Foto: Montagem Revista Oeste/Shutterstock
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A patrulha das ideias tomou conta das universidades

Uma das disciplinas exige que os estudantes concordem em reconhecer que sua culpa pessoal é um ponto de partida útil para superar preconceitos inconscientes

As universidades costumavam reconhecer que sua missão era ensinar os estudantes a pensar, em vez de instruí-los sobre o que pensar. Hoje em dia, elas parecem ter esquecido essa distinção. Na verdade, as universidades parecem considerar que seu papel é doutrinar os alunos com ideias de culpa branca ou privilégio branco. Em vez de chamar isso de ensino superior, vamos pensar em reeducação superior.

Em muitos casos, os novos estudantes universitários têm pouca escolha além de participar dos chamados treinamentos, que tentam modificar seus comportamentos supostamente maus. Na Universidade de Kent, por exemplo, o corpo discente teve de fazer um “curso de diversidade”, que argumenta que usar roupas de segunda mão e falar palavrões podem ser exemplos de “privilégio branco”. A disseminação de ideias tão frívolas está aliada ao projeto de fazer os estudantes se sentirem culpados por ser brancos.

Um dos exemplos mais insidiosos desse tipo de reforma das ideias pode ser encontrado na Universidade de St. Andrews, que não permite que os estudantes se matriculem se não “passarem” em diversos módulos compulsórios sobre sustentabilidade, diversidade e consentimento — nos quais eles precisam “concordar” com certas afirmações.

Um módulo exige que os estudantes concordem em “reconhecer” que sua “culpa pessoal é um ponto de partida útil para superar preconceitos inconscientes”. Aqueles que não concordam recebem uma nota baixa. Se um estudante dá muitas respostas erradas, ele ou ela são reprovados no módulo e precisam refazê-lo.

Estudantes sem dúvida aprendem bem rápido que os treinadores que oferecem esses cursos não estão preparados para lidar com visões dissidentes, então inevitavelmente acabam se censurando. Afinal, esses cursos são elaborados para impor um conjunto de valores que não pode ser questionado.

O elemento de coerção nesses cursos obrigatórios viola o princípio da liberdade acadêmica. A imposição de uma ideologia oficial pode ser aceitável em um seminário católico ou uma madraça islâmica. Mas, se uma instituição de ensino não permite que seus estudantes tirem suas próprias conclusões sobre questões controversas, ela não pode, de boa-fé, se considerar uma universidade livre.

Esses cursos efetivamente funcionam como um instrumento de patrulhamento de ideias. Ao se referir a eles como cursos de treinamento, a administração tenta criar a impressão de que está oferecendo aos alunos fatos e conhecimento objetivo. Mas não está. Boa parte do que é promovido sobre questões de gênero, raça e assim por diante ainda está sendo fortemente debatida. Esses cursos não são educativos — eles estão tentando forçar os estudantes a se submeter a uma determinada política da casa.

Muitos desses módulos existem há mais de uma década. Mas, se antes costumavam ser voluntários, agora são tratados como obrigatórios.

O objetivo é livrar os jovens de perspectivas e atitudes “antiquadas” das comunidades em que cresceram

Alguns anos atrás, fiquei horrorizado ao descobrir que instituições de ensino superior estavam forçando seus novos estudantes a fazer “aulas de consentimento”. Em 2019, a Universities UK, o órgão que representa essas instituições, relatou que algumas universidades estavam obrigando os jovens a fazer aulas de consentimento on-line antes mesmo de se matricularem em seus cursos. As universidades deixaram claro que, se os alunos não cumprissem esse requisito, suas inscrições seriam canceladas.

Programas de integração costumam se concentrar em questões práticas, como usar a biblioteca e os laboratórios. Não é mais esse o caso. Hoje esses programas têm como objetivo doutrinar os estudantes, fornecendo a eles a visão de mundo oficial e aprovada pelos especialistas.

A prática da reforma das ideias e da reeducação foi historicamente usada pelo Partido Comunista Chinês para livrar a sociedade de sentimentos reacionários e arcaicos. Um impulso semelhante motiva os defensores do “treinamento” obrigatório nos campi hoje em dia. O objetivo é livrar os jovens de perspectivas e atitudes “antiquadas” das comunidades em que cresceram.

Claro, essa reforma das ideias nas universidades britânicas prefere maneiras sutis de coerção, em vez do terror e da força violenta da Revolução Cultural. Portanto, ela pode ser combatida e desafiada sem colocar a vida de ninguém em risco ou enfrentar uma reação violenta. O perigo, no entanto, é que a reforma das ideias nos campi de hoje se torne mais coercitiva no futuro. O momento de confrontar e expor esse projeto insidioso é agora, antes que seja tarde demais.


Frank Furedi é professor emérito de Sociologia na Universidade de Kent, na Inglaterra.
100 Years of Identity Crisis: Culture War Over Socialisation, o mais recente livro de Frank Furedi, foi publicado pela De Gruyter, em 2021

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