O reajuste de 6,79% do salário mínimo para 2026 amplia a renda de milhões e injeta mais consumo na economia, mas expõe uma contradição central do governo: ao mesmo tempo em que promete disciplina fiscal, assume um aumento de gastos na casa das dezenas de bilhões. Sem apresentar um plano claro para compensar o impacto.
+ Leia mais notícias de Economia em Oeste
Receba nossas atualizações
Essas premissas se encaixam na visão do consultor em finanças, Paulo Azevedo, professor de estratégia financeira do Ibmec de São Paulo. Segundo ele, o reajuste segue uma fórmula que combina inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) com crescimento econômico, com base no Produto Interno Bruto (PIB), o que garante algum grau de previsibilidade e moderação ao aumento.
Isso, para o professor, demonstra que há uma tentativa de conciliar valorização do salário mínimo com limites do arcabouço fiscal, o que é um mecanismo de conciliação. Isso, no entanto, não garante a sustentabilidade da economia, conforme ele ressalta.
Em 12 meses, segundo o Banco Central, o setor público consolidado teve uma alta do déficit primário, que chegou a R$ 37,7 bilhões, 0,30% do PIB em outubro, contra R$ 33,2 bilhões, 0,27% do PIB, nos 12 meses acumulados até setembro.
Pelo cálculo do governo, cada R$ 1 acrescentado ao salário mínimo gera cerca de R$ 420 milhões em gastos em 2026. Um reajuste de R$ 103, como o atual, implica um acréscimo aproximado de R$ 43,2 bilhões nas despesas governamentais.
“Por outro lado, o impacto fiscal é expressivo [gasto adicional estimado de aproximadamente R$ 43 bilhões], o que exige contrapartidas por meio de arrecadação ou corte de gastos, e nem sempre há clareza ou plano robusto para isso”, afirma Azevedo a Oeste. O professor acrescenta:
“Faltam [ou são insuficientes] iniciativas estruturais mais amplas, reformas tributárias profundas, fortalecimento da produtividade e crescimento sustentável, políticas de geração de emprego e qualificação, além de controle de despesa pública. O resultado é um impulso de curto prazo à demanda acompanhado de um risco fiscal que permanece sem resposta sólida.”
Cálculo para o aumento do salário mínimo
O reajuste valerá a partir de janeiro, a ser pago nos vencimentos de fevereiro. O modelo adotado tem por base a inflação medida pelo INPC em 12 meses até novembro, de acordo com a Constituição, mas uma parcela de até 2,5% do índice de crescimento real de 3,4% do PIB dos dois anos anteriores.
Leia mais: “Governo oficializa salário mínimo de R$ 1.621 em 2026”
Cerca de 59,9 milhões de brasileiros têm renda que depende do salário mínimo ou benefícios indexados a ele, como a previdência, o abono e o seguro-desemprego.
“Para o governo, portanto, o desafio é equilibrar o objetivo social e distributivo (salário mais alto, menor desigualdade) com a responsabilidade fiscal, garantir que o crescimento dos gastos não comprometa o equilíbrio orçamentário”, ressalta Azevedo. “Esse equilíbrio é mais difícil num país com elevada dívida pública e rigidez de compromisso com o déficit.”
Leia também: “A alegria míope da Faria Lima”, reportagem de Carlo Cauti publicada na Edição 299 da Revista Oeste





































Entre ou assine para enviar um comentário.
Você precisa de uma assinatura válida para enviar um comentário, faça um upgrade aqui.