Vacinas: Brasil sonha com produção nacional, mas esbarra em burocracia e falta de estrutura

Ainda dependente da importação do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA), país patina na vacinação e corre contra o tempo para abrir novas fábricas
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Instituto Butantan prepara nova fábrica para acelerar a produção de vacinas contra a covid-19
Instituto Butantan prepara nova fábrica para acelerar a produção de vacinas contra a covid-19 | Foto: Divulgação/Governo do Estado de São Paulo

Em meio à dificuldade mundial para a obtenção do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) que possibilita a produção de vacinas contra a covid-19, o Brasil espera, em breve, não depender mais da importação de insumos na corrida contra o novo coronavírus. O país sofre com constantes atrasos dos fornecedores internacionais, o que vem provocando a interrupção da vacinação em várias cidades. As principais apostas para sanar esse gargalo são a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantan — responsáveis pela produção e entrega dos dois principais imunizantes utilizados no país contra a covid-19, a vacina da Oxford/AstraZeneca e a CoronaVac. As duas instituições trabalham na construção de novas fábricas destinadas à produção 100% nacional, mas não se sabe ao certo quando elas estarão em operação.

“Existe uma grande diferença entre descobrir, desenvolver e fabricar uma vacina. Fabricar é o mais fácil de tudo. O problema é descobrir e desenvolver”, explica a Oeste o imunologista Jorge Kalil Filho, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e professor titular de Imunologia Clínica e Alergia da FMUSP. “O Butantan não tinha uma fábrica para esse tipo de cultura de máxima segurança. Pegaram uma área que era de hemoderivados para fazer uma fábrica nesse lugar. A Fiocruz tinha alguns lugares, mas até agora não está muito claro como é o contrato da Fiocruz com a AstraZeneca.”

Leia também: “O que falta para o Brasil acelerar a vacinação?”, reportagem de Cristyan Costa e Paula Leal publicada na Edição 50 da Revista Oeste

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Oeste traz a seguir um balanço com a situação atual de algumas das principais vacinas que já são ou serão utilizadas no Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde, além de candidatas que dependem da chancela da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na lista, aparecem ainda a vacina russa Sputnik V — cujo pedido emergencial de importação apresentado por dez Estados brasileiros foi negado pela agência regulatória — e o imunizante em forma de spray nasal desenvolvido por um grupo de cientistas liderado por Kalil. Confira:

Oxford/AstraZeneca

A principal aposta do governo brasileiro para o combate à covid-19 é a vacina produzida pela Universidade de Oxford em parceria com o laboratório AstraZeneca, que começou a ser distribuída e aplicada no Brasil em janeiro pela Fiocruz. A tão sonhada produção 100% nacional só será possível após a assinatura do contrato de transferência de tecnologia com a AstraZeneca, o que ainda não aconteceu. Segundo a própria Fiocruz, não há previsão de data para que o acordo seja firmado. O cronograma inicial estipulava que o contrato seria fechado ainda no ano passado. Desde então, houve sucessivos adiamentos. “Não há sinalização de prazos, quantidades ou preços. A AstraZeneca tem outros compromissos internacionais a cumprir”, afirma a Fiocruz.

Leia mais: “Fiocruz não tem prazo para iniciar produção de vacina 100% nacional”

No fim de 2020, a instituição anunciou a construção da sua nova fábrica no Rio de Janeiro, o Complexo Industrial de Biotecnologia em Saúde (CIBS), que poderia aumentar em até quatro vezes a capacidade de produção de imunizantes e biofármacos. No dia 30 de abril, a Anvisa concluiu sua inspeção no local e autorizou a Fiocruz a produzir o IFA da vacina da AstraZeneca. Entretanto, sem a assinatura do contrato de transferência de tecnologia, esse processo ainda não pode ser iniciado.

CoronaVac

Vacina mais aplicada na campanha de imunização do Brasil contra a covid-19 até aqui, a CoronaVac — produzida pelo laboratório chinês Sinovac, em parceria com o Instituto Butantan — também depende de uma nova fábrica que vem sendo construída para que possa ser totalmente produzida em território nacional. Segundo projeções apresentadas pelo Butantan, a fábrica deve estar em funcionamento no início de 2022. “Eles já disseram que em agosto estariam produzindo [a vacina] no Brasil. Tem que ter cuidado com o Butantan, que é movido por marketing e não por dados”, critica Kalil. Até o dia 30 de abril, o instituto havia disponibilizado ao Ministério da Saúde 42 milhões de doses da CoronaVac. Em agosto, segundo o contrato firmado com o governo federal, o total de doses chegará a 100 milhões.

Enquanto a nova fábrica não fica pronta, a dependência de importação do IFA segue sendo um entrave. Nos últimos dias, pelo menos nove capitais brasileiras tiveram de suspender a aplicação da segunda dose do imunizante em função do atraso na entrega de novos lotes da vacina: Aracaju, Belo Horizonte, Campo Grande, Fortaleza, Goiânia, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Porto Velho e Recife. Em outras sete (Boa Vista, Curitiba, João Pessoa, Macapá, Maceió, Natal e Salvador), os estoques estavam baixos até o início desta semana.

Em resposta às críticas, o diretor do Butantan, Dimas Covas, e o governador de São Paulo, João Doria, citaram, em entrevista coletiva no dia 28 de abril, os atrasos nas entregas da vacina da Oxford/AstraZeneca pela Fiocruz. “Não é para criticar a AstraZeneca nem a Fiocruz, mas tivemos oito alterações da entrega da vacina da AstraZeneca em relação ao que estava acordado. O Butantan teve uma [mudança no cronograma]”, reagiu o tucano. “O Butantan está cumprindo o seu dever de entrega da vacina, o que não está ocorrendo com a Fiocruz. Não quero desmerecer a Fiocruz nem a AstraZeneca, mas os problemas não estão aqui, isso eu posso garantir.”

ButanVac

Diante das dificuldades para a importação do IFA da China, o Butantan lançou uma nova aposta para a campanha de vacinação contra a covid-19. Trata-se da ButanVac, “o primeiro imunizante do tipo fabricado integralmente no país, sem a necessidade de importação da matéria-prima, como ocorre atualmente”, garante o instituto. Em coletiva no dia 28 de abril, Doria confirmou o início da produção de 1 milhão de doses — a expectativa é a de que esse montante chegue a 18 milhões até junho. No segundo semestre, a projeção é alcançar 40 milhões de doses.

O primeiro lote de 520 mil ovos chegou ao complexo fabril do Butantan no fim de abril e foi enviado às incubadoras para transferência e inoculação do vírus. Um dos trunfos do Butantan para a produção da ButanVac é que a tecnologia para a obtenção do IFA é largamente dominada pelo instituto, pois já está disponível na fábrica de vacinas contra a gripe comum — utilização do cultivo de cepas em ovos de galinha, o que gera doses de vacinas inativadas, feitas com fragmentos de vírus mortos. “A vantagem é que o Butantan já tem uma fábrica. A fábrica de gripe pode ser utilizada para essa nova vacina”, atesta Kalil. O xis da questão, a partir de agora, é obter a liberação da Anvisa, mas se trata de um longo caminho.

No dia 23 de abril, o protocolo do estudo clínico de fases 1 e 2 da ButanVac foi encaminhado à agência, que solicitou mais documentos. Caso o órgão aprove o material enviado pelo Butantan, o instituto poderá iniciar os testes em humanos, que têm duração estimada de até 20 semanas. “Aguardamos agora o parecer da Anvisa. Esperamos que isso ocorra dentro do mais curto prazo de tempo possível”, afirma Dimas Covas. “É uma vacina que pode fazer diferença a partir do segundo semestre, tanto para o Brasil quanto para outros países.” Kalil, por sua vez, afirma que é preciso aguardar o desenrolar dos estudos e, sobretudo, os resultados dos testes clínicos antes de se falar em cronograma de produção da possível vacina. “Pode ser que [a ButanVac] seja uma excelente vacina, mas tem que testar e comprovar”, pondera.

Sputnik V

A negativa da Anvisa ao pedido de importação da vacina russa Sputnik V apresentado pelos governos de dez Estados brasileiros — Bahia, Acre, Rio Grande do Norte, Maranhão, Mato Grosso, Piauí, Ceará, Sergipe, Pernambuco e Rondônia — foi o anticlímax de uma novela que envolveu um poderoso lobby de governadores e empresários e uma tumultuada negociação junto aos fabricantes do imunizante. O veto da agência foi sacramentado no dia 26 de abril e, desde então, o Fundo Soberano da Rússia, responsável pelo desenvolvimento da vacina, declarou guerra à Anvisa.

O fabricante do imunizante russo anunciou que processará o órgão regulatório brasileiro por “difamação”. Ao rechaçar a solicitação emergencial de importação, a Anvisa alegou que os estudos relacionados à Sputnik V não atestavam a segurança e a eficácia da vacina. No material analisado, os pesquisadores identificaram a presença de adenovírus replicante (com capacidade de reprodução no corpo humano), que oferece riscos à saúde. Segundo a Anvisa, o patógeno pode levar desde infecções variadas até a exacerbação da resposta imunológica. Entre os motivos que levaram à recusa da agência, também estão dados não confiáveis e falhas no monitoramento de eventuais efeitos adversos e no controle de qualidade da fabricação (leia aqui todos os detalhes).

Leia mais: “Sputnik V: os 5 pontos que fizeram Anvisa negar importação da vacina russa”

Apesar da negativa inicial, o diretor de medicamentos e produtos biológicos da Anvisa, Gustavo Mendes, afirmou, em entrevista à RedeTV! no dia 3 de maio, que a vacina russa ainda pode vir a ser utilizada mais adiante no Brasil. “A gente tem deixado o canal aberto. Recebemos alguns dados adicionais e já estamos avaliando. Sabemos que a vacina não está inviabilizada, é uma tecnologia que faz sentido técnico e científico. São questões que podem ser esclarecidas”, disse.

Janssen

Desde que começou a ser aprovada por agências regulatórias de saúde de diversas partes do mundo, a vacina contra a covid-19 da Janssen — braço farmacêutico da Johnson & Johnson — foi apontada como a “ideal” para o Brasil, pois teria capacidade de acelerar a imunização no país por ser aplicada em dose única, ao contrário da maioria dos imunizantes usados no combate à doença. Mesmo assim, o contrato entre a empresa e o governo federal só foi assinado em meados de março, em um “pacote” que envolveu também a Pfizer: o Ministério da Saúde garantiu a aquisição de 138 milhões de doses das duas vacinas (100 milhões da Pfizer/BioNTech e 38 milhões da Janssen). A primeira remessa das vacinas da Pfizer, com 1 milhão de doses, já chegou ao Brasil e foi distribuída a Estados e municípios.

Leia também: “Ministério da Saúde recomenda intervalo de 3 meses entre doses da Pfizer”

Segundo o contrato, há a expectativa do envio de 16,9 milhões de doses do imunizante da Janssen até o fim de julho. O restante deve chegar até novembro. A Anvisa aprovou o uso emergencial da vacina no dia 31 de março. A contragosto, o governo brasileiro pagou cerca de R$ 4 milhões referentes a um seguro internacional para cobrir a responsabilidade em caso de efeitos adversos da vacina. Para a Pfizer, o valor desembolsado no seguro foi de R$ 6 milhões.

Spray nasal

Há um outro tipo de potencial imunizante contra a covid-19 que despertou esperança de que o Brasil possa produzir uma vacina 100% nacional. Trata-se de um spray nasal, a aposta de um grupo de cientistas capitaneado pelo imunologista Jorge Kalil. Ele é o coordenador da pesquisa, iniciada em março do ano passado, logo no início da pandemia (leia aqui a entrevista de Kalil a Oeste publicada na Edição 52 da revista), e desenvolvida no Instituto de Investigação em Imunologia (III), sediado no Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor), em São Paulo.

“Nós já definimos qual é o antígeno, qual é a via de inoculação, como vão ser as nanopartículas… Nós já definimos como vai ser o protótipo vacinal. Agora estamos trabalhando em como fazer esse protótipo, para que seja factível para produzir industrialmente. Estamos procurando também empresas nacionais que possam fabricá-lo”, afirmou Kalil em nova entrevista a Oeste na qual atualizou os próximos passos do estudo.

A candidata a vacina em forma de spray nasal ainda não chegou à fase clínica, mas apresentou resultados promissores em estudos com camundongos. O objetivo de Kalil é avançar para os testes clínicos ainda neste ano, com o início dos testes em humanos. “Eu estou trabalhando para isso. Vamos ver como as coisas evoluem nessas próximas etapas”, diz o imunologista.

“Há um jargão no desenvolvimento de produtos biológicos e farmacológicos, que é o ‘vale da morte’ que temos de atravessar”, explica Kalil. “O cientista faz uma descoberta, você tem que ter um produto industrializável, tem que ver o método de produção, tem que testar o que a gente chama de prova de conceito em animal. Isso é um problema em todo mundo, particularmente no Brasil, onde não temos muitas dessas etapas bem estabelecidas. E requer muito dinheiro”, afirma. “A etapa mais importante é a descoberta, e é a mais barata. A parte de desenvolvimento vai ficando mais cara e mais difícil de fazer. […] Nós estamos todos atravessando esse ‘vale da morte’ em diferentes estágios.”

Embora ainda não seja possível estabelecer um prognóstico em relação a prazos, é provável que um cenário em que as vacinas sejam produzidas no país, distribuídas em larga escala e com rapidez se torne mais factível no primeiro semestre de 2022. Por enquanto, infelizmente, não são poucos os obstáculos a serem superados.

Leia também: “Precisamos fortalecer a ciência brasileira”, entrevista de Jorge Kalil publicada na Edição 52 da Revista Oeste

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