: Magalu apoia o Lula, então compro nas Casas Bahia e outras. Americanas financia o BBB, deixo ela prá lá. Tendo opções, vou nelas.

  7. Muito preocupante a forma de atuação das Big Techs. Por hora, a saída é evitar essas empresas o quanto possível. Mas a questão do monopólio é algo q precisa ser visto. Por exemplo, o Facebook deveria ser obrigado a se desfazer do Instagram e Whatsapp. Quanto menor a concentração, menor o cerceamento de ideias.

  8. O autor está chamando atenção para os efeitos nefastos do monopólio. Não está simplesmente falando da censura da amazon, mas do que isso representa na realidade.
    Claro que se um livro não for aceito na detentora de 2/3 do mercado dificilmente, sequer, será publicado. E isso se desdobra em uma série de acontecimentos em cadeia culminando no monopólio da própria cultura e ditando comportamentos.
    Isso é muito sério.

  9. Será que já existe esse livro em português? Já fiquei interessada na leitura… Deixei de comprar na Amazon. Por gosto pessoal, prefiro ler livros impressos. Atualmente, compro na Cedet, pela internet, onde os meus youtubers preferidos tem livraria. Eles têm um ótimo atendimento. Essa propaganda foi totalmente gratuita rsrs

  10. vocês precisam corrigir o começo do terceiro parágrafo. A Amazon se explicou sobre o ocorrido e simplesmente assumiu que foi proposital

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