Desinformação

A PEC jamais correu risco nenhum na vida real, e quem pensou que corria não estava sabendo de nada
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Plenário do Senado Federal | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado
Plenário do Senado Federal | Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado

(Por J.R. Guzzo, publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 5 de dezembro de 2021)

A nova lei dos precatórios, que basicamente permite ao Estado pagar em 2022 menos do que deveria por suas dívidas já vencidas na Justiça, é um desses monumentos à chatice que só o Congresso Nacional consegue colocar de pé. É, também, o típico assunto de jornalista. Tem de ser tratado nas primeiras páginas e no horário nobre, porque é questão carimbada como “importante”, e no fundo é importante mesmo — mas a verdade é que nem as mães dos jornalistas, as maiores fãs de tudo o que eles escrevem ou dizem, têm animo para conversar sobre isso com os filhos.

Chato ou não, porém, é tema (ou “pauta”, como se diz hoje) em relação ao qual o público tem direito de ser bem informado. E o fato é que o público foi, em geral, mal e porcamente informado sobre essa história toda, do começo ao fim. É um caso bem simples. Ao longo de toda a evolução do projeto dos precatórios, os leitores, ouvintes e telespectadores receberam uma notícia-chave, dentro da colossal maçaroca de “conteúdo” que lhe foi jogada em cima pela mídia a respeito do assunto: essa PEC iria encontrar dificuldades imensas para ser aprovada. Provavelmente não seria.

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Se passasse pela Câmara, não passaria nunca pelo Senado. Enfim: não vai ter PEC, como não iria ter golpe. O problema, aí, é que aconteceu exatamente o contrário. A lei dos precatórios foi aprovada pela Câmara, sem problema algum. E no Senado, onde não passaria nunca, foi aprovada por 61 votos a 10. Não foi, como se vê, por dois ou três votos de diferença — foi uma surra de 6 a 0.

Até cinco minutos antes da votação, estavam dizendo ao público que a PEC corria os piores riscos. Feita a votação, dá 61 a 10. Ou seja: a PEC jamais correu risco nenhum na vida real, e quem pensou que corria não estava sabendo de nada. (No seu inquérito sobre “fake news”, o ministro Alexandre Moraes até que poderia, quem sabe, decretar que isso é delito de “desinformação”. Já imaginaram?).

Deixe-se de lado, aqui, os méritos e deméritos relativos da lei dos precatórios, que com certeza dão base para formidáveis embates no terreno da teoria econômica e da boa gestão das contas públicas. O fato central, no mundo das realidades imediatas, é que a nova lei faz sobrar mais de US$ 100 bilhões no orçamento federal do ano que vem — e que esse dinheiro permite ao governo, tranquilo, pagar seu ambicioso programa de doações de R$ 400 por mês à população no ano eleitoral de 2022.

Quer dizer: o que havia, mesmo, era torcida para que os abonos sociais ficassem sem recursos. Isso não é boa informação.

Leia também: “Precatórios: mais uma bizarrice made in Brazil”, reportagem publicada na Edição 89 da Revista Oeste 

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9 comentários Ver comentários

  1. Porque só esquerdistas podem fazer doação e liberais não?
    Sugestão para J.R. Guzzo: sou de SP e, de cada 100 paulistas, talvez apenas um saiba o nome dos atuais senadores de SP (apenas 1 eleita pelo voto e, os outros 2, suplentes).

  2. Prezado Guzzo.
    Não é de ontem recente nem muito menos de hoje, que a maioria da impressa, e principalmente a imprensa mainstream, utiliza a tragédia muito mais do que a virtuosidade para comprar sua audiência. Tanto é assim que a queda de um avião atraí muito mais leitores do que um prêmio Nobel; essa é uma de nossas características.
    Acrescente-se a necessidade de também derrubar o Governo que a vem impedindo de manter o mesmo nível de suporte financeiro quanto aos que os sistemas socialistas-comunistas anteriores a habituou.
    O que nos salva são as mídias novas como essa Revista, parte das redes sociais, e os cidadãos íntegros que atuam como jornalistas, com foco no que os fatos levam a acreditar ou a constatar.
    O resto é parte do caráter baixo de indivíduos que, associados a uma baixíssima instrução, é mal compensado por uma única, exclusiva e indevida formação doutrinária à busca de dinheiro.
    Muito triste!

  3. É Guzzo. Hoje, essa imprensa e seus jornalistas são mais torcedores e mitantes do que os próprios chefes de partidos. Os partidos não conseguiriam formar seus militantes com tanta competência quanto os novos consórcios de imprensa hoje os formam.

  4. Um bom argumento para se utilizar em futuros debates. Não sei como a esquerda votou nesse assunto da PEC dos precatórios, certamente foi voto vencido. Tem que jogar na cara desses esquerdistas todos essas iniciativas para fazer barrar a ajuda de RS 400,00 para o próximo ano.

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