Foto: Shutterstock
Foto: Shutterstock

A bolha da Folha

Motim na redação progressista é sintoma da repulsa do jornalismo militante pelo contraditório

Mês passado, 208 jornalistas da Folha de S. Paulo enviaram uma carta de protesto à direção do jornal após a publicação de um artigo de opinião que, supostamente, continha uma opinião impublicável já explícita no título: “Racismo de negros contra brancos ganha força com identitarismo”. Reproduzo aqui alguns trechos do texto, de autoria do antropólogo baiano Antonio Risério:

Todo o mundo sabe que existe racismo branco antipreto. Quanto ao racismo preto antibranco, quase ninguém quer saber.”

“Casos desse racismo se sucedem, mas a ordem-unida ideológica manda fingir que nada aconteceu.”

“Ataques de negros contra asiáticos, brancos e judeus invalidam a tese de que não existe racismo negro em razão da opressão a que estão submetidos.”

“O dogma reza que, como pretos são oprimidos, não dispõem de poder econômico ou político para institucionalizar sua hostilidade antibranca. É uma tolice. Ninguém precisa ter poder para ser racista…”

“Mas o racismo é inaceitável em qualquer circunstância. A universidade e a elite midiática, porém, negaceiam.”

“Não devemos fazer vistas grossas ao racismo negro, ao mesmo tempo que esquadrinhamos o racismo branco com microscópios implacáveis. O mesmo microscópio deve enquadrar todo e qualquer racismo, venha de onde vier.”

“O neorracismo identitário é exceção ou norma? Infelizmente, penso que é norma. Decorre de premissas fundamentais da própria perspectiva identitária, quando passamos da política da busca da igualdade para a política da afirmação da diferença.

Nota: no intuito de atestar que o texto é, claramente, contrário ao racismo, destacamos algumas frases em negrito — aliás, será que já é politicamente incorreto usar o termo “negrito”? Vai saber…

Voltando à polêmica da vez, na sua argumentação, o autor lista uma série chocante de exemplos individuais e coletivos de antissemitismo, discurso de ódio, discriminação e violência de negros contra brancos pelo mundo. A descrição dessa realidade incômoda associada à tese de que o racismo independe da cor do racista — e ainda pode ser agravado por ações afirmativas — indignou a redação progressista da Folha, que abraça a doutrina do racismo estrutural como verdade científica e enxerga o mundo dividido em grupos identitários em perpétuo conflito. O resultado é a tal carta, assinada por mais de duas centenas de jornalistas, incluindo os tais signatários anônimos, novidade que, certamente, será incorporada nos abaixo-assinados da esquerda brasileira de agora em diante:

“Nós, jornalistas da Folha aqui subscritos, vimos por meio desta carta expressar nossa preocupação com a publicação recorrente de conteúdos racistas nas páginas do jornal” — que mentira. Cabem muitas críticas ao tipo de jornalismo praticado pela Folha, essa não. Por sua vez, o artigo em discussão, além de não ser racista, é antirracista na medida em que denuncia e repudia a discriminação.

O motim na redação da Folha é mais um sintoma da repulsa do jornalismo militante pelo contraditório

A carta segue “reafirmando a obviedade de que racismo reverso não existe”, o que não é uma verdade estabelecida e tampouco óbvia se o conceito de racismo se aplicar — e se aplica! — a qualquer preconceituoso que discrimine outras pessoas em razão da sua etnia.

E, como não poderia deixar de ser, a carta termina com lacração: “Acreditamos que buscar audiência às expensas da população negra seja incompatível com estar a serviço da democracia” — nada disso! É muito mais plausível que a real intenção do artigo (de quem escreveu e de quem publicou) seja nobre: combater o racismo em todas as suas formas de manifestação e assim servir à democracia.

Segundo apuração de Oeste, “os jornalistas [da Folha] decidiram fazer uma assembleia para exigir a demissão do diretor de Redação, Sérgio Dávila. Ou seja, os funcionários exigiram se sentar para negociar com o chefe sua própria permanência no posto.

A exigência da demissão foi uma reação à resposta de Dávila ao levante nos dias anteriores. Ele dissera que a carta era parcial, equivocada e sem fundamentos. Lembrara que boa parte dos missivistas só estava ali justamente porque a Folha decidiu criar novas editorias e lhes dar emprego”.

Ao que consta, os jornalistas amotinados só recuaram diante da promessa de conquistar ainda mais espaço para promover sua visão de mundo e suas opiniões publicáveis.

Com sua maestria habitual para criar narrativas, nesta semana a Folha transformou o motim que pedia a cabeça do diretor de redação em um “exercício de autocrítica” que reuniu 220 jornalistas virtualmente para um debate interno sobre os limites do pluralismo. Ignorando completamente que o público leitor do jornal é formado por adultos perfeitamente capazes de interpretar textos e desenvolver raciocínio crítico, as alas mais militantes deram um tom orwelliano a alguns momentos do evento:

“jornalistas não devem se sentir obrigados a abrir espaço para o contraditório em nome do equilíbrio”;

“editores devem evitar a publicação de textos com argumentos falsos só porque existem pessoas que pensam assim”;

“deve haver limites à publicação de algumas opiniões, porque jornalistas influenciam as fronteiras do que é ou não uma controvérsia legítima”.

Durante a assembleia digital, também foi recorrente o uso da “falsa equivalência”, falácia que consiste em comparar e nivelar coisas essencialmente distintas. Assim, teses sociológicas foram alçadas à categoria de verdades científicas e parecia que admitir a existência do racismo de negros contra brancos era tão grave quanto não reconhecer que a Terra é redonda.

O motim na redação da Folha é mais um sintoma da repulsa do jornalismo militante pelo contraditório. A comparação entre pontos de vista distintos tende a revelar incoerências, expor inconsistências e trazer à tona realidades incômodas a quem deseja impor sua visão de mundo e de progresso à sociedade. Melhor, para eles, cortar o bem pela raiz lançando mão de expedientes como o patrulhamento, o cancelamento e a censura de ideias, mesmo que isso signifique abandonar a ética da profissão e sucumbir a uma prisão intelectual. Estarão intelectualmente presos, mas emocionalmente seguros… seguros como em uma bolha.


Caio Coppolla é comentarista político e apresentador do Boletim Coppolla, na TV Jovem Pan News e na Rádio Jovem Pan

Leia também “A ditadura do pensamento único”

-Publicidade-
* O espaço para comentários é destinado ao debate saudável de ideias. Não serão aceitas postagens com expressões inapropriadas ou agressões pessoais.

47 comentários Ver comentários

  1. Excelente Caio. O tempo todo enxerguei os “marinhos”, o Reinaldo Azevedo, e aqueles jornalistas da bandeirantes.
    Aqui em MG quem anda se expondo é Junior Moreira e já uma leva boa de “jornalistas práticos “, sob ordens e cartilha dos progressistas (leia-se sociais democratas e comunistas globalistas), que acabam de adquirir a “saudosa ” rádio Itatiaia.
    A CNN veio por encomenda e não merece comentários: puxadinho da globolixo.

  2. A base da teoria socialista é que as pessoas são iguais , só para adoçar a boca dos idiotas que a seguem . Eu , que fui socialista na juventude , cansei de ouvir termos como massa de manobra ao se referir” à plebe “. Por isso as diferenças não são aceitas pois elas destroem o socialismo . E a FSP deixou de ser crível há muito tempo.

  3. kkkkk li varias materias hoje e reparei que quase todas tem 1 “deslize”. Deve ser um palhaço esquerdista que nem le as matérias e faz isso em todas. É isso ou muita coincidência. Bom, pelo menos o anta paga pela assinatura

  4. Caio,
    BELA REFLEXÃO !!!!!!!
    A direção da FOLHALI…..começa acordar apesar de que a sua esquerda interna atuante não quer.
    Esta visão de racismo antagonico sempre me preocupou mas lamentavelmente deixei qua az esquerda ficasse detendora deste assunto- RACISMO. A antiga midia nunca contemplou com o assunto – PARECE QUE A DIREÇÃO DA FOLHA ACORDOU !!!! SENÃO IRA PARA O OSTRACISMO DA VELHA MIDIA

  5. Parabéns senhor Antônio Riserio e parabéns ao Caio por nos trazer essa pérola !
    Donde se conclui que fica terminantemente proibido exteriorizar o contraditório!
    E o lamentável que as conclusões do Sr Antônio Riserio são muitíssimo válidas e reais !

  6. Exatamente isso, Caio. O ocorrido é sintomático do que aconteceria se o obscurantismo tivesse eleito Haddad. A Folha provavelmente seria rotulada de reacionária pelos seguidores do poste.

  7. …Caio, suas palavras continuam sendo cirúrgicas atendendo o objetivo que todos querem expressar face à famigerada e decadente Folha…que tenta ser uma bôlha …

  8. eu já sofri racismo reverso, duas vezes, uma quanto com amigos negros fui a um bar só de negros, ao ir ao banheiro me intimaram “o que eu estava fazendo ali” outra quando, no metro, um grupo de negros ao passar por mim fizeram a famosa continência nazista e disseram Herr Hitler como se por ser branca eu fosse obrigatoriamente nazista

  9. Profundo nojo e desprezo dessa redação medíocre. isso não é jornalismo. é panfletagem espalhando lixo. Essa gente não serve para escrever obituário. Alias não são capazes de fazer isso com competência.

  10. Parabéns Caio Copolla, esse texto mostra que a Folha de São Paulo que fui assinante durante anos mostrava,mostra e mostrará sempre esse lado MILITANTE e não jornalístico, é mais uma agência política de um só lado e uma só crença a ESQUERDA. Assim Tchau querida! FOICE.,fique com seus LIXOS os pseudos jornalistas

  11. Caio, parabens. Brilhante como sempre. Vou me atrever a fazer uma sugestao. Ou pedido: por favor, comente a asneira que a atriz Whoopi Goldberg falou sobre racismo e nazismo em um programa de tv. Abracos.

  12. Caio, como jornalista, excelente, pois mostrou à sociedade, o esquema esquerdista radical adotado por esse lixo. Fui assinante desse jornal, enquanto era um meio de informação confiável e sério. Hoje, não merece que um profissional como você, “perca” seu tempo, com esse lixo. Já já esse lixo irá desaparecer do cenário jornalistico por inanição.

  13. Eu fiz a minha parte: cancelei minha assinatura desse jornaleco. Não tenho muito interesse sobre nada que vem da folha, mas não posso deixar de registrar que a oportunidade do texto do sociólogo foi certeira. Agora mesmo a atriz Americana Whoopi Goldberg demonstrou ipsis litteris o que o sociólogo baiano pretendia comunicar. Tenho certo que o peixe morre pela boca e essa turma lavradora, quando solicitada a articular seus argumentos, demonstra claramente seus preconceitos e irracionalidades. Que se afoguem os lavradores.

  14. Na minha adolescência eu costumava ir com um colega de escola à sua casa ouvir música ao vivo, sua família era preta e a música também, uma vez um parente perguntou o que que esse branco está fazendo aqui? Meu colega disse que estava tudo bem, que eu era branco mas amigo dele. A família toda era racista mas , brasileiros, abriu uma exceção para mim. Eu continuei indo , nunca mais ouvi qualquer comentário.

  15. Se o PT ganhar as eleições e, conforme estão prometendo, implementar o tal “Controle Social da Mídia”, a Folha de São Paulo será o jornal que menos irá sofrer com a censura e a tutela do PT sobre o que deverá ou não ser publicado! É um verdadeiro absurdo que mais de 200 jornalistas venham a público apoiar que determinados textos não devem ser publicados, numa clara afronta à liberdade de expressão! Tempos obscuros se mostram à nossa frente. Espero que os eleitores tenham um pingo de sensatez na hora de votar!

  16. Extremistas são militantes devotos do pensamento único. A História está repleta desses exemplos no nazismo e no leninismo.
    Repelem com veemência o contraditório, o que revela a fragilidade dos seus argumentos.

    1. =>”Repelem com veemência o contraditório, o que revela a fragilidade dos seus argumentos.”<=. Sintetizas tudo o que explica do porquê a esquerda é raivosa, agressiva, fugidia e má: incapacidade de ser diferente do que são, amorais, coerentes, lúcidos e ponderados!

  17. Parabéns Caio…Você orgulha o jornalismo do Brasil…!

    Quanto aos “jornalistas” esquerdistas da folha, Eu não os culpo, porque sei que a anomalia cerebral que os acomete, é imposta pelos GENS… O que tenho é ” Pena”.

    Poderiam estar prestando informações úteis a sociedade, e não distorcendo e mentindo… ODIOSAMENTE…. Que pena.

  18. 208!!! A “falha de sp” ainda tem tudo isso? Talvez mais porque um ou outro deu um jeito de não assinar “anonimamente”! Assusta. Esse “evento” tem que nos servir de alerta! Não vai ser fácil. Vamos precisar de todos na luta daqui até as eleições.

  19. Antônio Risério é conterrâneo de Rui Barbosa. As suas matérias, portanto, merecem respeito e admiração. Parabéns Copolla, por dar o devido valor a quem merece.

  20. Conheci Carlos caldeira e Octávio Frias, o pai, com excelente crescimento do conglomerado, o grupo Folha, orgulho do jornalismo são Paulo, hoje, entregue às favas, militante, despersonalizado e sem credibilidade, tudo pela incorporação dessa esquerda irresponsável militante, brevemente o adeus lllll

  21. A folha por sinal está virando um folhetim, de porta de fábrica, militante, sem importância , apostando numa volta da mamata..

  22. Esses jornalista, que se dizem ser, vieram de uma escola aparelhada pela esquerda, deveriam voltar para uma escola seria e saber o que é racismo.

  23. Mais um caso típido de efeito manada. É bem fácil seguir a correnteza. Difícil é lutar contra ela. Mas ninguém pode dizer que defender seu ganha-pão não é uma intenção nobre. Por isso eu assino, mas não reconheço que assinei.

  24. É como eu digo, sem apresentar provas ou evidências, jornalistas da “foia” dizem fazer um jornalismo sério e compromissado com a verdade….
    Ainda bem que existe a revista Oeste… com um time imbatível de colunistas como o Copola. Parabéns pela lucidez.

  25. O crime foi instaurado mais ou menos na época da Lei de Anistia, onde sob pretexto de pacificação do País aceitamos o retorno dos bandidos exilados/banidos/fugidos do Brasil por conta de seus fracassos em nos entregar, à nossa revelia e via uma guerrilha armada, à Cuba, China e antiga URSS.
    Após essa abertura oficial do País à bandidagem expurgada, inclusive com a possibilidade de ascensão aos governos Federal, Estaduais e Municipais, a contaminação das academias e da imprensa, pela ideologia marxista, foi apenas meio passo.
    Culminamos com praticamente a totalidade das universidades públicas compostas por docentes, discentes e dirigentes, absolutamente alienados, incapazes de reagirem maduramente quando requisitados para tanto no campo social.
    Os cursos de Humanas, mais acessíveis e fáceis, se tornaram o núcleo autopropulsor de toda essa loucura que estamos sendo, agora, obrigados a combater.
    Copolla, mais uma vez faz um belíssimo comentário acerca da evidente loucura que se tornam as cabeças dos esquerdistas!
    Infelizmente, nossa omissão serviu para formamos doentes mentais, como muito bem descrito pelo médico psiquiatra Lyle H. Rossiter, em seu livro a Mente Esquerdista.

Envie um comentário

Conteúdo exclusivo para assinantes.

Seja nosso assinante!
Tenha acesso ilimitado a todo conteúdo por apenas R$ 19,90 mensais.

Revista OESTE, a primeira plataforma de conteúdo cem por cento
comprometida com a defesa do capitalismo e do livre mercado.

Meios de pagamento
Site seguro
Seja nosso assinante!

Reportagens e artigos exclusivos produzidos pela melhor equipe de jornalistas do Brasil.