Pessoas celebrando o fim da Guerra Fria, 10 de novembro, 1989 | Foto: Shutterstock
Pessoas celebrando o fim da Guerra Fria, 10 de novembro, 1989 | Foto: Shutterstock

As lições do Muro de Berlim

A razão pela qual a Europa e a América estão se separando cultural e filosoficamente é a própria União Europeia, que de livre não tem nada

No último 9 de novembro, celebramos os 32 anos da queda do Muro de Berlim. Foram 28 anos de histórias inspiradoras e devastadoras de pessoas tentando atravessar a fronteira entre o capitalismo e o socialismo, entre liberdade e encarceramento. Já passamos mais tempo sem o muro do que sua própria existência. Mesmo assim, o fantasma do mal que o ergueu sempre ronda a história contemporânea com uma nova roupagem, e as lições de sua presença permanecem.

Nesta semana, em virtude da importante data para amantes da história, postei algumas fotos sem legenda da queda do muro, em 1989, em meu Instagram. Apenas imagens. Para minha enorme surpresa, confesso, não esperava a quantidade de mensagens de jovens que não faziam a menor ideia do que eram aquelas imagens. O que está acontecendo? Não estamos ensinando mais nossos alunos sobre o nefasto período da Guerra Fria? Quem, em sã consciência, não mostraria os terríveis detalhes de uma ideologia que mente, segrega, maltrata e mata pessoas? Diante do que vi em uma pequena amostra nas minhas redes sociais, não custa revisitarmos a história, na esperança de que possamos dar uma pequena contribuição a alguns jovens para que, de alguma maneira, comecem a traçar o quebra-cabeça de que quem compreende o passado protege o futuro.

Depois da derrota da Alemanha na Segunda Guerra Mundial, o país foi dividido em quatro zonas de ocupação, e Berlim também foi dividida em território leste e oeste. Os Estados Unidos, a França e Grã-Bretanha ficaram com a Alemanha Ocidental e com os setores ocidentais de Berlim. A zona soviética ficou entre a Alemanha Oriental e Berlim Oriental. O lado ocidental tornou-se uma democracia, enquanto o oriental era um país comunista alinhado com a União Soviética.

Foi em 13 de agosto de 1961 que o governo comunista da República Democrática Alemã (GDR ou Alemanha Oriental) começou a construir um muro de arame farpado e concreto chamado de “Antifascistischer Schutzwall”, ou “muro antifascista”, entre Berlim Oriental e Ocidental. O propósito oficial da divisão era impedir que os chamados “fascistas” ocidentais entrassem na Alemanha Oriental e minassem o Estado socialista, mas serviu principalmente ao objetivo de conter as deserções em massa do leste para o oeste.

A existência de Berlim Ocidental, uma cidade visivelmente capitalista no interior da Alemanha Oriental comunista, “ficou presa como um osso na garganta soviética”, como disse Nikita Khrushchev. Os russos começaram a manobrar para expulsar os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França da cidade para sempre. Em 1948, um bloqueio soviético a Berlim Ocidental teve como objetivo expulsar os aliados ocidentais da cidade pela fome. Em vez de recuar, entretanto, os Estados Unidos e seus aliados abasteceram seus setores da cidade pelo ar. Esse esforço, conhecido como Berlin Airlift, durou mais de um ano e entregou mais de 2,3 milhões de toneladas de alimentos, combustível e outros bens para Berlim Ocidental. Os soviéticos cancelaram o bloqueio em 1949.

Depois de uma década de relativa calma, as tensões explodiram novamente em 1958. Pelos próximos três anos, os soviéticos, encorajados pelo lançamento bem-sucedido do satélite Sputnik no ano anterior durante a Corrida Espacial e constrangidos pelo fluxo aparentemente interminável de refugiados de leste a oeste — quase 3 milhões desde o fim do bloqueio —, ameaçavam jovens trabalhadores qualificados, como médicos, professores e engenheiros, que fugiam em massa, enquanto os aliados resistiam. Cúpulas, conferências e outras negociações iam e vinham sem resolução. Enquanto isso, a inundação de refugiados continuou. Em junho de 1961, cerca de 19.000 pessoas deixaram a Alemanha Oriental através de Berlim. No mês seguinte, 30.000 fugiram. Nos primeiros 11 dias de agosto, 16.000 alemães orientais cruzaram a fronteira com Berlim Ocidental. Em 12 de agosto, cerca de 2.400 pessoas fugiram das garras soviéticas, o maior número de desertores a deixar a Alemanha Oriental em um único dia. Naquela noite, o primeiro-ministro Khrushchev deu permissão ao governo da Alemanha Oriental para interromper o fluxo de imigrantes fechando sua fronteira para sempre. Em apenas duas semanas, o Exército da Alemanha Oriental, a força policial e os trabalhadores “voluntários” da construção haviam concluído um muro improvisado de arame farpado e blocos de concreto — o Muro de Berlim — que dividia um lado da cidade do outro.

O Muro de Berlim continua sendo um dos símbolos mais poderosos da Guerra Fria

Quase 200 alemães foram mortos no muro tentando escapar da Alemanha Oriental. Personalidades importantes se manifestaram, como o presidente americano John F. Kennedy no discurso de 1963, “I am a Berliner” (Sou um Berlinense), e Ronald Reagan, no histórico evento no Portão de Brandemburgo em 1987, quando bradou a Mikhail Gorbachev que derrubasse o muro. Pessoas vieram de todo o mundo para protestar contra essa divisão, e o muro tornou-se um símbolo da democracia versus o comunismo.

Silhuetas de berlinenses ocidentais acenando para parentes no lado oriental do muro, em dezembro de 1962 | Foto: Shutterstock

O Muro de Berlim durou até 9 de novembro de 1989, quando o chefe do Partido Comunista da Alemanha Oriental anunciou que os cidadãos do leste poderiam cruzar a fronteira quando quisessem. Naquela noite, multidões em êxtase invadiram as ruas de Berlim e muitos cruzaram livremente para Berlim Ocidental. Outros trouxeram martelos e picaretas e começaram a cavar no próprio muro. Até hoje, o Muro de Berlim continua sendo um dos símbolos mais poderosos e duradouros da Guerra Fria.

A crença da civilização ocidental, agora antiquada para muitos, no certo e no errado, junto com nossa disposição em agir de acordo com ela, agora enfurece grupos que jamais sonharam em ter tanta liberdade. E essa liberdade existe exatamente pelas mãos dos “demônios” que muitos desses grupos hoje tentam proibir de questionar, debater, servir, alertar e viver sob suas regras milenares. Morando nos EUA há mais de 12 anos, percebo que os americanos têm uma desconfiança arraigada na frouxidão moral disfarçada de “sofisticação”, como descrevi em meu artigo da semana passada sobre as eleições no Estado da Virgínia. Essa herança religiosa dissidente deixou os americanos confortáveis em fazer escolhas morais claras na política, as tais escolhas “simplistas”, como diz hoje a turba do bem que adora linchamentos.

Mesmo em todo o contexto da Guerra Fria, muitos países dentro da Cortina de Ferro sobreviveram porque conseguiram manter vivas suas tradições, sua soberania conservadora de que ninguém sabe mais do seu futuro e de sua família do que aqueles que estão próximos de nós. As decisões sobre o destino de muitos, na Hungria ou no interior da Polônia, caíram nas mãos de oficiais soviéticos em Moscou. Hoje, as vertentes desse Leviatã podem ser percebidas na sanha de burocratas, na própria União Europeia ou nas Nações Unidas, que querem decidir o que nós, no interior de Minas Gerais, na Bahia ou na Virgínia, podemos fazer.

A razão mais importante pela qual a Europa continental e a América estão se separando cultural e filosoficamente é a própria União Europeia, que de livre não tem nada. Os visionários europeus têm uma longa história de sonhar e buscar implementar utopias nacionalistas ou socialistas — esquemas condenados ao fracasso que pisotearam indivíduos sob as botas pesadas do Estado, sob o preço de criar um “novo homem” e um mundo perfeito. A fraternidade assassina da Revolução Francesa, o bonapartismo do século 19, o marxismo e o comunismo modernos, o fascismo italiano, o nazismo — todos esses programas coercitivos para refazer o mundo surgiram do que parece ser um impulso continental inerradicável. Ah… a história, seus ciclos, sua eterna camuflagem e sua capacidade de sempre apresentar uma roupagem novinha em folha para abrigar a genética do mal.

Há um pedaço do Muro de Berlim na Fundação Reagan aqui na Califórnia, um lugar espetacular para quem passar por Los Angeles. De um lado do pedaço enorme de concreto trazido de Berlim há figuras coloridas, frases sobre liberdade e muitos desenhos feitos com tinta em spray de muitas cores. Do outro, apenas a frieza do concreto cinza e marcas de tiros. O pedaço do muro exposto na Reagan Library vai além de mostrar um trecho da história. Ele mostra o bem e o mal concretizados e eternizados em peso, forma e cores.

Sobre as partes que montaram o quebra-cabeça da queda do Muro de Berlim, não é difícil nos fixarmos na frase mais famosa do discurso de Ronald Reagan em Berlim: “Senhor Gorbachev, derrube este muro!”. No entanto, discursos épicos não se tornam imortais e atuais por uma frase apenas. Em tempos sombrios, medidos por reações tirânicas de governantes que, por controle social e poder, erguem divisões de todos os tipos, alimentando nas sociedades uma busca incontrolável por cancelamentos e segregações, palavras quase concretas em tenacidade precisam ser ascendidas ao único norte possível. Neste mesmo discurso de 1987, Reagan nos mostra que a soberania da verdade é incontestável, que ela atravessa o tempo e prevalecerá. “Este muro cairá, pois não pode resistir à fé, não pode resistir à verdade. Este muro não pode resistir à liberdade”, disse o 40º presidente norte-americano.

Que lembremos, principalmente diante dos dias quando o desânimo é quase palpável, que, assim como foi com um muro de concreto feito por homens malignos, será também para qualquer muro erguido entre homens de bem. Muros cairão, pois também não podem resistir à fé, e não podem resistir à verdade. Eles não podem resistir à liberdade.

Leia também “A história como liderança”

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