Obra <i>Everyday: the First 5000 Days</i>, 2021, Beeple | Foto: Divulgação
Obra Everyday: the First 5000 Days, 2021, Beeple | Foto: Divulgação

O admirável mundo novo das artes

Os NFTs estão revolucionando o mercado artístico no mundo com volumes de negociações que podem chegar a US$ 69 milhões

Até março de 2020, o artista Mike Winkelmann era um pacato ilustrador de 40 anos, conhecido pelo pseudônimo Beeple, que morava no Estado americano de Wisconsin. As obras de Beeple eram postadas num ritmo veloz, quase diário, desde 2007, apenas no meio digital — e vendidas por valores que chegavam a, no máximo, US$ 100. O mosaico de milhares de imagens publicadas por Beeple nesses 13 anos e meio virou a coleção Everydays: the First 500 Days e, desde que foi vendida num leilão da tradicionalíssima Christie’s, pode-se dizer que o mundo das artes nunca mais foi o mesmo.

Em 11 de março de 2020, Beeple se transformou em um artista gigante da nova era digital que se instalou no mundo das artes. Sua coleção foi vendida por US$ 69 milhões (cerca de R$ 380 milhões), transformando-se na obra digital mais valorizada até hoje e a terceira mais cara de qualquer artista vivo. Nesta última semana, mais um recorde foi batido por Beeple: Human One, obra que mistura arte física com digital de um astronauta em movimento, foi arrematada por US$ 28,9 milhões (R$ 160 milhões). Beeple vendeu, assim, o segundo NFT mais caro de todos os tempos. O ilustrador com óculos fundo de garrafa e muito mais jeitão de nerd do Vale do Silício do que personalidade do mundo artístico ganhou cerca de US$ 98 milhões em 2021. 

O ilustrador Mike Winkelmann, conhecido como Beeple, e algumas de suas obras ao fundo | Foto: Montagem Revista Oeste/Divulgação

Os lances incendiários na Christie’s foram uma revolução no mercado global das artes. Os valores milionários levantados mostraram a escala com que ativos digitais estão introduzindo uma maneira totalmente nova de fazer, vender, distribuir e consumir obras de arte no mundo. Em outras palavras, a arte digital — gênero inicialmente visto como menor e passageiro por artistas do primeiro escalão, colecionadores e marchands — mexeu com essa poderosa e milionária indústria. A plataforma de negociação digitais OpenSea, uma das maiores do mundo, registrou de janeiro até agosto de 2021 mais de US$ 4 bilhões nas vendas anuais de NFTs. E não basta apenas termos um mundo novo no setor. A disrupção é completa e envolve a maneira de compra e venda: 90% das plataformas que comercializam obras digitais utilizam a criptomoeda Ethereum. A negociação inclusive pode virar uma forma de investimento polpudo, se acontecer de a obra e a Ethereum valorizarem, simultaneamente, na hora da venda. Novos tempos.

O maior caso nacional é da brasileira Monica Rizzolli, que arrecadou o equivalente a R$ 28,4 milhões com sua obra

O crescimento do negócio altera uma experiência apaixonante que faz parte da vida de milhões de pessoas, especialmente turistas brasileiros em solos estrangeiros: a apreciação da arte. A estupenda e histórica exposição de Leonardo da Vinci no Museu do Louvre, em Paris, exibida até fevereiro de 2020, bateu recorde de maior número de público na história do museu, ao somar 1,08 milhão de visitantes em quatro meses — derrubando do topo do ranking a retrospectiva do francês Delacroix, em 2018, com 540.000 pessoas. Quadros e esculturas continuarão a fascinar homens e mulheres nas paredes e nos espaços dos museus pelo planeta. Mas agora entram em ação os certificados digitais de obras virtuais. Da mesma forma que o mundo mudou a maneira de se relacionar, trabalhar e se entreter através da internet, a arte passa — talvez até com atraso — por uma transformação em seu meio. 

Obra Human One, de Beeple. NFT mais caro de todos os tempos | Foto: Reprodução/Christie’s

Mas, afinal, o que é um NFT e como ele pode ser apreciado? Os novos donos das obras digitais — como o ex-sócio da Polychain Capital Ryan Zurrer, que levou essa semana o Human One por US$ 28,9 milhões — não só adquirem um certificado digital para seus wallets no celular ou computador. A obra vira um ativo para o colecionador e pode ser deixada na carteira digital para ser apreciada quando e onde quiser ou ser vista como um quadro normal, acessada através de uma televisão de última geração. Com televisores 8K ou 10K, um colecionador pode colocar uma pintura digital na parede de sua sala de jantar e ser facilmente confundida com uma tela física. Com duas décadas no mercado financeiro e passagens na liderança do Banco Votorantim e Credit Suisse, o economista carioca Fabio Szwarcwald, atual diretor-executivo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, é quem melhor traduz as utilidades de um NFT. “Na minha casa, posso ter uma escultura, uma tela exibindo uma videoarte, uma tela física e outra televisão de 1 metro e meio 8K exibindo um NFT”, diz Szwarcwald, dono de uma coleção de 400 obras de arte.

O Brasil não ficou para trás desde que Beeple atingiu a maioridade na indústria. O maior caso nacional é da artista e programadora brasileira Monica Rizzolli, que arrecadou o equivalente a R$ 28,4 milhões em um leilão de NFTs, realizado por meio da plataforma Art Blocks, em setembro. Sua coleção Fragmentos de um Campo Infinito possui 1.024 peças e é interativa: as peças mudam de acordo com a estação do ano, como chuva no verão, neve no inverno, pétalas caindo no outono e pólen na primavera. O preço inicial de cada peça era de 10 ether, algo em torno de R$ 174 mil. Em menos de uma hora, todas as peças foram leiloadas. Para efeitos de comparação, uma obra física do britânico Damien Hirst, artista mais rico do mundo, gira em torno de US$ 10 milhões a US$ 20 milhões. No Brasil, a carioca Adriana Varejão tem obras físicas sendo vendidas entre US$ 500 mil a US$ 3 milhões, e a também carioca Beatriz Milhazes tem obras na casa dos US$ 800 mil a US$ 2 milhões em galerias de arte. 

Obra de Monica Rizzolli, da A coleção “Fragments of an Infinite Field” | Foto: Reprodução

Para o lado do artista, vender NFT tem vantagens financeiras: com o smart contract, o profissional acompanha cada passo do seu trabalho — e recebe em cada etapa. A tecnologia permite ganhar a cada revenda. Até então, os artistas recebiam o valor da primeira venda, mas não participavam das revendas, que podem se multiplicar por milhões de dólares. O dinheiro, nesse caso, ia para o vendedor, e não para o artista. Para os artistas e os colecionadores, há uma vantagem adicional: o fim dos trâmites e dos custos de logística e conservação de uma obra de arte, como embalagem, alfândega, armazenamento, viagem, seguro e restauro. 

Os quase US$ 70 milhões de Beeple apenas em uma coleção digital levantaram o rumor de que este é um mercado que pode estourar a qualquer momento — ou seja, pessoas superestimam o que existe, uma bolha é formada e irrompida logo depois. Especialistas ouvidos por Oeste, no entanto, divergem de que estamos prestes a ver uma bolha. Falam que os NFTs nas artes são sustentáveis e vieram para ficar. “Três ou quatro colecionadores podem inflar o preço de um artista, mas os NFTs não são uma bolha, porque há muita demanda por eles”, diz Fabio Szwarcwald. “A nova geração quer colecionar os NFTs. Ela entende o NFT como forma de colecionismo.” O admirável mundo novo já está aí. 

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