Grande Esfinge de Tânis, esculpida em granito rosa em 1700 a.C.| Foto: Daniele Andreti/Unsplash
Grande Esfinge de Tânis, esculpida em granito rosa em 1700 a.C.| Foto: Daniele Andreti/Unsplash

Onde guardar os tesouros históricos?

O debate sobre a repatriação de artefatos arqueológicos para “corrigir injustiças históricas” é contaminado pelo politicamente correto

Fazem parte do acervo do Louvre, em Paris, a Grande Esfinge de Tânis, esculpida em granito rosa em 1700 a.C., e o sarcófago do faraó Ramsés III, que morreu em Tebas em 1156 a.C. O Museu Britânico, em Londres, exibe um moai da Ilha de Páscoa saqueado em 1868 pela tripulação do navio HMS Topaze. É possível contemplar uma coleção de 45 mil artefatos da cidade ptolomaica de Karanis, do período greco-romano do Egito, no Museu Kelsey, da Universidade de Michigan. Esses tesouros históricos, culturais e artísticos deveriam retornar aos seus territórios de origem, certo?

Muita calma nessa hora.

A Grande Esfinge de Tânis é uma das maiores esculturas conservadas fora do Egito, descoberta em 1825 pelo egiptólogo e cônsul inglês Henry Salt (1780-1827), nas ruínas do Templo de Amon-Rá, na cidade de Tânis, antiga capital do Baixo Egito, na dinastia XXI (1070 a 945 a.C.) e dinastia XXII (945 a 712 a.C.) | Foto: Sharon Mollerus/Flickr

A militância politicamente correta, anticolonialista e contrária às ex-potências imperiais cobra a repatriação de obras de arte e de objetos arqueológicos com base numa série de argumentos. Entre eles: boa parte das peças foi removida com uso de violência; objetos culturais pertencem às culturas que os produziram; não repatriar artefatos saqueados durante regimes colonialistas significa perpetuar a ideologia colonialista de que há culturas inferiores, primitivas; os chamados museus universais, na Europa e nos Estados Unidos, são caros, inacessíveis a populações de países pobres, que jamais poderão ver obras importantes de seus ancestrais.

Alguns governos europeus têm procurado demonstrar especial simpatia por esses argumentos. A Fundação do Patrimônio Cultural Prussiano, da Alemanha, anunciou que no ano que vem devolverá à Nigéria um conjunto de peças. O Museu Britânico restituiu à Etiópia 13 obras saqueadas em 1868. O presidente francês, Emmanuel Macron, mais teatral, aprecia cerimônias nas quais se cerca de autoridades de ex-colônias para discursar sobre a necessidade de “corrigir injustiças históricas”. Em novembro, a França despachou de volta para a África 26 objetos capturados por militares em 1892, quando o Reino do Daomé, hoje Benin, foi derrotado por uma expedição francesa e o território tornou-se um protetorado. Entre os volumes que desembarcaram no Aeroporto Internacional de Cotonou, estavam as portas de uma das edificações dos Palácios Reais de Abomei, monumento que conquistou da Unesco o status de patrimônio histórico mundial. Com painéis decorados com baixos-relevos de madeira policromada, as portas compunham o acervo do Museu do Quai Branly, de Paris, cuja coleção etnográfica é uma das mais colossais de todo o mundo.

Hoa Hakananai’a é um moai exposto no Museu Britânico, em Londres. Seu nome provém da língua rapanui e significa algo como “amigo oculto ou roubado”. Ele foi removido da Vila Orongo, na Ilha de Páscoa, em 7 de novembro de 1868, pela tripulação do navio inglês HMS Topaze e aportou em Portsmouth em 25 de agosto de 1869 | Foto: Leo Boudreau/Flickr

Rapidamente formou-se entre intelectuais, acadêmicos e a imprensa o consenso em favor da repatriação. Segundo o movimento em curso, devem ser restituídos não apenas objetos saqueados durante combates, mas também aqueles encontrados em expedições científicas e até os presentes oferecidos por administrações coloniais. Numerosas reportagens, inclusive no Brasil, passaram a reproduzir um dado impressionante: “Cerca de 90% do patrimônio histórico da África está em solo europeu”. O número é tão chocante que é chutado. Foi criação de um ativista. Em razão do nível do pensamento crítico atual, a coisa pegou e vem sendo difundida.

“Isso é arte”

Dadas as complexidades envolvidas na questão, soluções e consensos rápidos são inevitavelmente falhos. Mas, se não há respostas prontas, existem muitas perguntas que não têm emergido na maioria dos debates. “As obras pertencem aos museus onde elas estão agora”, diz o francês Didier Rykner, diretor do site especializado La Tribune de l’Art. Os interlocutores normalmente olham para Rykner como se ele fosse um colonialista tóxico ou um demente neofascista. Com firmeza, ele vai adiante: “No século 19, saques durante guerras eram legais. Podiam não ser moralmente corretos, mas eram legais. E, se vamos voltar ao século 19 para corrigir supostas injustiças, por que não retornar ao 18, ao 17, ao 16 e assim por diante? Quando acabaria esse processo?”.

Rykner lembra, por exemplo, que o acervo do Museu do Instituto Fundamental da África Negra, em Dacar, no Senegal, foi integralmente construído durante os anos coloniais. “Há artefatos de várias culturas de todo o continente africano. Eles vão devolver também?”. Rykner apresenta ainda outra consideração que irrita os oponentes, mas parece incontestável: “Se não tivesse sido removida, a maior parte desses objetos desapareceria. As peças estavam enterradas, sob muita lama ou barro. Seriam consumidas como matéria orgânica. Tornaram-se arte apenas porque europeus administradores de museus disseram: ‘Isso é arte’”.

Risco permanente

Há um detalhe que os defensores da repatriação tentam convenientemente deixar de fora da pauta: as condições de preservação em instituições de nações periféricas, sobretudo aquelas da África Subsaariana. Ações de grupos terroristas representam risco permanente em vários países da África Ocidental, como Mali, Níger e Burkina Fasso, ex-colônias francesas, e Nigéria, que fez parte do Império Britânico. Na fatia oriental do continente, a Etiópia sucumbe em mais uma guerra civil e Moçambique vê o norte do seu território tornar-se posto avançado do Estado Islâmico. Esses Estados terão recursos, tecnologia e pessoal treinado para cuidar com segurança de tesouros arqueológicos e obras de arte?

Em 1996, tive uma experiência embaraçosa no Museu do Cairo, no Egito. Um funcionário do museu, com crachá pendurado no pescoço, me abordou com uma proposta. Mostrou-me uma escultura de pouco mais de 20 centímetros, aparentemente de bronze, e perguntou se eu poderia fazer a gentileza de colocá-la com discrição na minha mochila — ele cuidaria para que não fôssemos vistos. “Lá fora, nos jardins, um amigo meu vai te procurar. Você entrega a peça e recebe US$ 1 mil”, disse. É muito provável que em algum momento, talvez naquela mesma semana, alguém tenha topado o acordo.

Voltei ao Egito em 2019. A segurança no Museu do Cairo agora é mais profissional. Mesmo assim, há pontos cegos no sistema de vigilância.

Fatos relevantes do passado e seus monumentos só foram descobertos graças à obstinação de estudiosos ingleses

Em 2008, estive em Timbuktu, no Mali, cidade histórica nas franjas do Saara que no século 14 foi um importante centro cultural — sua universidade chegou a ter 25 mil alunos. Vi abnegados bibliotecários amadores encaixotando manuscritos milenares para enterrá-los e, assim, despistar as milícias tuaregues que começavam a dar sinais de radicalização nas suas reivindicações pela criação de um Estado muçulmano na região. Alguns anos mais tarde, cada vez mais extremistas, os tuaregues incendiaram vários lotes de antigos textos literários guardados em Timbuktu, por considerá-los ofensivos ao Islã.

Mais do que coletar e preservar artefatos de diferentes civilizações, militares, expedicionários, aventureiros e cientistas europeus e norte-americanos contribuíram para que muitos povos pudessem deslindar a própria história. O caso da Índia é apenas um entre tantos exemplos. Fatos relevantes do passado remoto da nação e dezenas de seus monumentos só foram descobertos graças à obstinação de estudiosos ingleses.

Os egípcios não conheceriam o significado da escrita hieroglífica de seus ancestrais se um soldado de Napoleão Bonaparte não tivesse encontrado, em 1799, a Pedra da Roseta, em posse do Reino Unido desde que tropas otomanas e britânicas derrotaram os franceses em 1801. O fragmento rochoso com um decreto sacerdotal escrito com hieróglifos, em demótico e em grego antigo, está em exibição no Museu Britânico e de lá não sairá.

Pedra da Roseta, exposta no Museu Britânico | Foto: Hans Hillewaert/Wikimedia Commons

O discurso diplomático até permite conjecturas ambiciosas sobre grandes acordos de repatriação de artefatos arqueológicos e obras de arte. Na prática, o empenho é real quando se trata da devolução de restos mortais, para possibilitar o sepultamento segundo as tradições — foi o que fez o Museu Nacional da Dinamarca, ao enviar crânios maoris para a Nova Zelândia. De resto, o mais provável é que uma coisinha aqui e outra ali sejam restituídas. Até como gestos de soft power, especialmente em favor da África — os líderes europeus veem com preocupação a crescente influência da China no continente, em razão dos bilhões de iuanes despejados em infraestrutura, no sistema financeiro e às vezes em corrupção direta e escancarada.

Para o benefício de toda a humanidade, os grandes tesouros da arqueologia deverão continuar nos acervos dos museus universais, disponíveis a pesquisadores profissionais, estudantes e curiosos. “Nada impede que esses museus organizem exibições especiais temporárias em instituições que manifestem interesse em expor artefatos produzidos por culturas tradicionais do seu passado histórico”, diz Didier Rykner.

Manto tupinambá, retirado de Pernambuco por volta de 1644 e que está hoje no Museu Nacional da Dinamarca | Foto: Reprodução/Twitter

Talvez algum dia uma exibição temporária possa apresentar ao grande público brasileiro pelo menos um dos 11 mantos tupinambás do século 17 que estão na Europa, cada um tecido com mais de 4 mil penas vermelhas de guará, fixadas sobre uma rede de algodão cru com cera de abelha tiúba e graças ao hábil manuseio de agulhas de tucum, um tipo de palmeira. De tão sensíveis, alguns exemplares nem podem ser expostos. A relíquia em exposição no Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague, fica numa vitrine especial, com temperatura e umidade do ar controladas.

Imagine se os mantos tivessem ficado no Brasil. Digamos… no Museu Nacional do Rio de Janeiro.

Um incêndio de proporções ainda incalculáveis atingiu o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, na zona norte da capital fluminense | Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

 


Kaíke Nanne é jornalista. Foi publisher nos grupos Abril, Time Warner e HarperCollins. Atuou como repórter, editor e diretor em diversas publicações, entre elas Veja, Época, Playboy, Claudia e Oeste.

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11 comentários Ver comentários

  1. De fato, não fossem os museus universais, não haveria patrimônio algum.
    Sou testemunha da perda de diversos sítios aqueológicos, com inscrições rupéstres, em Pernambuco, pela absoluta falta de intreresse na sua preservação. Os Mantos Tupinambás estão em boas mãos, na Dinamarca.

  2. Essa Europa sofreu pelo fascismo nazismo e comunismo. Os reinos africanos sabem o que eles fizeram em todas as estações do século
    anterior

  3. Impressionante é um leitor fazer comentário repudiando a citação ao desnaselo do Brasil com suas obras, acredito que nunca tenha ido as cidades históricas de Minas Gerais, para ver a realidade.

  4. Inadequado comentário final que enfia o Brasil nessa história só para tirar uma casquinha com a incompetência em lidar com o passado. Ridículo jogar barro no Brasil. Melhor seria apontar os responsáveis pelo desmazelo que levou ao fogo. Ainda melhor seria falar de quem está trabalhando duro para restaurar a acervo do Museu Paulista e o próprio edifício. Quanto aos museus citados, o British Museum ficaria com dezenas de salas vazias se tudo o que foi trazido de outras culturas e lá está exposto fosse devolvido a quem lhes coubesse o direito. Maravilhoso é pensar que ao menos a Biblioteca continuaria repleta de obras escritas por britânicos.

  5. Matéria relevante pela qualidade das informações e racionalidade quanto ao mérito do assunto, com a defesa (sob qualquer ponto de vista) da manutenção de obras-chave para a explicação da história da cultura humana em locais seguros, graças as pessoas que, na ocasião, tinham a capacidade de reconhecer seu valor e condições para resgatar tais tesouros do descaso, da ignorância e da destruição pura e simplesmente.

  6. Interessantíssimas as ideias do Sr. Didier Rykner, agradeço ao Kaíke Nanne por divulgar parte delas.
    É preciso ponderação, não generalizar e avaliar cada caso em seu contexto e de acordo com seu lugar na herança cultural da humanidade. Imagine-se o destino da riquíssima coleção de antiguidades da Babilônia, Suméria e Assíria se deixarem de estar abrigadas no Museu Pergamon, em Berlim.

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