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Economia

A construção de um novo ciclo para o crédito brasileiro

'A diversidade de fontes de financiamento aumenta a capacidade de apoiar expansão, inovação e projetos de longo prazo'

Pessoa usando calculadora para analisar financiamento de imóvel com gráfico de eficiência energética
'Nenhuma mudança tecnológica elimina os fundamentos que sustentam as operações financeiras' | Foto: Reprodução/Canva

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A duplicata escritural representa uma transformação no mercado financeiro brasileiro ao modernizar o registro e a negociação de recebíveis, criando uma base mais sólida para o crédito privado. Com a implantação do ecossistema de duplicatas escriturais pelo Banco Central em 2026, a estrutura eletrônica padronizada melhora a segurança jurídica e a eficiência no acesso ao capital, beneficiando Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) e ampliando as alternativas de financiamento para empresas.

Por Luis Henrique Wolf*

Algumas transformações importantes no mercado financeiro não acontecem de forma imediata. Elas começam como mudanças técnicas, muitas vezes restritas, mas gradualmente alteram a forma como empresas acessam recursos, investidores avaliam oportunidades e o capital circula pela economia. A duplicata escritural está entre essas mudanças estruturais. Ao modernizar a forma como os recebíveis são registrados, acompanhados e negociados, ela cria uma base mais sólida para o desenvolvimento do crédito privado no país e amplia as condições para que recursos sejam direcionados à economia real, apoiando o crescimento, a expansão e os investimentos das empresas.

Durante muito tempo, operações baseadas em recebíveis conviveram com desafios relacionados à assimetria de informações, à padronização dos processos e à dificuldade de acompanhar determinados ativos ao longo de sua trajetória. Em estruturas de financiamento privado, especialmente aquelas envolvendo direitos creditórios, a qualidade dos dados sempre esteve entre os principais fatores para a tomada de decisão. A alocação de recursos depende de confiança, construída a partir de informações consistentes, processos organizados e mecanismos capazes de reduzir incertezas. Uma infraestrutura mais robusta permite não apenas maior eficiência no acesso ao capital, mas também melhores condições para que recursos sejam direcionados a negócios com potencial de desenvolvimento e geração de valor.

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Nesse cenário, a duplicata escritural surge para enfrentar parte dessas limitações ao substituir registros físicos por um ambiente eletrônico padronizado, rastreável e integrado. A nova estrutura reduz riscos operacionais, minimiza possibilidades de duplicidade, amplia a segurança jurídica e melhora o acompanhamento dos recebíveis ao longo de todo o ciclo, da emissão à liquidação. Agora, em 2026, o Banco Central iniciou o ecossistema de duplicatas escriturais, estabelecendo uma nova base para negociação desses ativos, com maior transparência para empresas, financiadores e investidores.

+ Entenda como funciona a economia brasileira no guia de Oeste

Para os Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs), essa mudança fortalece uma classe de ativos que vem ampliando sua relevância no mercado de capitais brasileiro. A melhoria na qualidade dos dados favorece processos como originação, cessão e monitoramento dos ativos, permitindo análises mais precisas, modelos mais eficientes e uma avaliação aprofundada dos riscos envolvidos em cada operação. Segundo a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais, o mercado de capitais movimentou R$ 283 bilhões em ofertas encerradas de janeiro a maio de 2026, alta de 14% em relação ao mesmo período de 2025, impulsionado principalmente por FIDCs, títulos híbridos e ações.

FIDCs e outros tipos de crédito

Esse movimento mostra que os FIDCs passaram a ocupar um espaço mais relevante na conexão entre investidores e economia produtiva. A expansão desses fundos não representa uma substituição ao papel dos bancos, que continuarão fundamentais para o financiamento da economia, mas amplia as alternativas disponíveis para negócios de diferentes portes e setores.

A diversidade de fontes de financiamento aumenta a capacidade de apoiar expansão, inovação e projetos de longo prazo. Mais do que oferecer acesso a recursos, o mercado de capitais exerce um papel estratégico ao conectar investidores às necessidades de desenvolvimento das empresas, contribuindo para ganhos de produtividade, competitividade e crescimento sustentável.

Gráfico do Ibovespa atrás de uma placa do B3, a Bolsa de Valores do Brasil
Sede da Brasil-Bolsa-Balcão, a B3, a Bolsa de Valores brasileira| Foto: Divulgação/B3

O avanço da duplicata escritural está diretamente relacionado à capacidade de transformar dados em inteligência de crédito e conhecimento estratégico sobre os negócios. A tecnologia permitirá acesso a informações mais estruturadas, mas o diferencial estará na capacidade de interpretar esses dados, combinando conhecimento dos setores, governança e gestão de risco. Mais do que analisar ativos, será fundamental compreender os mercados em que as empresas estão inseridas, suas características operacionais e suas necessidades de crescimento para desenvolver soluções adequadas e sustentáveis.

Nenhuma mudança tecnológica elimina os fundamentos que sustentam as operações financeiras. A duplicata escritural reduz ineficiências, melhora processos e aumenta a segurança das transações, mas a qualidade dos ativos, a capacidade financeira dos envolvidos e a avaliação criteriosa dos riscos continuarão determinando a solidez das estruturas. Outro desafio será a adaptação dos participantes desse ecossistema, que precisarão integrar sistemas, revisar processos e desenvolver novas rotinas para aproveitar todo o potencial dessa transformação.

O Brasil possui uma oportunidade relevante de desenvolver ainda mais seu mercado de recebíveis. A criação de mecanismos que aumentem a transparência e a segurança dessas transações aproxima investidores dos negócios e permite que mais capital privado seja direcionado para atividades produtivas. Além de uma mudança na forma de registrar recebíveis, a duplicata escritural representa um avanço na infraestrutura financeira brasileira

Quando confiabilidade, tecnologia, governança e conhecimento setorial caminham juntos, o mercado de capitais deixa de ser apenas uma alternativa de financiamento e passa a exercer um papel estratégico no desenvolvimento econômico, ampliando o acesso a recursos, estimulando investimentos produtivos e criando condições para um crescimento sustentável.

Leia também: “Confissão de incompetência abala credibilidade”, coluna de Raphaela Ribas publicada na Edição 331 da Revista Oeste


*Luis Henrique Wolf é CEO da Flowinvest, plataforma financeira especializada em soluções estruturadas para o mercado de capitais.

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