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Coronavírus — Brasil

O desrespeito grosseiro ao cronograma da vacinação não é novidade

Episódios de desrespeito aberto ao cronograma já ocorreram em mais de dez Estados; na próxima contagem, é possível que a fraude consiga atingir todos os 27

Reginaldo Martins Prado, prefeito de Candiba (BA), ao furar a fila de vacinação
Reginaldo Martins Prado, prefeito de Candiba (BA), ao furar a fila de vacinação

J.R. Guzzo

Publicado no jornal O Estado de S.Paulo, em 24 de janeiro de 2021

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O início da vacinação em massa contra a covid deveria ser um momento de esperança, de apoio aos que têm de ser imunizados com mais urgência e, em geral, de solidariedade e espírito público. Não está sendo assim. Em vez disso, mal foi aplicada a primeira dose, começaram a estourar por todo o País denúncias de desrespeito grosseiro ao cronograma da vacinação, com os que mandam e influem na máquina estatal furando a fila em favor de si mesmos, de parentes, de amigos e de amigos dos amigos.

Pensando bem, a pergunta mais adequada diante do que está acontecendo é a seguinte: qual a novidade? Seria mesmo impossível, diante dos usos, costumes e vícios da casta superior que governa de fato este país, imaginar que essa gente aceite a ideia de que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e deveres – e que, portanto, todos deveriam cumprir as regras adotadas para a aplicação progressiva da vacina. Na sua cabeça, as pessoas não são iguais.

Ao contrário: o Brasil, para eles, se divide entre os que têm crachá de autoridade em qualquer coisa que se relacione com “governo”, e os que não têm. Eles têm. Então, com a maior naturalidade do mundo, tomam a vacina na frente dos outros. Por que raios os donos do aparelho público e os que influem nele iriam respeitar as regras da vacinação se, no resto do tempo, não respeitam regra nenhuma? É a lei do “sabe com quem está falando?”, mais forte no Brasil que todos os 250 artigos da Constituição Cidadã juntos.

Episódios de desrespeito aberto ao cronograma já ocorreram em mais de dez Estados; na próxima contagem, é possível que a fraude consiga atingir todos os 27. Em Manaus, aproveitando mais uma vez os poderes de mini-ditador que ele e milhares de outros chefetes ganharam com a covid, o prefeito teve um surto: baixou decretos nomeando pelo menos dez médicos como “gerentes de produto” – isso mesmo, “gerentes de produto” – e com isso todos puderam ser vacinados logo no primeiro dia. Mais: proibiu a divulgação do que tinha acabado de fazer – como se Manaus fosse um território com leis diferentes das do Brasil, no qual o prefeito tem direito de fazer censura oficial. Com a intervenção do Ministério Público, achou melhor baixar o facho – mas as vacinas, à essa altura, já estavam aplicadas.

Em São Paulo, médicos da Prefeitura brigam em público com médicos do Estado, acusando-se mutuamente de furar a fila para tomar a vacina; até estudantes de medicina entraram nesse bonde e foram vacinados como soldados da “linha de frente”. Uma secretaria da Saúde acha que a outra secretaria da Saúde está lhe passando a perna; reclamam que o envio das doses não está equilibrado. Na Bahia e em Sergipe, prefeitos de cidades do interior, que não têm nenhum direito a passar na frente de ninguém, mas têm o controle sobre as doses entregues a eles, foram os primeiros a se vacinar; como desculpa, disseram que estavam “dando exemplo”, para “incentivar a população” a tomar a vacina. Que vacina? As doses que chegaram já foram consumidas por eles próprios e por quem mais tem carteirinha.

Em Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro e Distrito Federal, pelo menos, os procuradores de Justiça investigam safadezas parecidas – políticos, médicos recém nomeados, um gerente de informática e até um fotógrafo foram observados furando fila. E a vacinação dos milhões de brasileiros que não têm nada a ver com o serviço público? Para esses ainda “não há data marcada”. Que esperem: autoridades, médicos que distribuem as doses da vacina e outros viajantes da primeira classe estatal estão “dando exemplo” e consumindo os estoques disponíveis.

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10 comentários
  1. Ayr De Almeida Gosch
    Ayr De Almeida Gosch

    No Brasil de hj todo político com mandato foi eleito. Será que suas atitudes bizarras e egoísticas são traços individuais de personalidade ou expressões do inconsciente coletivo de nossa sociedade?? Ainda mais quando se repete no Brasil todo….Talvez o buraco seja mais embaixo…..

  2. Paulo Cunha
    Paulo Cunha

    Esse déspotinha bananeiro, ao acordar pela manhã, sacha que é deus. No final do dia, tem certeza. Triste Brasil e seus imbecís mentecaptos. Acho que uns 30 dias de cana ajudariam….

  3. Paulo Mascarin
    Paulo Mascarin

    é legal ver isso acontecer e após acharem que estão imunizados e pegarem a Covid posteriormente…será que as prefeituras e governos estarão monitorando cada vacinado para entender de fato a eficácia…os números nos testes de laboratórios nos deixaram com essa dúvida.

  4. Davilson Gomes Miranda Jr
    Davilson Gomes Miranda Jr

    Deixem eles tomar na frente, são as nossa cobaias.

  5. Alvaro Luiz Devecz
    Alvaro Luiz Devecz

    Tomara que esses maus cidadãos que furaram as filas tomem uma rebordosa com as reações, que os deixam muitos anos debilitados para ver se aprenderam a respeitar os outros!
    Bando de calhordas.

  6. AUGUSTO C P FURTADO
    AUGUSTO C P FURTADO

    Deus me perdoe, mas se essa vacina der zebra, não considerem castigo de Deus; Deus não castiga, ele apenas julgará.

  7. Paulo Renato Versiani Velloso
    Paulo Renato Versiani Velloso

    Se quiserem passar à minha frente, fiquem à vontade. Faço questão em ser o último a ser vacinado, isso se eu resolver a adotar esse tipo de tratamento experimental. Vacinem-se, cambada de imbecis!

    1. Maria Regina Ferreira Da Luz
      Maria Regina Ferreira Da Luz

      Estou doando as minhas doses também.

    2. Cláudio Chaves Vieira
      Cláudio Chaves Vieira

      O meu lugar, também, numa suposta fila, está à disposição de quem quiser se arriscar. Eu estou fora dessa maluquice!

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