Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial | Foto: Montagem Revista Oeste/Laurent Gillieron/EPA-EFE/Shutterstock
Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial | Foto: Montagem Revista Oeste/Laurent Gillieron/EPA-EFE/Shutterstock

A aristocracia arrogante de Davos

Por mais brilhantes que sejam esses ícones da elite global, o conhecimento real está pulverizado na sociedade, precisa evoluir de forma mais livre e natural, como o próprio sistema capitalista

O Fórum de Davos está acontecendo nesta semana. Seu fundador, Klaus Schwab, disse, com forte sotaque alemão: “Sejamos claros. O futuro não está simplesmente acontecendo. O futuro é construído por nós, por uma poderosa comunidade como vocês aqui nesta sala. Nós temos os meios para melhorar o estado do mundo. Mas duas condições são necessárias. A primeira é agirmos todos como stakeholders de comunidades maiores, para que não atendamos apenas aos próprios interesses, mas para que possamos servir à comunidade, o que chamamos de responsabilidade do stakeholder. E a segunda é que colaboramos. E essa é a razão para que vocês encontrem muitas oportunidades aqui nas reuniões, para se engajar em iniciativas orientadas para impactos concretos, para fazer progresso relacionado a questões específicas da agenda global”.

Esse breve trecho expõe, de forma clara e assustadora, toda a arrogância dessa elite ambiciosa que se julga detentora do direito de governar o mundo de cima para baixo. Schwab é autor de um livro chamado The Great Reset, em que diz abertamente como é importante esse grupo de “brilhantes” explorar a pandemia para remodelar o capitalismo mundial. Cheguei a escrever aqui na Revista Oeste um texto sobre isso, mostrando o desejo de controle dessa turma globalista, que pretende impor um governo mundial por meio de entidades supranacionais sem qualquer accountability, uma espécie de “democracia sem voto”. O voto, afinal, envolve o povo, e isso não pode ser tolerado por uma elite tão especial, abnegada e inteligente.

Foto: Reprodução

Como alertou Mencken, “o desejo de salvar a humanidade é quase sempre um disfarce para o desejo de controlá-la”. A senha desse controle está na palavra “stakeholder”, a nova obsessão dos globalistas. Em vez de executivos responderem diretamente aos acionistas (shareholders) da empresa, ou seja, aos donos da empresa, eles devem sopesar os “interesses” dos tais stakeholders, i.e., de toda a comunidade impactada de alguma forma pelas atividades da companhia. Dessa forma, esses executivos deveriam levar em conta os anseios dos funcionários, dos clientes e até mesmo do “planeta” na hora de tomar suas decisões estratégicas. Em termos práticos, os executivos devem olhar para “toda a comunidade” e aplicar a “vontade geral” em suas ações. Quem define tais interesses? A patota de Davos, ora bolas!

Toda a agenda global da ONU está repleta dessa visão arrogante. Esse clubinho elitista define as pautas “relevantes” e o mundo todo precisa seguir. O ESG, essa afetação em nome do ambiente, do social e da governança, não passa de uma forma mascarada de impor essa agenda. Não é mais necessário passar pelos Congressos dos países, obter o crivo popular, pois tais “acordos globais” foram costurados e assinados por tecnocratas e burocratas, e chancelados por presidentes. O Protocolo de Kyoto, sobre questões climáticas, por exemplo, nunca foi chancelado pelo Congresso norte-americano, mas passou a ditar as diretrizes das decisões dos governos de diferentes partidos. É globalismo na veia!

O que o mundinho de Davos não entende, ou não quer entender, é que por mais brilhantes que sejam esses ícones da elite global, o conhecimento real está pulverizado na sociedade, precisa evoluir de forma mais livre e natural, como o próprio sistema capitalista, o livre mercado, a globalização. O esforço de controlar e administrar esse processo é fruto de “arrogância fatal”, como chamou o economista austríaco Hayek. Tal como a linguagem, essas instituições são formações naturais, não a criação de um design inteligente. E elas precisam da liberdade para fluir, evoluir, corrigir erros, aprimorar-se. Se depender dos globalistas arrogantes, esse processo será interrompido, para se colocar em seu lugar uma pauta definida de cima para baixo.

Em essência, eis o que está em disputa aqui: a visão humilde e liberal de que o progresso ocorre muito mais de baixo para cima, de forma espontânea, versus a visão arrogante de que cabe a uma elite “esclarecida e benevolente” governar o planeta, sem a necessidade de responsabilização perante o povo. Mas tudo isso em nome do povo, claro, para atender a seus próprios interesses, como todo regime totalitário, como toda utopia coletivista, como todo projeto parido da crença vaidosa de Rousseau na “vontade geral”, que seria de alguma forma captada por ele mesmo, por algum líder poderoso capaz de interpretar o que cada um de nós realmente deseja, e talvez nem saiba!

Quanto mais o Estado planeja as coisas, mais difícil o planejamento fica para os indivíduos

O antídoto para tal mentalidade foi dado por vários liberais clássicos, entre eles o já mencionado Prêmio Nobel de Economia. Para Hayek, a liberdade inclui também a liberdade de errar, e, como o conhecimento é limitado e as preferências são subjetivas, somente a ausência de coerção permite o eterno aprendizado e o progresso humano. A razão humana não pode prever ou deliberadamente desenhar seu próprio futuro. O avanço consiste na descoberta do que fizemos de errado. Uma restrição grande à liberdade individual reduz a quantidade de inovações e a taxa de progresso da sociedade.

Não temos como saber anteriormente quem irá inventar o quê. O conhecimento é disperso, e também evolui. Nenhum ser seria capaz de concentrar algo perto da totalidade do conhecimento existente, e, ainda assim, este está sempre aumentando. Somente a redução drástica da coerção estatal pode garantir a evolução do conhecimento humano e o consequente progresso. Quanto mais o Estado planeja as coisas, mais difícil o planejamento fica para os indivíduos.

Hayek considerava que a liberdade fica muitas vezes ameaçada pelo fato de que leigos delegam o poder decisório em certos campos para os “especialistas”, aceitando sem muito questionamento suas opiniões a respeito de coisas de que eles mesmos sabem apenas um pequeno aspecto. Adotar uma postura de maior ceticismo, questionando até mesmo os especialistas nos assuntos, é fundamental. Basta pensar nos incríveis erros dos “especialistas” durante a pandemia, tudo em nome da ciência, para perceber a importância dessa humildade e desse ceticismo.

A maioria das vantagens da vida em sociedade, especialmente nas formas mais avançadas que chamamos de civilização, está no fato de que os indivíduos se beneficiam de mais conhecimento do que têm consciência. Seria um erro acreditar que, para atingir uma civilização superior, temos apenas de colocar em prática as ideias que nos guiam. Se queremos avançar, devemos deixar espaço para uma revisão contínua das nossas concepções presentes e ideais que serão necessários por novas experiências. Portanto, a liberdade é essencial para darmos espaço para o imprevisível.

É porque cada indivíduo sabe tão pouco e, em particular, porque raramente sabemos quem de nós sabe melhor que confiamos nos esforços competitivos e independentes de muitos para o surgimento daquilo que poderemos querer quando olharmos. Mesmo que humilhante para o nosso orgulho, devemos admitir que o avanço ou mesmo a preservação da civilização dependem de muitos “acidentes” que ainda acontecerão.

Para Hayek, devemos ter em mente que fazer o melhor conhecimento disponível em um determinado momento o padrão compulsório para todo o nosso futuro talvez seja a maneira mais certa de impedir o surgimento de novo conhecimento. Estamos sempre aprendendo. Somente a liberdade individual preserva isso. A aristocracia de Davos quer impedir justamente isso. Quer usar sua “sabedoria”, a fusão das “mentes brilhantes” reunidas naquelas salas, para desenhar todo o modelo de sociedade de cima para baixo, tornando a liberdade individual algo dispensável, enrijecendo as estruturas sociais.

Para concluir, podemos usar outro liberal, o francês Raymond Aron, que apontou a principal divergência entre liberais e socialistas: “O liberal é humilde. Reconhece que o mundo e a vida são complicados. A única coisa de que tem certeza é que a incerteza requer a liberdade, para que a verdade seja descoberta por um processo de concorrência e debate que não tem fim. O socialista, por sua vez, acha que a vida e o mundo são facilmente compreensíveis; sabe de tudo e quer impor a estreiteza de sua experiência — ou seja, sua ignorância e arrogância — aos seus concidadãos”. A aristocracia globalista de Davos não passa de uma nova casta socialista, em que pese seu discurso em prol do “capitalismo controlado”. São engenheiros sociais, e como tais devem ser combatidos por quem tem apreço pela liberdade.

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