Nikolas Ferreira, Douglas Garcia e Carmelo Neto | Foto: Montagem com imagens Shutterstock/Divulgação
Nikolas Ferreira, Douglas Garcia e Carmelo Neto | Foto: Montagem com imagens Shutterstock/Divulgação

Saída pela direita

Quem são os jovens que resistiram à lavagem cerebral das universidades e embarcaram na política contra a corrente de esquerda no país

No último parágrafo do seu ótimo livro Brainwashed: How Universities Indoctrinate America’s Youth (“Lavagem Cerebral — Como as Universidades Doutrinam a Juventude”), o advogado e radialista conservador americano Ben Shapiro afirma que a verdadeira marca da educação é aprender como pensar. “Engolir tudo o que o professor diz não ensina a pensar — mas ensina a pensar o que o professor quer que o aluno pense”, afirma. “Trata-se de pura e simples doutrinação.”

Não é preciso passar muitas horas numa sala de aula da maioria dos cursos no Brasil para concluir que a descrição do autor pode ser perfeitamente aplicada por aqui. Também ajuda a explicar por que é raro encontrar jovens que empunham bandeiras do liberalismo ou se declaram abertamente conservadores e nacionalistas sem medo do cancelamento — para usar o termo torpe da moda. A reportagem de Oeste narra a trajetória de alguns deles, que conseguiram sobressair e acabaram eleitos depois da chegada de Jair Bolsonaro à Presidência da República.

Nikolas Ferreira: “A universidade deixou de ser campo para estudantes para ser formadora de ativistas”

Aos 25 anos, o vereador mineiro Nikolas Ferreira (PRTB) é um fenômeno nas redes sociais. Foram os vídeos de enfrentamento in loco com militantes de esquerda (veja abaixo) que lhe renderam projeção. Alguns deles ultrapassaram 1 milhão de visualizações. As imagens começaram a circular nas redes durante a campanha nas ruas pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. Mas a briga é mais antiga: começou no curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Minas). “A universidade deixou de ser campo para estudantes para ser formadora de ativistas”, disse. “Sou formado dentro de uma universidade católica onde há um movimento majoritário contra a própria Igreja e o conservadorismo.”

Tão logo deixou a faculdade, Nikolas foi eleito o segundo vereador mais votado da história para a Câmara Municipal de Belo Horizonte, com 29 mil votos — e o mais jovem. Além da defesa das pautas bolsonaristas, definiu como meta do mandato a reformulação da grade curricular das escolas municipais, com aulas de educação financeira e empreendedorismo. O ingresso na Câmara Municipal provocou problemas recentemente. Nascido na favela Cabana do Pai Tomás, viu a igreja onde o pai é pastor ser ameaçada, porque o proprietário do imóvel tem alinhamento político com a esquerda.

Há dez dias, ele enfrentou militantes que foram ao Aeroporto de Confins protestar contra o desembarque do presidente em solo mineiro. Também causou polêmica ao tentar entrar com amigos no Trem do Corcovado, no Rio de Janeiro, sem um comprovante de vacinação da covid-19.

Douglas Garcia: negro, de origem pobre, gay e de direita

O Estado de São Paulo também tem um representante da nova safra da direita no país. Em 2018, Douglas Garcia, agora no PTB de Roberto Jefferson, foi eleito aos 25 anos para uma cadeira na Assembleia Legislativa. Mal chegou e enfrentou uma chuva de representações no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. A principal confusão foi quando afirmou durante votação na Casa:

“Se por acaso dentro do banheiro feminino em que a minha irmã ou a minha mãe estiverem utilizando um homem que se sente mulher entrar, não estou nem aí, eu vou tirar primeiro no tapa e depois chamo a polícia.”

A Associação de Travestis e Transexuais processou o deputado por “discurso de ódio” e pediu indenização de R$ 100 mil. O Tribunal de Justiça de São Paulo, contudo, negou a ação por entender que, na tribuna, Douglas detém imunidade parlamentar. “A manifestação do apelado, qualificada como transfóbica e reveladora de discurso de ódio pela associação recorrente, na verdade, está acobertada pela imunidade parlamentar, prevista no Artigo 53 da Constituição Federal, aplicável, segundo o Artigo 27, §1º, do mesmo diploma legal, aos deputados estaduais”, diz o acórdão do tribunal.

O barulho foi grande porque o Psol tem uma representante trans: Erica Malunguinho. O partido tentou, sem sucesso, cassar o mandato de Douglas. Foi aí que o jovem representante do PTB deu uma cartada que nem a associação de travestis nem o Psol imaginavam. Douglas afirmou publicamente ser homossexual. A informação deixou a militância em parafuso — afinal, como pode um gay, negro, de origem pobre (é filho de uma diarista e um motorista) ser de direita e ainda apoiar Jair Bolsonaro?

Pouco antes do anúncio público, a colega Janaina Paschoal (PSL) tomou a frente para dizer que Douglas estava abalado. Sofreu com a pressão de pessoas com quem tinha se relacionado, que ameaçavam revelar sua opção sexual nas redes sociais — não assumida aos pais. “Ele tomou uma decisão, e como está um pouco abalado, pediu para eu fazer essa comunicação por ele. Porque hoje, depois de 25 anos, ele conseguiu conversar com os pais e dizer que é homossexual”, disse Janaina.

Em seguida, o deputado foi ao microfone. “Não diminui em nada as bandeiras que eu venho defendendo aqui na Assembleia Legislativa contra a ideologia de gênero.” Depois, em entrevista na época, reafirmou: “Queriam me colocar como se eu fosse um gay enrustido que até então estava se segurando e, por isso, saía xingando todo mundo. Não tem nada a ver. Continuo sendo radicalmente contra o movimento LGBT, mas agora com mais credibilidade ainda”.

Já no terceiro ano de mandato, Douglas diz que “caiu na Assembleia paulista por acaso”, depois de participar de passeatas pela saída de Dilma Rousseff. Na época, preparava-se para “brigar por espaço na universidade” contra o cerceamento de liberdade no país pela esquerda e em defesa do Movimento Escola Sem Partido. “No começo, achei que seria cassado”, afirmou. “Tive de adaptar meu perfil de ativista para ser político, até pelos processos no Conselho de Ética.”

Carmelo Neto: “Não vou trair quem votou em mim”

Assim como Nikolas e Douglas, o cearense Carmelo Neto (Republicanos), de apenas 20 anos recém-completados, é outro que remou contra a maré. Eleito vereador em Fortaleza (CE), possui registros fotográficos nas passeatas contra Dilma Rousseff numa idade em que a turma do colégio não demonstrava tanto entusiasmo pela política. Aos 16 anos ganhou fãs por ter chamado Ciro Gomes (PDT) de “cangaceiro” nas redes sociais — a popularidade dobrou quando o ex-ministro o processou pela fala. Na onda do “Fora Dilma”, Carmelo ingressou no Movimento Brasil Livre (MBL), mas acabou rompendo com o grupo de Kim Kataguiri (hoje deputado do DEM) e companhia anos depois.

Num país em que todos os sindicatos de professores são de esquerda, é difícil imaginar uma sala de aula diferente

Quando disputou a cadeira na Câmara Municipal, já era um bolsonarista ferrenho. Hoje, é conselheiro para assuntos da juventude do presidente. “Não vou trair quem votou em mim. A essência do nordestino é conservadora, é um povo que preza pelo respeito, mas que foi enganado durante anos pela esquerda”, afirmou. Também é estudante de Direito e diz que a predominância da ideologia de esquerda pôde ser notada até nas aulas virtuais durante a pandemia. “A faculdade está aparelhada, todo o corpo técnico. Estamos vivendo o que a esquerda plantou há muitos anos.”

A juventude “cara pintada” envelheceu mal

Num país em que todos os sindicatos de professores são de esquerda (a maioria filiada à CUT, braço do PT nas escolas), é difícil imaginar uma sala de aula diferente a curto prazo. Mais árdua ainda é a jornada de quem enfrenta essa briga. Vide o calvário que ministros e secretários enfrentam (e enfrentarão) depois dos governos do PT para tentar desaparelhar verticalmente a máquina pública. E isso tudo dificulta, inclusive, a organização desses jovens avessos à patrulha na academia.

A juventude dos “caras pintadas” contra o governo Fernando Collor, em 1992, legitimada pela imprensa tradicional, com amplo respaldo da esquerda, chegou ao poder com Lula. Mas envelheceu mal. Depois deles, o registro recente de agitação foi a quebradeira dos black bloc.

Uma nota no livro de Ben Shapiro cita um comentário publicado no Wall Street Journal, em 2002, por Robert M. Berdahl, reitor da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Tratava-se de um debate sobre falhas na supervisão de um curso que desencorajava a inscrição de alunos conservadores. Alguns trechos permanecem atuais. “As universidades não devem evitar a apresentação de material controverso. Ao mesmo tempo, é imperativo que nossas salas de aula sejam livres de doutrinação. Doutrinação não é educação.”

São raros os que escaparam dos livros e professores errados. Mais raro ainda foram os que encontraram espaço no debate político. Resta saber quantos serão. E a que tempo.

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