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Economia

Tática da abertura

'O paralelo entre política comercial e gestão desportiva é evidente: ambos adotaram a reserva de mercado'

carlo ancelotti na seleção brasileira
Carlo Ancelotti na coletiva de imprensa em que anunciou a sua primeira convocação como treinador da Seleção Brasileira de Futebol — Rio de Janeiro, 26/5/2025 | Foto: Rafael Ribeiro/CBF

Por décadas, o Brasil operou sob a premissa de que o que é nosso dispensa validação externa. Essa mentalidade autárquica, que moldou a industrialização por substituição de importações no século 20, encontrou espelho fiel em nossos gramados. O futebol brasileiro, pilar da identidade nacional, orgulhava-se de uma autossuficiência mística. Contudo, a contratação do italiano Carlo Ancelotti para a Seleção rompeu esse lacre ideológico. A chegada do treinador simboliza o colapso do último bastião do protecionismo cultural e serve de metáfora sobre a urgência de abertura do Brasil na economia globalizada.

O paralelo entre política comercial e gestão desportiva é evidente: ambos adotaram a reserva de mercado. Enquanto o mundo se integrava, o futebol brasileiro estagnou em uma autoconfiança anacrônica, pagando o preço com o isolamento técnico e duas décadas de jejum em Copas. Como na economia, o fechamento cobrou seu tributo em obsolescência.

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Essa quebra de paradigma começou nos clubes com a importação de técnicos. As passagens de Jorge Jesus no Flamengo e Abel Ferreira no Palmeiras trouxeram novos processos, expondo o atraso metodológico local. O mercado doméstico, antes blindado, viu-se obrigado a expandir horizontes. Essa oxigenação estendeu-se às quatro linhas: a vinda de craques como Luis Suárez e Memphis Depay chancelou o retorno do país como polo atrativo. Ao subirem a régua da concorrência, esses atletas forçaram a elevação do nível interno, de forma idêntica a multinacionais que, ao se instalarem aqui, dinamizam a cadeia produtiva local.

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Paralelamente, a estrutura de propriedade passou por metamorfose. Viabilizada pela Lei das SAFs em 2021, essa transição funcionou como o marco regulatório para a atração de Investimento Estrangeiro Direto, resgatando clubes asfixiados por dívidas. O aporte de R$ 1 bilhão do City Football Group no Bahia exemplifica essa virada. Essa enxurrada de capital, atrelada a práticas de governança, injetou liquidez, impôs auditorias e sepultou o amadorismo dos antigos cartolas.

Lições táticas no futebol e na gestão pública

Nesta transição, a maior lição do futebol para a gestão pública reside na correlação entre equilíbrio fiscal e dominância. Palmeiras e Flamengo são emblemáticos: abdicaram do populismo em prol da austeridade. Depois de reestruturarem suas dívidas, alcançaram faturamentos bilionários e converteram superávits em hegemonia esportiva, demonstrando que a responsabilidade fiscal é o único meio sustentável para financiar o sucesso a longo prazo. É uma cartilha para Brasília, pois atesta que o respeito às contas gera a previsibilidade para atrair capitais e garantir estabilidade.

O diagnóstico para o futebol e para a macroeconomia brasileira guarda a mesma essência: o protecionismo e a leniência fiscal concedem uma ilusão de alívio imediato, mas cobram o preço do fracasso no longo prazo. Se o Brasil vencerá com Ancelotti é uma incógnita, mas a quebra do dogma mostra que a evolução dos clubes ecoou na CBF. A modernização é irreversível e deveria pavimentar o caminho para reconduzir o país a uma nova era de vitórias sustentáveis além dos gramados.

Leia também: “O goleador genial”, artigo de Augusto Nunes publicado na Edição 326 da Revista Oeste

E mais: “Seleção Brasileira: quem viu, viu”, por Guilherme Fiuza

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