João Amoêdo, o patrão do partido Novo

Os bastidores da sigla que já perdeu mais da metade de seus filiados
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O empresário João Amoêdo, um dos fundadores do Novo | Foto: Divulgação/redes sociais
O empresário João Amoêdo, um dos fundadores do Novo | Foto: Divulgação/redes sociais

*Por David Ágape, especial para a Revista Oeste

Os bastidores do partido Novo mostram o sonho de uma legenda diferente ruindo como um castelo de cartas. A sigla enfrenta hoje a maior crise em seus dez anos de existência, com a desfiliação em massa e acelerada pela expulsão de parlamentares e filiados do partido. As intrigas, que antes eram internas, se tornaram uma guerra aberta, e a roupa passou a ser lavada publicamente. 

De um lado, o empresário João Amoêdo, fundador e ex-presidente do Novo e sua ala mais leal — também chamada de “amoedista” —, que acreditam ser preciso um expurgo de bolsonaristas do partido. De outro, parte dos parlamentares eleitos pelo Novo, insatisfeitos com a direção da sigla. Muitos filiados só se mantêm no Novo em razão da  janela partidária, que os impede de sair sem perder o mandato. Mas, quando começou esse racha? Oeste conversou com ex-integrantes e fundadores do partido para entender o que está por trás dessa briga. 

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Os Inocentes do Leblon

Parte das encrencas no processo de criação do Novo é revelada por um dos fundadores da legenda e um dos primeiros dissidentes do partido, o engenheiro carioca Roberto Motta. Ele escreveu o livro Os inocentes do Leblon, em que descreve sua jornada dentro da instituição. Motta foi colega de Amoêdo no colegial e participou da criação do partido, mantendo-se atuante até a sua saída, em 2016.

Antes entusiasmado com a proposta do Novo, Motta disse que Amoêdo passou a conduzir o partido como uma empresa. “Em 2015, as decisões começaram a ser tomadas por pessoas que não tinham nenhuma familiaridade ou interesse em política”, explicou Motta.  “Me senti frustrado, mas tinha esperança que houvesse uma correção de rumo.”  A gota d´água ocorreu em 2016, quando o nome de Motta foi preterido na escolha à pré-candidatura à prefeitura do Rio de Janeiro, mesmo com a concordância unânime dos filiados. “Aí eu percebi que para mim o sonho tinha acabado, peguei o boné e saí”, lembra. 

Brigas e intrigas

Quem conhece de perto o empresário João Amoêdo, de 58 anos, descreve sua personalidade como a de uma pessoa solitária, individualista e que não gosta de ser contrariada. Por suposto ciúme de Romeu Zema, único governador eleito pelo Novo, em Minas Gerais, Amoêdo não compareceu à sua posse, iniciando o mal-estar no partido. 

As divergências se estenderam entre os parlamentares após discordâncias em temas como o voto impresso, o desarmamento — pautas inclusive que já foram defendidas por Amoêdo — e o impeachment do presidente Jair Bolsonaro.

Seguindo o clima de tensão, em junho deste ano, Amoêdo desistiu de concorrer à Presidência em 2022. A justificativa dada foi que não havia unidade no partido — a maioria da bancada do Novo no Congresso defendia uma votação interna entre o empresário e o deputado federal Tiago Mitraud (MG). Enquanto os apoiadores buscavam assinaturas para garantir a vaga de Mitraud, Amoêdo anunciou a desistência, alegando que o estatuto do partido previa a indicação de apenas um candidato. Mauricio Marcon,  o vereador do Novo mais votado em Caxias do Sul (RS) em 2020, foi expulso do partido por criticar a atitude de Amoêdo nas redes sociais, ao chamar as prévias de  “processo seletivo fake”.  Mas Marcon não foi o único a sofrer retaliações.

Em agosto, Amoêdo demonstrou insatisfação com alguns integrantes da legenda e disse que “políticos bolsonaristas” filiados ao Novo deveriam procurar uma nova legenda que os representasse. O comentário mobilizou um grupo de 11 filiados a entrarem com representação contra Amoêdo no Conselho de Ética. Após análise, o órgão, coordenado por Ronaldo Amaral, decidiu arquivar a ação, mas multou parte dos filiados por produzirem supostas “acusações falsas” e incitarem uma “corrente de linchamento” contra João Amoêdo. 

Seguindo o exemplo de Amoêdo, Moisés Jardim, ex-presidente do Novo e atual secretário de finanças do partido, também publicou em rede social críticas a três parlamentares do Novo. O deputado estadual Bernardo Bartolomeo (MG), o Bartô, por participar de uma manifestação ao lado de Bolsonaro; a deputada Julia Lucy (DF), que Jardim acusou de fazer “apologia ao crime”, e o deputado estadual Alexandre Freitas (RJ), que defendeu os policiais envolvidos em uma ação da polícia civil que levou à morte de 28 pessoas.

Em razão das críticas, Freitas foi expulso do partido pelo Conselho de Ética, acusado de atentar contra a democracia — mesmo destino de Bartô, Marcon e também de Ricardo Salles, expulso ainda em 2020 acusado de ter aceitado comandar o Ministério do Meio Ambiente no governo Bolsonaro sem comunicar o partido.

Freitas, que estava no Novo desde o início, diz que o partido admirava Amoêdo porque ele colocou dinheiro do bolso para a sua criação, mas hoje vê que tudo era apenas um projeto de poder pessoal.

“Foi a campanha publicitária mais barata da história. R$ 4 milhões do próprio bolso e o tempo e o dinheiro de dezenas de trouxas, incluindo eu, que contribuíram para o projetinho dele. Era tudo sobre ele”, disse Freitas.

Sobre a divergência em declarar oposição ao governo Bolsonaro, a principal reclamação de Amoêdo, Freitas diz que muitos prezam pelos valores que sempre defenderam, como a independência. “Se formos declarar oposição, vamos ter de deixar para trás o nosso argumento de que votamos em cima de ideias e não de pessoas. E é risível, porque, quando você olha o espectro de votação, o Novo é o que mais vota a favor do governo”, disse.

Desfiliação em massa

Hoje, o número de desfiliados do Novo supera o de filiados: cerca de 35,5 mil abandonaram o partido, enquanto 33,8 mil permanecem na sigla, expondo a maior crise dos seus dez anos de existência. O empresário Filipe Sabará, candidato à prefeitura de São Paulo pelo Novo no último pleito, foi expulso do partido em plena campanha eleitoral, acusado de mentir em seu currículo. Na época, Sabará afirmou que Amoêdo se considerava dono do Novo. “Dessa vez, João Amoêdo e seus ‘capangas’ pegaram uma pessoa honesta pela frente, que não vai aceitar injustiças e que vai até às últimas consequências para que todos saibam a verdade”, disse.

A candidatura de Sabará culminou na saída de outro quadro importante do partido: Diogo da Luz, ex-candidato a senador por São Paulo e um dos primeiros filiados do Novo. Da Luz conta que sua candidatura à prefeitura de São Paulo foi inexplicavelmente preterida em favor de Sabará. “Eu era postulante à candidatura de prefeito, mas, antes disso, estava fazendo um projeto que seria o programa do Novo de diretrizes para a cidade, e o melhor seria escolhido. De repente, escolhem uma pessoa que não cumpriu a exigência mínima, que era a experiência administrativa? Nessa hora percebi que tinha alguma coisa errada”, disse Da Luz, acrescentando que não recebeu justificativa para não ter sido escolhido.

Após fazer críticas ao processo de indicação de Amoêdo à Presidência, Da Luz também foi denunciado por Moisés Jardim, que exigia sua expulsão do Novo por infidelidade partidária. Da Luz rebateu dizendo que no final das contas era o próprio Jardim que fazia o que o acusava. Antes que o processo chegasse ao fim, Da Luz decidiu deixar o Novo. 

O ex-filiado acredita que boa parte dos parlamentares sairá na próxima janela partidária, entre março e abril do ano que vem, período em que a legislação permite a mudança de partido sem perda do mandato. Para ele, o futuro do partido é virar nanico, com João Amoêdo “brincando de fazer política sozinho”. 

O que diz o vice de Amoêdo

A última grande perda do Novo foi a saída do professor Christian Lohbauer, vice na chapa de João Amoêdo em 2018. Todo o projeto do partido, diz Lohbauer, foi minado por alguns poucos “iluminados” do diretório nacional, que ignoraram a opinião dos mandatários do Novo e decidiram pôr em prática a agenda de João Amoêdo. “Os integrantes do diretório nacional se acham iluminados”, afirmou Lohbauer. “Política é representação. O mandatário ser tratado como funcionário é uma invenção do partido Novo, uma invenção lunática”, disse. 

Lohbauer afirma que, a despeito das conquistas do Novo — como o fato de o governo Romeu Zema, em Minas Gerais, ser o mais bem avaliado do Brasil e a presença constante de parlamentares do partido entre os mais bem avaliados no Ranking dos Políticos —, a sigla entrou em derrocada por causa da sua administração. “Para mim, encerrou. Não vou emprestar o meu nome para uma agenda completamente diferente da que tínhamos montado desde que o partido foi registrado.” Independente da política partidária, Lohbauer tem intenção de continuar a fazer política em outras frentes, e seguirá observando se haverá oportunidade para “entrar no jogo” ou não.

Parlamentar anuncia possível saída

O deputado federal Alexis Fonteyne (SP) é um dos primeiros parlamentares do partido a revelar abertamente a intenção de sair do Novo. Ele diz que a possibilidade é real se Amoêdo não for expulso em breve e se o diretório nacional não for trocado. 

Segundo Fonteyne, ao contrário do que diz o diretório nacional, o partido não tem bolsonaristas, mas “amoedistas” que acreditam que Amoêdo é seu dono e que é um “mito”.

“Se o Amoedo não for expulso e renovar o diretório nacional, o Novo vai sangrar até se tornar um partido nanico e, provavelmente, não passará na cláusula de barreira”, disse.

O que diz o Novo

Em nota, o Novo informa que o partido registrou um crescimento acentuado de filiados até meados de 2019. Com a definição estratégica de abrir diretórios em poucas cidades, houve muitas desfiliações em municípios que não foram selecionadas ao longo dos meses seguintes. Somam-se a isso, a situação da pandemia e a postura de oposição do partido diante do governo federal, não aceita por parte dos filiados, causando o aumento de desfiliações. 

Quanto à saída de parlamentares, a nota diz ainda que o partido compreende que mandatários que não estejam alinhados às diretrizes do Novo se sintam desconfortáveis e queiram sair. “Não faremos objeção, até mesmo porque o Novo continuará firme com o posicionamento de oposição, pelo impeachment e na construção da terceira via que evite o retorno do Lula e do PT”, informou a nota do partido. “O partido continuará fazendo o que julga ser o certo para o Brasil, independente de impactos eleitorais”, finalizou.

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