Antônio Palocci, Luiz Inácio Lula da Silva, Gilmar Mendes, Francelino Santos Costa, Jorge Mattoso e Antonio Cláudio Mariz de Oliveira | Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil
Antônio Palocci, Luiz Inácio Lula da Silva, Gilmar Mendes, Francelino Santos Costa, Jorge Mattoso e Antonio Cláudio Mariz de Oliveira | Foto: Montagem Revista Oeste/Agência Brasil

A bandidagem derrota os xerifes

O mais longo faroeste à brasileira garante que punir corruptos destrói a economia

O faroeste à brasileira, uma das mais ousadas invenções registradas nos 13 anos em que o PT permaneceu no poder, nasceu do acasalamento de duas singularidades assombrosas. Primeira: nada do que se vê é fictício. As coisas se passam no mundo real, os fatos desfilam a um palmo do nariz da plateia. Em vez de roteiristas profissionais, os caprichos do destino, as trapaças da História e os defeitos de fabricação dos seres humanos é que determinam o que está acontecendo ou vai acontecer. Segunda singularidade: ao contrário do que ocorre nos velhos faroestes exibidos na tela, nessa abjeção concebida no País do Carnaval os bandidos é que perseguem mocinhos, xerifes ou juízes — e sempre acabam vencendo. Os espectadores honestos que esperem sentados um happy end. Só os fora da lei têm direito ao final feliz.

O novo gênero foi parido pelo julgamento no Supremo Tribunal Federal que decidiu o desfecho de “O Estupro do Caseiro”. O primeiro faroeste à brasileira foi protagonizado por Antonio Palocci, ministro da Fazenda do governo Lula, e Francenildo Santos Costa, contratado em 2005 para vigiar um imóvel às margens do Lago Sul batizado de “República de Ribeirão Preto”. O elenco de coadjuvantes incluiu o ministro Gilmar Mendes, no papel de protetor de vilões em perigo, Jorge Mattoso, o presidente da Caixa Econômica Federal obrigado a interpretar um obediente bode expiatório, e o bando de assessores que se tornaram amigos de Palocci nos tempos em que foi prefeito de Ribeirão Preto. Um deles achou que seria uma boa ideia transformar a mansão alugada em hospedaria, esconderijo, sala de reuniões para negócios escusos e salão de festas animadas por garotas de programa.

Em março de 2006, fisgado por uma CPI do Congresso instaurada para investigar bandalheiras envolvendo casas de bingo, o gerente da mansão confessou que Palocci era um assíduo frequentador do lugar. O ministro jurou que nunca dera as caras por lá. Francenildo confirmou que o figurão do governo Lula tanto era figurinha fácil que o resto da turma o chamava de “Chefe”. Decidido a garantir o triunfo da mentira, Palocci resolveu perseguir quem contara a verdade. Achou que viraria o jogo quando alguém lhe soprou que o caseiro estava enredado em “movimentações financeiras atípicas”. Imediatamente, convocou Jorge Mattoso e ordenou-lhe que estuprasse o sigilo da conta de Francenildo na Caixa Econômica Federal. Buscava o quilômetro zero do caminho da salvação. Encontrou a trilha que levava ao penhasco.

Apadrinhado pela maioria dos ministros, nasceu no Pretório Excelso o crime encomendado sem mandante

Nada havia de errado com Francenildo. O dinheiro cuja origem parecia suspeita fora depositado pelo pai biológico na conta do filho que nunca reconheceu. A vítima do estupro perdeu o posto de caseiro, demorou anos para conseguir trabalho e ainda espera a indenização estabelecida pela Justiça. No faroeste à brasileira, contar a verdade é pecado grave. Inserido no currículo, pode resultar no desemprego eterno. Mas o amadorismo do elenco em ação nesse tiroteio impediu que todos os culpados escapassem incólumes. Depois de estacionar no Supremo Tribunal Federal durante três anos, o processo foi julgado em agosto de 2009. O relator Gilmar Mendes culpou Mattoso pela execução do estupro encomendado por Palocci e, numa acrobacia espantosa, absolveu o réu que o encomendara. Apadrinhado pela maioria dos ministros, nasceu no Pretório Excelso o crime encomendado sem mandante. Graças a essa brasileirice cafajeste, um culpado recuperou o status de inocente. Mas continuou longe do Planalto: condenado pelo Brasil decente, o homem promovido por Lula a “maior ministro da Fazenda da história” regressara à planície em abril de 2006.

Para desconsolo do país que presta, os participantes do faroeste inaugural melhoraram perigosamente o desempenho nos anos seguintes — e a eles se juntaram produtores, diretores e atores que não deixam soltos fios desencapados, capricham no script, corrigem pequenas imperfeições e foram dispensados ainda no berçário do sentimento da vergonha. O elenco ficou melhor por recrutar o que há de pior na Praça dos Três Poderes. O atrevimento insolente removeu os limites da imaginação. Como atestam os mais recentes episódios da série “Só os perversos condenam”, que revê a Operação Lava Jato pelo olhar da bandidagem, a realidade brasileira pode ser infinitamente mais assombrosa que a ficção produzida por mentes sem freios. Perseguir defensores da lei, por exemplo, hoje é muito pouco, quase o mesmo que nada. Castigar juízes, procuradores e policiais envolvidos na Lava Jato tornou-se tão rotineiro quanto duelos motorizados em filmes de ação. O ano eleitoral requer piruetas muito mais atrevidas. É hora de canonizar canalhas, louvar larápios, eleger abjeções, venerar vigaristas, estreitar relações com oportunistas convertidos. É hora de infernizar a vida de quem se atreveu a provar que a lei pode valer igualmente para todos, que há lugar na cadeia também para delinquentes estrelados, até para presidentes da República que asseguraram um capítulo de bom tamanho na História Nacional da Infâmia.

Lula é o Marlon Brando do faroeste pelo avesso. Para escapar de perguntas sem resposta, não conversa com jornalistas independentes desde dezembro de 2005. Para escapar de confrontos verbais desmoralizantes, quer distância de debates eleitorais na TV. “Falta tempo para mostrar programas de governo”, mente. Fugitivo de plateias não domesticadas desde a abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007, quando foi chicoteado pela mítica vaia do Maracanã, quer fazer campanha sem sair de casa. “Quero evitar o risco de atentados”, mente de novo. Mentem em louvor do farsante sem remédio os devotos da seita que aboliu o pecado, juristas para os quais não existem crimes nem criminosos do lado de baixo do Equador, ministros do Supremo que prendem inocentes e soltam ladrões da classe executiva e chefões do PCC, candidatos a vice que aposentam a honradez por sonharem com a antecipação da visita da Indesejada das Gentes ao gabinete que cobiçam. E, entre tantos outros viventes com defeito de fabricação, mente por Lula a turma que faz bonito no faroeste à brasileira.

Neste começo de 2022, em livros, páginas de jornais agonizantes ou na internet, sabujos patológicos tentam debitar na conta da Lava Jato o acidente ocorrido numa linha em construção do metrô de São Paulo, a taxa de desemprego, o preço da gasolina e todos os problemas da economia brasileira. A Lava Jato destruiu as grandes empreiteiras, recitam os discípulos do mestre Mariz. Se o dinheiro já foi roubado, de que adianta prender os gatunos? Se a propina já foi paga, por que engaiolar corruptores e corrompidos? Caso o Código Penal prescrevesse uma hora de cadeia para cada erupção de cinismo sórdido, nenhum integrante do bando que prospera com o faroeste à brasileira escaparia da prisão perpétua.

Leia também “Doutor em cinismo”

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53 comentários Ver comentários

  1. Parabéns SENHOR Augusto Nunes. Capacidade de dizer muito com poucas palavras. Gratidão pela sua sabedoria. Gostaria de sua avaliação sobre as inúmeras palestras milionárias do ex presidiário que não acontecem mais. Obrigada

  2. Por favor me enviem também um e-mail, pois comigo também acontece, sempre preciso fazer o login, a cada texto. Muito obrigada.

  3. Alguém, por favor, consegue explicar o Brasil e seus brasileiros? Confesso que não compreendo que estão considerando votar num ladrão para “salvar o país “. Alguém, por favor, repito, me esclareça

  4. Parabéns Augusto Nunes. Magistral a sua análise. Lamentável que este tipo de gente tenha seguidores no Brasil. Parece que honramos nossa fama de terra sem lei…

  5. Mestre Augusto eu te imploro: – por favor cuide-se! Preciso de você vivo, com saúde,com sua inteligência e perspicaz bem apurada, para nos agraciar com textos lúcidos, bem escritos, corajosos e honestos como esse. Vivemos tempos de acovardamento que somente vocês, jornalistas de fato e de direito,,são capazes de escrever com a coragem a bravura de um verdadeiro brasileiro. Parabéns!

  6. Nunca antes na historia deste Pais, gastei uns trocados com uma assinatura de um periodico que me deu tanto prazer. Prazer de ver que ainda existe jornalistas corajosos, e bota coragem nisto, para falar e provar o que voces dizem e escrevem. Deus do céu, obrigado por me colocar no caminho desta gente.

  7. Parabéns Augusto pela coragem de tuas matérias, portanto volto a pedir, atualize-nos como estamos com as imorais e ilegais indenizações milionárias de anistiados políticos, dê nomes dos jornalistas, escritores, advogados e terroristas, mais bem aquinhoados com esse assalto aos recursos públicos, e questione o COAF quais movimentações atípicas de membros desses CONSELHOS que autorizaram esse assalto. Seguramente tem viúvos (as) recebendo esse beneficio que além de não recolher I.R. é transmissível aos herdeiros.

      1. Dois deles, ambos políticos, que usaram os codinomes Hanák e Kato (posteriormente Lauro), estão descritos aqui https://eratostenesaraujo.blogspot.com/2021/12/hanak.html , incluindo os valores recebidos, o primeiro, Hanák, cerca de US$ 1 milhão.

      2. E eu também. Dada a robustez do assunto, pode ser feito em mais de uma edição.

    1. Dois deles, ambos políticos, que usaram os codinomes Hanák e Kato (posteriormente Lauro), estão descritos aqui https://eratostenesaraujo.blogspot.com/2021/12/hanak.html , incluindo os valores recebidos, o primeiro, Hanák, cerca de US$ 1 milhão.

  8. Sempre me pergunto o que essa gente escrota fala para mulheres, maridos e filhos. Ou será que toda família é farinha do mesmo saco podre? Nojo.
    Você, Augusto, implacável. TEMOS QUE LEMBRAR AS CANALHICES COMETIDAS.

  9. Como sempre o Augusto Nunes se supera a cada semana. Advogaodo militante há quase 40 anos, só tenho que concordar. O crime, no Brasil, compensa! Mas, só para os grandes crimes envolvendo a quadrilha que toma conta do Brasil, de tão notórios, desnecessário apontar. Mas, a verdade é que a Justiça é só para os cidadãos comuns, para a casta imoral, há leis e codigos só para eles. E quando não tem, inventam. Por exemplo, flagrante perpétuo. E “otras cositas mas”. Parabéns Augusto.

    1. Benedito …infelizmente ainda fazemos parte como espectadores desta Inconsciência Coletiva que precisa ser despertada com comentários viscerais de um jornalismo honesto e corajoso!!

  10. Augusto Nunes, você foi cirúrgico no seu texto! Fiz minha inscrição na Revista Oeste, recentemente, já estou amando, até que em fim uma revista que vale apena se ler!

  11. Fico muito feliz em poder ler esse belíssimo texto, escrito com clareza e independência. Infelizmente temos uma mídia covarde e corrupta. A CPI do covid-19, foi o retrato de uma imprensa que não aceita ser confrontada, não aceita a opinião divergente, não aceita perder… Reflexo dos nossos políticos e anos de subjugação.

  12. Sem desmerecer os demais articulistas, é sempre um prazer renovado ler os artigos assinados pelos J R Guzzo e Augusto Nunes, pois eles replicam, com lucidez e clareza, o que (talvez) a maioria de nós pensa mas não tem como expressar.
    Esse malfadado “consórcio”, essa composição do STF, a maioria das “excelências” (para não dizer ‘excrescências) da Câmara e do Senado, já morreram; só se esqueceram de cair.

  13. Um apresentador do Jornal da Band acusou a “lava Jato”, indiretamente, pela “ligacao” esgoto-metro. Segundo ele o processo “destruiu” construtoras brasileiras e o governo paulista foi obrigado a contratar empresa estrangeira. Resta perguntar: certas empresas so cresceram e ficaram poderosas participando da corrupcao.

  14. Meu Deus…. Augusto Nunes!!!!!!!!
    Você falou o que todo brasileiro honesto e sem voz gostaria de falar ou, no mínimo, ter falado.
    Essa corja, essa quadrilha…. esse organização criminosa, recheada de anjos demoníacos, envergonha a nação brasileira honesta e que vive e sobrevive dos expedientes corretos e decentes dos TRABALHADORES!!!
    A frase final é um primor: Se os ladrões do texto pegassem “1 minuto” de cana… ai sim, a prisão perpétua estaria instalada no Brasil.
    Obrigado Augusto!!!!

  15. Quando iniciei a leitura do teu texto ocorreu-me um pensamento: a inspiração da faroeste a brasileira, na verdade, é uma ironia, pois o melhor foi com Oscarito e Grande Otelo. Num filme da época em que a gente era adolescente o Carlos Manga quis inventar caubóis brasileiros. Tudo era humor e muita palhaçada. Onde se viu os brasileiros imitarem os autênticos filmes de faroeste norte-americano? Acho que nos aproximamos mais das tribos antropófogas…

  16. Que coisa, sou assinante da revista e acesso 1 vez por semana, sinto-me irritado pois todas as vezes em que estou lendo uma materia, a mesma e interrompida e solicitam-me a assinatura (conteudo exclusivo para assinantes) voces poderiam me explicar o que esta acontecendo?

    1. Cid, boa tarde e obrigado por nos reportar.

      Enviamos agora em seu e-mail cadastrado novas credenciais de acesso ao conteúdo integral da Oeste.

      Por favor, verifique se está tudo regularizado.

      Permanecemos à disposição e boa leitura.

      Atenciosamente, revista Oeste

    2. Subscrevo o comentário acima do Cid O. Travassos. Há muito sou assinante e a cada leitura de uma matéria, solicitam-me fazer assinatura ou vem advertência de leitura exclusiva oara assinantes (?)…

      1. Talvez vc esteja na navegação privada. Neste caso, cada janela aberta solicitará novo login. Já aconteceu comigo. Se for o caso, vc deve sair da navegação privada.

      2. Está situação ocorre comigo tbm, Sebastião. A cada artigo que vou ler preciso dizer que sou assinante. Muito chato. Só não desisto da leitura porque a revista é excelente.

      3. Rosângela, boa tarde
        Oeste agradece seu comentário e apreço.
        Encaminhamos instruções para solução dessa questão em seu e-mail cadastrado.
        Atenciosamente
        Revista Oeste

      4. Boa Tarde, Sr Sebastião, obrigado por nos dar a oportunidade de atendê-lo.
        Essas mensagens aparecem quando o assinante não está devidamente logado. Quando isso acontece, o sistema considera o acesso do assinante como o de leitor comum, e não libera o conteúdo.
        Vamos lhe encaminhar uma nova senha ao seu e-mail cadastrado para lhe proporcionar o livre acesso.
        Atenciosamente,
        Revista Oeste

      1. Wania, boa tarde

        Obrigado por relatar e nos dar a oportunidade de resolver.

        Enviamos um e-mail apresentando uma solução para essa questão.

        Atenciosamente,

        Revista Oeste

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