A resiliência da indústria

Como um dos setores mais importantes da economia brasileira se manteve de pé e agora impulsiona a retomada no pós-pandemia
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Setor industrial vem demonstrando sua força e alavancando a reação da economia brasileira em 2021
Setor industrial vem demonstrando sua força e alavancando a reação da economia brasileira em 2021 | Foto: Canva

Quando a pandemia da covid-19 começou a causar estrago na economia brasileira, em março do ano passado, um clima de desesperança e temor generalizado em relação ao futuro se abateu sobre praticamente todos os segmentos. Não foi diferente com a indústria, um dos setores mais estratégicos do país, que literalmente parou suas máquinas no primeiro semestre de 2020. Um episódio emblemático do tamanho do tombo foi o anúncio da Ford, no início deste ano, de que encerraria a fabricação de automóveis no Brasil. A produção foi imediatamente interrompida em Camaçari (BA) e Taubaté (SP), e apenas algumas peças continuaram a ser fabricadas nos meses seguintes para sustentar os estoques destinados às vendas de reposição. A Ford foi a primeira montadora de automóveis a se instalar no Brasil, em 1919.

Como se não bastasse o impacto econômico da crise sanitária causada pela pandemia, o setor industrial sofre com a insegurança jurídica que se alastra pelo país como se fosse um vírus, afugentando potenciais investidores e dificultando a vida do empreendedor. A burocracia tipicamente brasileira, o gigantismo de um Estado ineficiente, a carga tributária escorchante e a falta de reformas estruturais que ajudariam a destravar o ambiente de negócios são outros problemas cruciais que agravam o cenário econômico — e, particularmente, o do setor industrial.

Apesar de tudo isso, em meio à maior crise sanitária em mais de um século e diante de tamanha instabilidade e incerteza, o que vem chamando atenção de economistas e analistas do mercado é justamente a resiliência da indústria nacional. De acordo com dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), para cada R$ 1 produzido pelo setor são gerados R$ 2,40 na economia como um todo. Responsável por 21,4% do Produto Interno Bruto (PIB), 69,2% das exportações de bens e serviços e 69% do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento do país, além de 33% dos tributos federais (exceto receitas previdenciárias), o segmento vem consolidando a sua própria retomada — que pode ser o prenúncio da recuperação econômica do Brasil. Os dados mais recentes são auspiciosos.

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No primeiro trimestre de 2021, ainda segundo a CNI, a atividade industrial teve um crescimento de 6,5% em relação ao mesmo período de 2020. Nos três primeiros meses do ano, o faturamento da indústria registrou alta de 7,5% (2,2% só em março). As horas trabalhadas aumentaram 0,9% na comparação com fevereiro. A geração de empregos no setor subiu pelo oitavo mês seguido (0,3%). A utilização da capacidade instalada teve alta de 0,4%, alcançando 81,1%. Em relação a março do ano passado, o nível de uso do parque fabril está 4,8 pontos percentuais maior.

No fim de maio, a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) anunciou que o faturamento do segmento deu um salto de 72,2% em abril deste ano, na comparação com o mesmo período de 2020. A receita líquida, por outro lado, caiu 3,8% em relação a março de 2021, mas fechou o mês totalizando R$ 16,6 bilhões. O balanço mais recente do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgado pelo Ministério da Economia, apresenta um saldo positivo entre contratações e demissões em abril, com a geração de 120.935 novos empregos com carteira assinada no Brasil. Destes, 19.884 foram gerados pela indústria, somente atrás do setor de serviços (57.610) e da construção civil (22.224). Somente no setor agropecuário, foram criadas 11.145 vagas formais no período. Dados da Fundação Getulio Vargas mostraram que o Índice de Confiança da Indústria (ICI) subiu 0,7 ponto em maio na comparação com abril, chegando aos 104,2 pontos. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apesar de a produção industrial ter recuado 1,3% em abril em relação a março, o setor acumula crescimento de 10,5% no ano e de 1,1% nos últimos 12 meses. Na comparação com abril de 2020, a alta é de 34,7%.

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“O efeito da segunda onda [da covid-19] foi muito menor porque a gente aprendeu como funciona. Como dá para vender e manter a atividade apesar das restrições”, afirma a Oeste o diretor-executivo de economia e estratégia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), André Rebelo. Marcelo Azevedo, gerente de análise econômica da CNI, também vê uma grande diferença entre o panorama atual e o caos enfrentado no início da pandemia. “Por mais que, do ponto de vista sanitário, tenhamos um número maior de mortes e uma situação mais complicada, naquele momento houve uma paralisação total da atividade. Foi proibida de abrir. Teve uma necessidade de algumas mudanças nas linhas produtivas para manter o distanciamento, como dispensa de funcionários de grupos de risco, mudanças nos processos… Isso tudo fez com que o setor praticamente parasse em abril do ano passado. Não há necessidade de uma nova adaptação neste ano”, explica, em entrevista a Oeste. “A maioria das medidas que estão sendo tomadas não atingiram a indústria tão fortemente quanto no ano passado. As proibições ficaram mais restritas aos comércios e serviços. Essa combinação vem permitindo que a indústria mantenha uma capacidade mais alta de atividade do que no ano passado e, não à toa, a confiança do empresário e as expectativas seguem em níveis bons, muito diferente do mesmo período do ano passado, em que a preocupação era imensa.”

Acertos do governo

Entre os motivos pelos quais a indústria vem demonstrando força, segundo os especialistas ouvidos por Oeste, estão as ações do governo federal para evitar o colapso. “O governo acertou quando fez a flexibilização das regras trabalhistas permitindo a suspensão de contratos, redução de salário e jornada, com o complemento parcial de verbas públicas dos salários. Isso fez com que a gente sofresse menos perda de emprego formal e pudesse manter o poder de compra desses trabalhadores”, destaca Rebelo. “A outra coisa foi em relação ao capital de giro das empresas. Primeiro o governo atrasou o recolhimento de alguns impostos federais e esse dinheiro ficou nas empresas. Isso ajudou na travessia da fase mais aguda da pandemia. E depois fez linhas de crédito especiais, principalmente para pequenas empresas. Por fim, o auxílio emergencial colocou demanda nas famílias. O governo injetou quase R$ 300 bilhões, e isso virou consumo e gastos das famílias, o que fez a roda da economia voltar a girar. Com isso, entramos no ano com a indústria e o varejo em níveis acima do que estavam antes da pandemia.”

pib do brasil
Flexibilização das regras trabalhistas e linhas de crédito especiais foram determinantes para a economia voltar a rodar em alta velocidade, segundo especialistas. Foto: Divulgação/Agência Brasil

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Azevedo afirma que foi necessário manter a atividade em níveis mais altos para suprir estoques baixos em alguns setores. “A recuperação forte foi muito acelerada e aconteceu com uma certa descoordenação das cadeias produtivas maiores. Estamos com um problema de insumos e matérias-primas, com estoques baixos. Então, a atividade vem se mantendo alta também para tentar acertar essa questão dos estoques”, aponta. A indústria automobilística, por exemplo, ainda vem sofrendo muito pela falta de insumos para a produção de peças. “O setor de veículos automotores foi muito prejudicado pela parte das exportações. Esse desarranjo de oferta e demanda nas cadeias [produtivas] é muito prejudicial. É uma linha longa, com ajustes apertados, em termos de fornecimentos e linha produtiva. Qualquer ruptura atrapalha bastante. Então, é um setor que realmente vem tendo dificuldades.”

Rebelo fala em uma “engasgada” da indústria automobilística, que chegou a esboçar reação, mas vislumbra uma rápida retomada. “A indústria automobilística teve uma boa recuperação e agora deu uma engasgada, tanto por restrições no comércio em março quanto por falta de componentes, mas já está retomando. Os dados de abril mostraram crescimento de 8% e deve haver outro crescimento em maio. As vendas não caíram tanto com as restrições. Veremos uma aceleração na produção de automóveis nos próximos meses.”

PIB, agro e reformas

O bom desempenho da indústria brasileira no primeiro trimestre do ano impacta as projeções para o crescimento do PIB em 2021 e 2022. Divulgado na segunda-feira 7, o último relatório do Boletim Focus, do Banco Central, que semanalmente consulta analistas do mercado, estima um crescimento de 4,36% da economia do país neste ano — é a sétima semana consecutiva em que o indicador foi revisado para cima. A projeção é superior à feita pelo Boletim Macrofiscal do Ministério da Economia (3,5%). No dia 1º, o IBGE divulgou os dados do PIB do país no primeiro trimestre — crescimento de 1,2% em relação aos últimos três meses de 2020. A indústria teve alta de 0,7% no período.

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“Agora estamos vivendo uma nova rodada em que o desempenho do PIB está sendo revisto para cima. Nós [da Fiesp] não revisamos para baixo antes e agora não estamos revisando para cima. Permanecemos com os 4%. Temos uma leitura positiva da situação. O segundo semestre vai ter uma forte reação adicional da economia”, afirma Rebelo. “A partir do segundo semestre, a economia começará a reabrir porque as pessoas terão mais confiança, já que os grupos de risco [para a covid-19] estarão vacinados e, enquanto isso, o processo de vacinação vai se consolidando. Achamos que, nessa velocidade, dependendo da entrega de IFA [Ingrediente Farmacêutico Ativo, os insumos para a produção de vacinas], lá por outubro ou novembro a vacinação da população brasileira está liquidada. Isso vai dar um ânimo”, projeta.

Azevedo atrela o resultado da economia brasileira neste ano à velocidade do programa de imunização. “A projeção desse cenário depende muito da vacinação, para se ter uma ideia de como vai ser o ritmo de recuperação neste ano. Não afeta diretamente a atividade industrial, mas na hora em que houver uma vacinação em massa você vai ter uma melhora no mercado de trabalho, sobretudo naquele informal”, analisa. “Vai ter uma retomada de renda de muitas famílias. Isso certamente vai contribuir bastante para a retomada, principalmente daqueles setores que estão mais prejudicados no momento, mas também para a continuidade dessa recuperação da indústria ou pelo menos a manutenção de um patamar mais alto.”

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Mantendo a performance tradicional que alavancou a economia brasileira nos últimos anos, o agronegócio é um dos trunfos do setor industrial. Segundo um levantamento da MB Associados, os Estados cujas economias estão mais atreladas ao agro devem registrar os maiores índices de crescimento em 2021 e liderar a retomada no pós-pandemia. De acordo com o estudo, 15 Estados deverão registrar um avanço acima da média nacional neste ano — oito dos quais estão localizados nas regiões Centro-Oeste e Norte, além de grandes produtores agrícolas do Nordeste, como Piauí e Bahia. O Estado que mais deve crescer é o Mato Grosso (4,97%), acima do PIB nacional.

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“O setor do agro está indo muito bem, e isso está puxando os insumos agro de fertilizantes, defensivos etc., assim como os equipamentos como trator, colheitadeira, caminhões para o transporte. Teremos uma safra recorde neste ano, com preço alto”, diz Rebelo. “Este é o melhor dos mundos para o agro. A produção foi boa porque não tivemos nenhum evento climático generalizado, e os preços estão bons. O setor vai muito bem.”

Setor agropecuário segue sendo o esteio do crescimento econômico do país. Foto: Reprodução/Flickr

A indústria vem fazendo a sua parte, mas é imprescindível que Brasília também faça a dela. Os presidentes da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), já manifestaram publicamente o apoio à agenda de reformas capitaneada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes. Notadamente, as principais neste momento são as reformas tributária e administrativa.

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“Se começarmos o ano com uma agenda de reformas bem definida, talvez até algumas coisas sendo resolvidas ainda neste ano, isso pode sustentar uma recuperação para além do nível do pré-pandemia, mas de fato apontando para um ciclo de crescimento. É o que a gente espera”, afirma Azevedo. “Já se andou tanto em discussões sobre a reforma tributária, por exemplo, que é uma coisa super importante que pode dar um norte e um andamento para sustentar essa recuperação para 2022.”

A força do empreendedor

“[…] Quando todos pensam que está indo para o brejo, ela costuma reagir positivamente. Assim, por exemplo, na situação dramática do começo deste ano, quando a pandemia entrou sem bater na porta e quase todos passaram a enxergar o país como um pugilista estendido na lona prestes a perder por nocaute, como em tantas outras vezes, o gigante deitado parece ter se levantado antes que o juiz contasse até dez e recomeçado a distribuir sopapos. Apesar de nossos graves, conhecidos e aparentemente eternos problemas estruturais e institucionais, a despeito do Estado gigantesco, a quem invariavelmente apetece enxerir-se nas atividades econômicas privadas e bloquear a liberdade e a inventividade das pessoas e não obstante a insegurança brutal que o ativismo jurídico vem impondo, a verdade é que o juiz até hoje nunca chegou até o fatídico dez. Parece que o lutador, sempre que está prestes a desmaiar, olha para cima e, vendo um bando de aves agourentas de todos os partidos e poderes esvoaçando ameaçadoramente e antevendo-o como apetitosa carniça, encontra forças, sai do chão e põe a urubuzada para correr.” O trecho acima é de autoria do economista, professor e escritor Ubiratan Jorge Iorio, colunista de Oeste. Em artigo publicado na Edição 26 da revista, em setembro do ano passado, Iorio já se debruçava sobre a notável capacidade da economia brasileira de se reerguer em momentos de extrema dificuldade.

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A resiliência da indústria nacional, que serve como esteio de uma iminente retomada, é também resultado da força e esperança de centenas de milhares de pequenos, médios e grandes empreendedores espalhados pelo país. “Infelizmente, o empreendedor brasileiro sempre se vê em um ambiente com muitas dificuldades, muito nocivo. Temos uma série de dificuldades próprias do nosso país em vários níveis, seja no sistema tributário, infraestrutura, uma série de burocracias, uma série de problemas com os quais os empresários brasileiros acabam lidando”, enumera Azevedo. “No momento atual, também tem uma comparação com o ano passado e, como não se tem a expectativa de um tombo tão grande em termos de atividade industrial, isso também mantém um ânimo um pouco mais elevado.”

Rebelo vai além. “São características da personalidade do empreendedor identificar as oportunidades, correr o risco calculado e acreditar no futuro. Da mesma forma que temos empreendimentos que fecharam e não conseguiram a viabilidade, temos vários outros que renasceram e estão se ampliando”, diz o dirigente da Fiesp. “O empreendedor é um bicho diferente. Se ele fosse um cara mais conformado, não empreenderia, teria outra fonte de vida. Eles são otimistas. Eles sempre acreditam. É isso que puxa a humanidade, que traz o progresso. Se a gente achar sempre que as coisas são ruins, por mais que tenhamos elementos da realidade empurrando para isso, não caminhamos.” O empreendedor é o lutador que nunca vai a nocaute.

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