Gangues do Amazonas

Denúncias de corrupção, respiradores comprados em adega de vinhos, políticos presos. Por que tudo acontece no Amazonas?

No fim de junho, quando a CPI da Covid pressionava pela prorrogação do seu funcionamento por mais três meses, o tal G7, grupo majoritário que dá as cartas na comissão, resolveu tomar uma decisão: um dos seus integrantes deveria ser cancelado. Era o amazonense Eduardo Braga (MDB). O motivo: seu conterrâneo Omar Aziz (PSD), que preside a CPI, não confiava nele — e ambos sabem muito sobre o que fizeram no passado. Imediatamente, o comissariado criou um novo grupo no WhatsApp para se comunicar reservadamente batizado de G6. Começava ali uma confusão que tem tudo para não acabar bem. Oeste vai contar quem são os personagens da política amazonense.

A briga regional se tornou pública em 29 de junho durante uma sessão da CPI convocada para ouvir o deputado estadual Fausto Junior (MDB), que foi relator de uma comissão similar na Assembleia Legislativa do Amazonas. Visivelmente irritado, Aziz acusou o deputado de ter protegido o governador Wilson Lima (PSC), contra quem a Polícia Federal chegou a expedir um mandado de prisão por desvios de recursos no combate à pandemia — o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o pedido. O deputado reagiu e citou uma denúncia que marcou o governo e até hoje persegue Aziz: “Vossa Excelência e sua família são acusados de desviar R$ 260 milhões da Saúde. Por isso está me atacando. Fale a verdade, senador, o senhor não tem moral para falar”.

A partir daí, a coisa só piorou. Aziz resolveu acusar a mãe do deputado, que é servidora do Tribunal de Contas do Estado. Mostrou fotos de dois terrenos da família em condomínios que, segundo ele, foram adquiridos de maneira não republicana — leia-se: a mãe do parlamentar poderia ser laranja do governador Wilson Lima.

— O senador está acostumado a atacar mulheres. Minha mãe não está aqui!

— Só estou querendo provar por que Fausto Junior não indiciou o governador.

— O fato de minha mãe ter terreno não quer dizer que ela teve algum benefício. O senhor está expondo coisas pessoais.

É justamente esse o ponto que tomou conta dos bastidores da CPI: “coisas pessoais”. Na noite do mesmo dia, Aziz apresentou 41 requerimentos de convocações e quebras de sigilo envolvendo seus adversários no Estado. Incomodado com a escalada amazônica, entrou em cena o também integrante da comissão e ex-governador Eduardo Braga — de quem Aziz, aliás, foi vice e herdou o governo em 2010. “Precisamos conhecer o mérito e a fundamentação de 41 requerimentos que foram adicionados à pauta”, disse, acusando o conterrâneo de usar a CPI para conseguir informações sigilosas de rivais locais. Houve troca de farpas nos microfones e alguns assessores cochicharam ao pé do ouvido lembrando o básico: se o tiroteio enveredasse por ali, não restaria nenhum dos dois em pé. Os requerimentos voltaram para a cartucheira e não se falou mais nisso.

Apesar de ser citado frequentemente por supostos desvios na área da saúde e por pagamentos de indenizações suspeitos, são outros dois casos que tiram Aziz do eixo. O primeiro é a lembrança da prisão de sua mulher e de seus três irmãos — Murad, Amim e Mansour. Há dois anos, a Polícia Federal revirou sua casa e levou Nejmi Aziz presa. Trata-se daqueles esquemas de corrupção com indícios de entrega de dinheiro vivo. As operações foram batizadas de Maus Caminhos e Vertex — nessa última, o nome do senador é citado 256 vezes no relatório. Quando renunciou ao mandato, em 2014, para disputar o Senado, seu sucessor, José Melo, também foi preso e só retirou a tornozeleira eletrônica recentemente.

Outro fantasma na vida pública de Aziz foi a acusação de prática de pedofilia. Em 2005, quando era vice de Braga, seu nome foi incluído no parecer da então relatora da CPI da exploração infantil, a ex-senadora Patrícia Saboya (CE), mas na última hora foi retirado por um voto — do ex-senador Ney Suassuna (PB). Saboya chegou a afirmar em entrevista que “houve enorme pressão da bancada do Amazonas” e que ocorreram “situações constrangedoras” no Congresso.

Já Eduardo Braga teve pesadelos quando a Lava Jato bateu à porta do seu gabinete. Um executivo da Odebrecht afirmou que ele recebeu propina na construção da ponte do Rio Negro. Também foi citado em outra investigação de repasse de R$ 40 milhões da JBS para políticos do MDB. Os casos, contudo, pouco avançaram ao longo dos anos no Supremo Tribunal Federal (STF).

Turma do fundão

Quando a CPI da Covid entrou em férias na semana passada, a manchete que inundou a imprensa foi a aprovação de um fundão eleitoral de quase R$ 6 bilhões num daqueles “jabutis”, segundo o jargão do Congresso Nacional, incluído na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). O presidente Jair Bolsonaro acusou o deputado amazonense Marcelo Ramos (PL) de patrocinar a votação, já que ele comandava a sessão.

“O deputado responsável por aprovar isso aí é o Marcelo Ramos, lá do Amazonas, viu presidente [refere-se a Arthur Lira]? Ele é que fez isso tudo. Se tivesse destacado, talvez o resultado tivesse sido diferente”, disse.

Em resposta, Ramos solicitou à direção da Câmara cópias dos processos de impeachment protocolados contra Bolsonaro, o que alvoroçou a esquerda, com quem mantém laços históricos: foi dirigente da União da Juventude Socialista, militou no PCdoB e trabalhou no ministério de Orlando Silva durante o governo Lula.

“Se depender do Bolsonaro, ele não é responsável por nenhuma das mais de 530 mil pessoas mortas na pandemia”, afirmou.

Sempre em Manaus

Não bastasse essa enorme lista de absurdos envolvendo os principais políticos do Amazonas, o Estado ainda apareceu no noticiário político-policial durante a pandemia por crimes envolvendo a compra de respiradores sem licitação e com sobrepreço de 300% — R$ 3 milhões foram parar numa loja de vinhos. Pior: os aparelhos eram inadequados para o tratamento de pacientes com covid porque não são aptos para a ventilação em UTIs, mas sim para socorro ou deslocamentos rápidos dentro de hospitais.

No próximo ano, 2,5 milhões de pessoas poderão votar no Amazonas — quase dois terços na capital. Talvez seja hora — já passou da hora — de se libertar dessa gangue.

Em tempo: os advogados de todos os políticos citados na reportagem negam as acusações.

Leia também “O triunfo dos bandidos”

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26 comentários

  1. Vê-se que o congresso é pobre em atores isentos e honestos, ao ponto de criar uma CPI e entregar sua direção a indivíduos corruptos e sem nenhuma credibilidade, de comportamentos inadequados e sem caráter. Serve apenas para expor a podridão dos seus atos pretéritos.

  2. Ver se o povo amazonense, como o resto dos eleitores brasileiros, aprendem à ser mais criteriosos no dia da eleição e votem com responsabilidade.

    1. Na teoria, talvez.
      Duvido que o povo votou e elegeu uma figura tão nojenta e repugnante como Omar Aziz. Eis que entra a necessidade do voto eletrônico auditável e o combate às fraudes.

    2. Como no Nordeste, a população do Norte em sua grande maioria é pobre muitos abaixo da linha da pobreza. Nessas regiões esses pseudos políticos perpertuao-se na continuidade desse bolsão, sem nenhuma responsabilidade , de quaisquer maneiras, pois sabem da sua eleição depende, somente, do seu aspecto financeiro.
      É triste mais verdadeiro.
      Sinto pelos meus netos.

  3. A Zona Franca de Manaus deveria ser extinta o mais rápido possível, seria uma bela forma de dar um recado aos coronéis e usurpadores Amazonenses.
    A verdade é que nosso sistema pseudo-federalista centralizador não funciona, é uma falácia, e apenas mais autonomia nos estados e menos Brasília pode mudar isso.

  4. Será que o eleitor vai continuar o tempo todo votando nesses maus políticos por causa de dinheiro? Se continuar assim, o país nunca mais sairá desse lamaçal. Por isso que o fundão tem que ser vetado, pois com o advento da internet não há necessidade de recursos para campanha eleitoral. Qual a necessidade de campanha eleitoral? Tudo que é prometido não é cumprido depois. Então povão, enquanto não aprender escolher quem vai governar estaremos fadados a deparar com essas mazelas, tipo as que ocorreram e estão ocorrendo no Estado do Amazonas.

  5. Precisamos urgente de uma REFORMA POLÍTICA com voto distrital, candidaturas independentes e rever a proporcionalidade dos votos. Como ex o AM não teria 3 senadores.

  6. Olha, Silvio Navarro, parece-me que existem outras gangues por aí. Em Brasília, Rio de Janeiro. Que tal uma reportagem sobre as outras também. Esta que você apresenta é correta, mas fale sobre as outras na próxima edição: empresas privadas com interesses no Governo doando automóvel e bancando empresa criada em Brasília( sabe para quem? Sabe, não é?). Mansões compradas com financiamentos duvidosos de Banco estatal e com rendas da fantástica Loja de Chocolates. Dezenas e dezenas de parentes, cunhadas, ex-cunhados , ex-esposas contatados por parlamentares e devolvendo seus salários a eles (rachadinhas?). Vereadores do Rio fazendo expediente em Brasília , mas ganhando salários normalmente no Rio e comprando apartamento com pagamento à vista e colocando em nome da mamãe. Irmão de grande figura do Governo (sabe quem é?) fazendo tráfico de influencia para abrir portas para prefeitos e políticos de sua região ganhando verbas altíssimas do “orçamento paralelo” e por aí vai. Que tal?

  7. Temos que partir de um princípio!
    Prá que tem nos servido, por exemplo, um STF?
    E dentro dele um TSE?
    VOTO AUDITAVEL JÁ.
    Chega de incriminar nós eleitores com a pecha de que não sabemos votar!!!
    Está tudo tão claro, a ponto de me horrorizar por ser tão manipulado e mal tratado por quem pago para produzir bem estar a todos nós!
    VOTO AUDITAVEL à partir de 01/08, agora à força, pois o desejo popular não pode se submeter ao escrutínio de representantes empossados pelo TSE, sem o mínimo de credibilidade e competência.
    Quem pode nos socorrer além de nossa união, independentemente de partidos políticos e ideologias?

  8. Sílvio: está esquecido o que aconteceu no Amazonas na época do Deputado a apresentador de televisão Wallace Souza, que morreu em 2010, e que denunciou pedofilia e exploração sexual de crianças e adolescentes, que teria sido reiteradamente praticada pelo então prefeito de Coari, Adail Pinheiro (que consta ser beeem próximo de Omar Aziz e Eduardo Braga)? Alguma correlação com tudo o que vem ocorrendo naquele Estado? Eleitores do Amazonas: vocês são responsáveis pelo descalabro, por elegerem e reelegerem, reiteradamente essas quadrilhas.

  9. O voto auditável se faz cada vez mais necessário para provar que o povo sempre foi enganado. Cada vez mais acredito na existência de fraudes eleitorais. O povo brasileiro em sua grande maioria não são mal caráter para eleger esses cidadãos criminosos.

  10. Será que já estamos acostumados a aceitar a corrupção praticada pela classe política e vamos nos tornar definitivamente em um país sem lei, sem justiça, sem ética ou moral onde o dinheiro pago pelos contribuintes vai servir somente para sustentar vagabundos que se candidatam como salvadores da pátria e, continuar votando nesse tipo de gente? Enquanto houver impunidade e tornozeleira eletrônica vai chover salvadores da pátria nos municípios, Estados e União. Onde não há Justiça não haverá Nação!

  11. Vejam como Estados sem expressão econômica impõe aos brasileiros este circo dos horrores.
    A proporcionalidade de Senadores e Deputados Federais é um absurdo sobre o ponto de vista econômico.

  12. Bela reportagem, Silvio. Mas o problema é que, a curto prazo, não vejo possibilidade de uma grande renovação no meu estado. Tem alguns nomes surgindo, mas os “caciques” ainda são fortes. Tanto é que o ex-prefeito de Coari, Adail Pinheiro, também acusado de envolvimento com pedofilia (saiu até reportagem no Fantástico a respeito), conseguiu eleger o filho como prefeito da cidade e a filha como deputada estadual.
    Mas só pra constar, praticamente todas as pragas que afetam a política do Amazonas vem de outros estados. Omar Aziz é natural de São Paulo. Eduardo Braga, do Pará. Vanessa Grazziotin de Santa Catarina e Alfredo Nascimento do Rio Grande do Norte. Isso ajuda a entender.

  13. Manauaras e amazonenses, comecem a ler a revista Oeste urgentemente e livrem-se da ignorância e paranóia. Vocês podem começar a mudar o Brasil quando mudarem seu estado.

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