Os novos censores

A maioria dos jornalistas brasileiros tem certeza de que só acontece aquilo que eles publicaram; o resto não existe
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Imagine se as pessoas acreditarem que há gente a favor de Bolsonaro e contra o Supremo?
Imagine se as pessoas acreditarem que há gente a favor de Bolsonaro e contra o Supremo? | Foto: Ronaldo Silva/Estadão Conteúdo

(J. R. Guzzo, artigo publicado no jornal Gazeta do Povo em 3 de maio de 2021)

Houve manifestações de rua em diversas grandes cidades do Brasil, neste dia 1º de maio, com o número de pessoas presentes variando de um lugar para outro — mais gente aqui, menos gente ali, mas na maioria das vezes em número suficiente para valer menção no noticiário. Mas, salvo uma curta notinha aqui, outra ali, e na maioria das vezes nada, os meios de comunicação eliminaram por completo o acontecimento da cobertura diária que publicaram no próprio dia 1º ou no domingo, o dia seguinte.

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Por que não saiu nada, ou quase nada, na maioria dos órgãos de imprensa? Porque as manifestações públicas eram de apoio ao presidente Jair Bolsonaro e às Forças Armadas, contra o STF e a corrupção, mais o resto do programa que se cumpre em eventos assim. Nos manuais de jornalismo em vigor hoje nas redações, esse tipo de acontecimento não pode ser publicado, como notícias de disco voador e aparições de Nossa Senhora de Fátima; os comunicadores decidiram que tais “conteúdos”, como se diz hoje, podem iludir o público na sua boa ingenuidade — e, portanto, é seu dever ético impedir que tais fatos cheguem ao conhecimento do povão. Imagine se as pessoas acreditarem que há gente a favor de Bolsonaro e contra o Supremo? Não pode: é um claro desrespeito à religião oficial da mídia. Não é notícia; é o mal. O mal tem de ser combatido. E por aí vamos.

A partir dessas convicções, o noticiário — e não apenas o político — passou a ser um animal diferente: só devem ser passados para o conhecimento do público, segundo o regime hoje em vigor nas redações brasileiras, os fatos que os jornalistas consideram apropriados para o conhecimento do leitor, ouvinte ou espectador. Todo o resto deve ser eliminado das edições. É uma das mais extraordinárias operações de censura jamais montadas na imprensa nacional: quem faz a função dos censores são os próprios jornalistas.

De mais a mais, segundo decidiram os meios de comunicação, o jornalismo de hoje tem de ser, obrigatoriamente, uma atividade política, e os jornalistas, em consequência, devem agir como militantes partidários ao exercer a sua atividade profissional.

Têm de obedecer aos mandamentos desse partido único que apoia o STF, Lula e seus amigos, o Psol e outros sócios do PT, o “distanciamento social”, o “fique em casa”, os privilégios do alto funcionalismo público, a agricultura familiar, as invasões de propriedade — mais o arrastão do racismo-feminismo-índios etc. etc. etc. que todos conhecem tão bem.

Abolir as realidades por decreto, como está fazendo a mídia brasileira, pode dar certo ou dar errado. Em Cuba dá certo. Na campanha pelas eleições diretas no Brasil deu errado. O problema para os novos censores, aí, é o complexo do galo — acha que o Sol nasce porque ele canta. A maioria dos jornalistas brasileiros tem certeza de que só acontece aquilo que eles publicaram; o resto não existe. Qualquer despropósito vira verdade se aparece no noticiário, e nenhuma verdade existe se não aparece. Tudo bem — mas, frequentemente, as realidades acabam mostrando a sua cara. Na imprensa soviética, o Muro de Berlim não caiu. O problema, como se sabe perfeitamente, é que ele caiu.

Leia também: “A histeria passa. Philip Roth fica”, artigo de Rodrigo Constantino publicado na Edição 58 da Revista Oeste

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