Esquerda e direita ainda existem?

Segundo Hector Schamis, professor na Universidade Georgetown, esses conceitos não significam nada no século 21
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Esquerda e direita existem atualmente?
Esquerda e direita existem atualmente? | Foto: Reproduçao/Redes sociais

Atualmente, há “esquerda” e “direita” no mundo? Se houver, qual o significado desses termos? Segundo Hector Schamis, professor-adjunto do Centro de Estudos Latino-Americanos da Escola de Relações Exteriores da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos, essas ideias perderam a capacidade explicativa, a ponto complicar — e não facilitar — as conversas.

“E, pior ainda, contaminam e desorientam o debate”, afirmou o docente, em artigo publicado no portal argentino Infobae. “A consequência disso é anomia e desafeto — daí a agonia política.”

De acordo com o colunista, os conceitos resumem e organizam a realidade, sempre caótica, de forma a permitir a comunicação. “São recipientes de informações empíricas”, explicou. “Eles simplificam a complexidade e nos dizem rapidamente que tipo de fenômenos devem ser esperados ao usá-los.”

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Para que palavras como “esquerda”, “direita”, “democracia” e “autoritarismo” tenham significado, a conexão entre o termo e os casos que as ilustram deve ser inequívoca. Caso contrário, estaremos no território da ambiguidade.

A “esquerda”, por exemplo, é definida a partir da noção de que a desigualdade não pertence à ordem natural das coisas. “Pelo contrário, a desigualdade é entendida como o produto de um conjunto de relações de classes”, argumentou o colunista. “Essas devem ser dissolvidas ou pelo menos reformadas, para alcançar mais equidade na distribuição dos recursos materiais.”

Isso ocorre tanto à custa da liberdade quanto da própria equidade, supostamente defendida pelos “progressistas”. Conforme avalia Schamis, os governos instalados nos países da América Latina são exemplos disso.

“São ditaduras capturadas pelo crime internacional”, observou. “Nesses países, a pobreza se espalha e a desigualdade cresce, enquanto o Estado de Direito entra em colapso. E insisto nesta questão: ninguém que já se identificou com o genuíno progressismo considera essas ditaduras ‘de esquerda’. Veneno embrulhado para presente também mata.”

A “direita” conservadora, por sua vez, organiza-se segundo a ideia de ordem. E considera que as hierarquias e as assimetrias sociais são pré-políticas e devem ser preservadas, desde que garantam a ordem social. “Desde Ronald Reagan e Margaret Thatcher, contudo, o pensamento conservador relaxou seu paternalismo tradicional para abraçar o mercado como a arena fundamental da socialização — apesar da tensão intelectual e política com o liberalismo.”

Segundo o colunista, essa é a inconsistência lógica entre “direita” e “liberalismo”, a despeito das opiniões de autores conservadores que consideram esses termos como sinônimos. “Não surpreendente, a literatura sobre Reagan e Thatcher cunhou o termo ‘neoconservadorismo’ para examinar a peculiar — e instável — combinação de ordem tradicional e liberdade.”

“Fundamentais no Ocidente, as noções de conservadorismo e socialismo se perderam no debate de hoje, pois estamos imersos no ruído; há uma verdadeira cacofonia de categorias analíticas presumidas que, na verdade, acabam sendo usadas como epítetos para aqueles que ‘pensam’ de forma diferente”, argumentou o professor da Universidade Georgetown. “Enfatizo as aspas, porque poucos pensam de verdade, com capacidade para duvidar e desconfiar de suas próprias certezas, com vontade de mudar de ideia.”

Segundo Schamis, o “não debate” reside em falácias e na repetição incessante de clichês, que substituem a conversa real e produtiva. “Chamamos de ‘polarização’ o dogma que transita entre o politicamente correto e a superioridade moral — à esquerda e à direita”, ressaltou.

Isso é o oposto da ideia disseminada pelo filósofo francês Michel de Montaigne, que, certa vez, elogiou a “inconstância das belas almas” e sua flexibilidade diante da mudança. “Ele rejeitou a busca pela perfeição moral e tinha uma convicção inabalável na própria Justiça e na retidão”, lembrou o colunista.

Leia mais: “Democracia, riscos e liberdade”, artigo de Salim Mattar publicado na Edição 110 da Revista Oeste

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