O que Porto Feliz tem a ensinar a São Paulo?

A experiência de sucesso no combate ao coronavírus no interior paulista escancara a ineficiência da gestão pública na maior cidade do país
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A experiência de sucesso no combate ao coronavírus no interior paulista escancara a ineficiência da gestão pública na maior cidade do país

Porto Feliz - cloroquina
Praça da Matriz na cidade de Porto Feliz (SP) | Foto: Reprodução/Prefeitura de Porto Feliz

Enquanto o prefeito da pacata cidade de Porto Feliz, Cássio Prado (PTB), se preocupou em enfrentar a doença e iniciou já em fevereiro reuniões de planejamento no sistema de saúde para combater a chegada do coronavírus, o prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), apostou na rigidez do isolamento social para regular a sociedade. A estratégia de Covas baseou-se em provar que o confinamento da população iria deter a epidemia.

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Porto Feliz, cidade de 53 mil habitantes na região metropolitana de Sorocaba (SP), entendeu que para conter os avanços da covid-19 era preciso agir rápido e mais, agir com a lógica que permeia a medicina: como em todo e qualquer tratamento, a intervenção precoce em uma doença pode evitar mortes. O prefeito Cássio Prado, que é médico-cirurgião, contou que desde março já distribuiu gratuitamente mais de 1.500 kits com os medicamentos cloroquina, ivermectina e azitromicina a pacientes em estágio inicial da doença, sempre com prescrição médica.

Leia também: “O perigo do debate político sobre a cloroquina” 

Já em São Paulo, cidade com 12 milhões de habitantes, o prefeito Bruno Covas penou para definir medidas que, ou foram logo abandonadas em questão de dias por absoluta ineficiência, ou foram tomadas tardiamente, agravando os efeitos da pandemia, ou, pior ainda, nem sequer foram tomadas. A campanha #FiqueemCasa e #trancatudo não evitou a morte de mais de 8 mil pessoas só na cidade de São Paulo. Gastaram-se milhões de reais na construção de hospitais de campanha, na montagem de leitos de UTI e na compra de respiradores — medidas importantes para equipar o sistema de saúde, sem dúvida. Mas, não se sabe se por questões político-ideológicas, o investimento na intervenção precoce no tratamento de pacientes com covid-19 não foi prioridade na cidade epicentro da pandemia no país.

Mas, afinal, o que a cidade pequena tem a ensinar à metrópole?

A live promovida pelo jornalista Alexandre Garcia e pelo grupo de médicos Covid-19 – DF em 26 de junho reuniu profissionais de diferentes especialidades para falar sobre o tratamento precoce no combate à pandemia. Durante a live, o prefeito Cássio Prado compartilhou a experiência de sucesso na cidade:

• O sistema de saúde adotou os protocolos médicos de Madri, na Espanha, de Bérgamo, na Itália, e de Marselha, na França. “Desde 28 de março, quando foi confirmado o primeiro caso, nós começamos com o tratamento precoce de todos os pacientes com sintomas leves da covid-19.”

• Já foram distribuídos gratuitamente mais de 1.500 kits com os medicamentos cloroquina, ivermectina e azitromicina a pacientes em estágio inicial da doença, sempre com prescrição médica. “E, desde então, entre todos aqueles tratados precocemente, ninguém evoluiu para a intubação. Os três óbitos que tivemos foram de pacientes que não fizeram o tratamento precoce.”

• Além de tratar os doentes infectados, optou-se por tratar também os contactantes, ou seja, pessoas que tiveram contato com pacientes contaminados pela covid-19. Os profissionais da saúde também tomaram a medicação de forma profilática, ou seja, como medida preventiva.

• Em um bairro da cidade, foi escolhida uma quadra inteira para fazer a profilaxia dos moradores. “Demos ivermectina [vermífugo utilizado no combate a doenças causadas por vermes e parasitas] para toda essa quadra, perto de 290 moradores. Nas quadras ao redor, houve casos de covid-19; nessa quadra, nenhum caso.”

• Alojamentos inteiros na cidade que tiveram casos de covid-19 foram tratados com os protocolos precoces, e nenhum funcionário que trabalhava nesses locais desenvolveu a doença.

• Porto Feliz foi uma das primeiras cidades a exigir o uso de máscara, já no final de março.

Veja também: “Pico de mortes por covid-19 no Brasil já passou”

Em São Paulo, em vez de focar no combate à doença, o prefeito optou por implementar políticas de gabinete para restringir a circulação de pessoas e determinar o fechamento de estabelecimentos. Algumas das tentativas para manter o isolamento social apenas agravaram o alastramento do vírus na maior cidade do Brasil. No que se refere ao tratamento precoce, o último relatório técnico, datado de 12 de junho e publicado no site da prefeitura, não recomenda o uso da hidroxicloroquina e cloroquina para casos leves e moderados da doença. A seguir, algumas medidas tomadas pelo prefeito Bruno Covas ao longo dos últimos meses:

• A decisão de reduzir a frota de ônibus na cidade provocou aglomeração tanto nos pontos quanto no interior do transporte público, o que ajudou a levar a covid-19 para a periferia.

• A prefeitura tentou diminuir o número de carros em circulação bloqueando avenidas — a medida foi suspensa em dois dias.

• A versão de um rodízio ampliado, que deixou 50% da frota impedida de rodar na cidade, durou uma semana e aumentou ainda mais a aglomeração no transporte público, usado pela maior parte da população de baixa renda para trabalhar todos os dias.

• O governo levou 50 dias para tornar obrigatório o uso de máscara no transporte, e depois nas vias públicas.

• Para especialistas ouvidos por Oeste, a antecipação de feriados como o de Corpus Christi apenas estimulou o trânsito de pessoas da capital para o interior, espalhando a contaminação do vírus para regiões que estavam com a epidemia sob controle.

• Apesar de o prefeito dizer que as estatísticas sobre o combate ao coronavírus na capital paulista são transparentes, a divulgação dos números da covid-19 na cidade é marcada por falhas e contradições. Só para ficar em um exemplo, em 27 de maio Bruno Covas informou que, no município de São Paulo, havia 51.852 casos confirmados de coronavírus e 53.541 pacientes curados. Ou seja: misteriosamente, o número de curados foi bem superior ao de casos confirmados.

• Embora a prefeitura de São Paulo nunca tenha proibido o uso da cloroquina, nem de sua forma menos tóxica, a hidroxicloroquina, de acordo com o relatório técnico publicado pela Secretaria Municipal da Saúde em 12 de junho, o tratamento da covid-19 com o uso da cloroquina e hidroxicloroquina não é recomendado para casos leves e moderados da doença.

O resultado das diferentes gestões no combate ao coronavírus traduz-se em números: em São Paulo, mais de 8 mil pessoas morreram por conta da covid-19. Em Porto Feliz, foram registrados três óbitos até o momento. Relativamente, se a cidade do interior paulista tivesse os mesmos 12 milhões de habitantes da capital, o saldo de mortes seria de 680 pessoas. Ou seja, a gestão de Bruno Covas mostrou-se quase 12 vezes pior no combate à pandemia do que a do prefeito Cássio Prado.

Enquanto uma vacina capaz de imunizar a população não chega ao mercado, será preciso combater o vírus chinês com as armas disponíveis. Para quem acredita que o isolamento social e a construção de hospitais de campanha com leitos fantasma evitaram uma tragédia ainda maior na capital paulista, o exemplo de Porto Feliz indica que o caminho pode estar no investimento do tratamento pré-hospitalar como modo de atacar a doença em suas fases iniciais, evitando a progressão para as formas graves, que são mais custosas para o sistema de saúde, além de minimizar o risco de morte do paciente.

 

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