Câmara dos Deputados | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Câmara dos Deputados | Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Fronteira demarcada

Quando o corporativismo de deputados e senadores fala mais alto, nem o STF consegue interferir nos interesses dos parlamentares

Depois de uma longa temporada com final infeliz no PT e de curtas e turbulentas escalas no PV e no PSB, Marina Silva resolveu parir um partido para chamar de seu. O nome e a sigla — Rede Sustentabilidade, ou apenas Rede — são a cara da mãe. Mas, desde 2018, quando amargou a terceira derrota na eleição presidencial, Marina parece ter desistido de engordar o filhote. E a raquítica bancada no Congresso se transformou numa espécie de braço parlamentar do Supremo Tribunal Federal, que age em parceria com militantes de outras legendas nanicas. O Psol e o PCdoB, por exemplo, não perdem nenhuma chance de subscrever recursos apresentados ao STF a cada desgosto ocorrido ou previsto pela oposição na Câmara ou no Senado.

Há um recurso pronto para decolar rumo ao STF assim que se consuma uma derrota no Congresso da Rede e seus comparsas. Um projeto de lei, uma medida provisória, uma proposta de emenda à Constituição, qualquer pretexto serve. O presidente da República nomeou alguém que não merece o cargo? Acione-se o Supremo. A instauração de uma CPI parece lenta? Recorra-se ao Supremo. Tudo está sob a vigilância do senador Randolfe Rodrigues e seus asseclas fantasiados de Pai da Pátria: paletó azul comprido demais com botões explodindo no ventre (eles sempre se acham mais altos e menos gordos do que são), calça com a barra derramada sobre sapatos pretos de bico fino, camisa azul-piscina e gravata vermelha. Desde o início do governo Bolsonaro, esse uniforme tem sido visto com maior frequência nos arredores do STF do que no local do emprego da turma.

Foi um recurso encaminhado pela Rede, por exemplo, que animou o ministro Luís Roberto Barroso a ordenar a instauração da CPI da Covid, um palanque pilotado por Renan Calheiros que deu em nada. Mas foi também açulada pela mesma bancada que a ministra Rosa Weber tentou invadir outros territórios governados pelo Legislativo. A reação dos parlamentares mostrou que o STF pode muito, mas não pode tudo. Não pode, por exemplo, desafiar o corporativismo da Câmara com uma decisão que afetaria o patrimônio politico-eleitoral dos deputados federais. A colisão deixou claro que o Poder Moderador do tribunal só existe na cabeça do ministro Dias Toffoli. A Comissão Mista de Orçamento aprovou o relatório do deputado Hugo Leal (PSD-RJ) na segunda-feira 6, que será referendado pelo plenário do Congresso Nacional até o fim deste mês. O texto reserva mais de R$ 90 bilhões para as chamadas emendas parlamentares.

Na mesma segunda-feira, Rosa Weber desistiu da perigosa ideia de barrar a votação. Nas semanas anteriores, ela fora pressionada por partidos de oposição e pela imprensa velha. Prontos para debitá-lo na conta de Jair Bolsonaro, os redatores de manchetes esperaram com avidez o nascimento do que foi batizado de “Orçamento secreto”, ainda que todos os números sejam publicados no Diário Oficial da União. O escândalo não sobreviveu aos trabalhos de parto.

O que seria essa contabilidade criminosa? Resumo da ópera: o relator separa uma fatia do bolo que é liberada sem identificar o autor da emenda. A proposta foi previamente debatida por líderes de partidos e consultores legislativos. Avançava sem sobressaltos até que os jornais resolveram que se tratava de uma trama urdida por aliados do presidente Jair Bolsonaro no centrão — e que esse dinheiro seria usado para a compra de apoio na sucessão de 2022.

Num país como o Brasil, tudo parece roubalheira. Nem sempre é. Emenda é um pedaço do Orçamento que cada congressista decide livremente como aplicar. Quando o valor é muito alto, os parlamentares eleitos pelo mesmo Estado se juntam e apresentam uma “emenda de bancada”. Esses recursos serão usados para construir uma ponte num município de Minas Gerais, reformar uma praça no Paraná, asfaltar uma estrada municipal em Mato Grosso ou comprar equipamentos hospitalares para a Santa Casa de Murici.

“É preciso separar o que pode ser considerado imoral do que é corrupção”, afirma Alexandre Ostrowiecki, fundador do Ranking dos Políticos, que avalia o desempenho de deputados e senadores em atividade. “Embora não seja ilegal, as emendas parlamentares não deveriam existir, porque servem de ‘toma lá, dá cá’. Esse é o jogo que o Congresso sabe fazer.”

A polêmica das emendas

A polêmica da vez gira em torno das emendas do relator — as RP9, em congressês. O responsável por elas é o deputado Hugo Leal (PSD-RJ), a quem caberá monitorar a divisão de R$ 16,2 bilhões. Esse dinheiro não levará a assinatura do autor formal, mas, sim, a dele, e precisa obrigatoriamente ser usado para melhorias em saúde, saneamento básico e desenvolvimento regional.


No mês passado, Rosa Weber submeteu a análise do recurso ao plenário, que acolheu a tentativa de empurrar o jogo para o tapetão por 8 votos a 2. O pagamento das emendas foi proibido. Nesta semana, contudo, atendendo aos presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), a ministra recuou. Disse ter compreendido que há “risco de prejuízo com a paralisação da execução orçamentária à prestação de serviços essenciais à coletividade”.

Na prática, nada vai mudar na forma de distribuição do Orçamento. No máximo, as emendas do relator passarão a levar o carimbo de mais gente em 2022. E só. Mas Rosa Weber decerto entendeu o recado de Lira e Pacheco: é mais sensato não colocar a colher na sopa dos parlamentares.

Depois do recuo de Rosa Weber, segundo o site Contas Abertas, R$ 100 milhões já foram “empenhados” (palavra que significa um compromisso de pagamento ainda não efetivado). Desse montante, um terço foi para o Piauí (Estado de Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil), outro terço foi repartido entre a Bahia (maior colégio eleitoral do Nordeste) e Minas Gerais (o segundo do país). A fatia restante ficou com os demais Estados e o Distrito Federal.

Morreu sem ter nascido o “escândalo das emendas secretas”.

Leia também “A primeira derrota do STF”, um artigo de J.R. Guzzo.

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11 comentários Ver comentários

  1. Eu diria que os congressistas deveriam respeitar o nosso voto, e colocar os togados no seu lugar…mas não o fazem porque a maioria estão com os rabos presos…somente nos, e que podemos mudar isto, fazendo uma faxina completa nas duas casas!

  2. Caiu por terra o “furo de reportagem” do Estadão. Era pra ser o grande “escandalo de corrupcao” do governo Bolsonaro, mas…. poxa vida, nao deu certo… Mas a velha imprensa vai continuar tentando. É so o que sabem fazer.

  3. Só precisa ser fiscalizado o destino de tanto dinheiro. Assim, não tem imposto que dê conta de pagar tanta despesa e porque não o DESVIO DO DINHEIRO PÚBLICO. Se 30% desse valor fosse realmente revertido em benefício da sociedade já estaria muito bom. Todo dinheiro público deveria ser auditado por uma equipe formada por auditores independentes, sérios e responsáveis, que não fossem políticos. E, não venham me dizer que existem os Tribunais de contas, porque se esses funcionassem não teria acontecido o desvio de tanto dinheiro público pelo PT. ISSO É UMA VERGONHA!
    Só assim esse país se tornaria um país sério.
    Esse país nunca vai sair do caos com esse sistema podre, ridículo e que já está mais do que demonstrado que não funciona. Com 513 deputados vivendo as custas de um povo trabalhador, mais 81 Senadores, mas as mordomias do Poder Judiciário. Esqueçam, nunca teremos um país descente!!!! Pobre povo brasileiro.

  4. Esse país seria cômico se não fosse trágico. É nojento e asqueroso, e infelizmente não será um e nem 100 homens que conseguirão aprumar esse barco sem rumo.

  5. A bancada do Barroso Saltitante é a Rede de Randolfinho Saltitante. A bancada da Rosinha bico de madame é o PCdoB. A bancada o Alexandre Dorinha é o PSDB e a bancada do Lula são GM, Lewa e Totó. A bancada do Fachin é Carminha é o Psol.

  6. Interessante. Quando o Congresso tem um “interesse direto”, ele faz o que tem que ser feito e coloca o STF no lugar dele. Só que os interesses do Congresso nunca são os mesmos do povo, a quem deveriam representar. É um jogo asqueroso de gato e rato.

  7. Se o Congresso quiser, esses ministros do STF voltam à sua restrita análise do “livrinho”, sem iluminismos interpretativos e vaidades pessoais e ideológicas, dai importante que o Poder Executivo também receba apoio do Congresso, para nosso pais ser governado. É lamentável, mas o STF desrespeita o Executivo e não quer harmonia entre os poderes.

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